Reminiscências da Juventude

Trata-se de uma nova roupagem das Crônicas Londrinenses, com relatos vividos entre os anos de 1955 e 1965, adentrando até o início da década de 70.

Mantém conteúdo baseado em fatos, acrescido do bom humor, fantasia e ironia característicos dos meus escritos.

Eventualmente, poderá contar com a colaboração de autores convidados.

CONTEÚDO

O "Pau de Bosta"

Quando se é do interior, a imaginação e criatividade são muito mais férteis no assunto folguedos de infância e adolescência.

Se existe uma brincadeira mais emocionante e fétida, esta é o “Pau de Bosta”. Pelo título, já se pode ter ideia do poder hilário e impactante do jogo.

Eu já me encontrava em plena adolescência quando aprendi a executar com destreza a brincadeira. Algumas condições são importantes para a finalização a contento. É preciso ter um grupo de, no mínimo, três pessoas para encenarem os brigões. Um quarto personagem obrigatório é o indivíduo-alvo. A brincadeira deve ser executada à noite, na rua e, de preferência, no espaço entre um poste de iluminação e o próximo, onde a penumbra é importante como cenário. Deve haver também um terreno baldio, um lote de terreno desprovido de construção e, se possível, uma moita. Se não houver o terreno vago, existe alternativa mais urbana, que o leitor pode arquitetar de acordo com sua imaginação. Estas são as condições para a brincadeira.

O primeiro passo, é um componente do grupo ir cagar no moita. Quanto maior o troço, mais eficaz será a “matéria prima”. Em seguida, é arrumar um pedaço qualquer de galho de árvore, bambu, ripa de madeira ou algo parecido, para servir como o pau-de-bosta e instrumento de briga. Ato contínuo, embostear o pau-de-bosta, deixando livre apenas uma ponta, a qual será segurada e manejada pelo primeiro brigão.

Durante o planejamento, é estabelecido se o indivíduo-alvo será um amigo ou não e, dependendo da situação, tal planejamento deve ser feito com antecedência, de maneira a saber o dia e horário em que o indivíduo irá transitar pelo local do jogo.

Figura 1: Encenação da briga com o pau-de- bosta.

Confirmada a aproximação do indivíduo-alvo (D), dois brigões (A e B) simulam estarem discutindo e brigando, ficando o terceiro (C) incitando o embate. Um dos brigões (A) já está com o pau-de-bosta na mão e usa-o à guisa de instrumento de briga.

            A – Você é um grande medroso!

            B – Pois sim, você é que é um covarde!

            C – Vai em cima dele!

Nesse momento, o indivíduo-alvo já participa como espectador do embate, estando bem próximo.

            B – É… você é mesmo um covarde! Está valente porque está armado com este pau.

            C- Já que é assim, entregue o pau pra ele (D) segurar.

Assim que a vítima, sem perceber o conteúdo devido à penumbra, segura a vara embosteada, pra deixar a coisa mais emocionante, o brigão (A) puxa a vara para si, deixando todo o volume de bosta na mão do coitado da vítima.

Geralmente, era uma brincadeira que acabava em briga verdadeira, seja in loco ou mais tarde.

Sabores, odores e visões inesquecíveis

O ser humano percebe o ambiente por meio dos seus órgãos sensoriais que captam os conhecidos cinco sentidos: visão, audição, olfato, gustação e tato. Um sexto sentido, chamado cinestesia, é o trabalho do cérebro em processar as informações sensoriais em conjunto com experiências passadas. Tal se configura como uma percepção extra-sensorial, às vezes considerada sobrenatural, como são os casos da intuição e da premonição, por exemplo. Quantas vezes já tivemos a sensação de já ter estado em um determinado lugar que nunca fomos antes ou já ter ouvido determinado som inédito ou já ter sentido determinado cheiro jamais sentido antes? Outras vezes, temos a sensação de já conhecer alguém, mesmo sendo um primeiro encontro. Para os que entendem sobre carma e reencarnação ou renascimento, tudo isso pode ser compreendido mais facilmente.

Embora para mim seja a visão o sentido mais importante, o meu cérebro processa a memória olfativa de forma mais evidente. Ou seja, uma vez captado um determinado odor, nas próximas vezes lembrarei perfeitamente o cheiro e as circunstâncias em que isso ocorreu pela primeira vez. É claro que isso vale igualmente para os demais sentidos, talvez num grau menos aguçado que o olfato. Quem sabe isso se deva ao fato de eu ser do signo do cachorro no horóscopo chinês?

Quanto mais forte a nossa memória sensorial, mais longínquas e detalhadas são as recordações de momentos passados.

Lembro-me das sensações experimentadas da primeira manteiga, por exemplo. Acho que só havia uma marca, a Aviação, que existe até os dias de hoje, vendida na mesma embalagem alaranjada, com um avião e logotipo verde escuro. O cheiro e o sabor continuaram inalterados, qualidades raríssimas. Eu ainda prefiro a embalagem em lata redonda, que me leva sempre à lembrança da infância passada na casa com quintal grande onde havia uma árvore de uva japonesa.

Já escrevi sobre os diálogos que tive com a uveira. Aqui descreverei a sensação que tive ao saborear pela primeira vez a fruta da uva japonesa. Sem conhecer, abocanhei um pedaço da fruta junto com a semente dependurada. A sensação não foi das melhores, pois, além do caroço duro da semente, a fruta não estava em sua maturação completa. Foi um gosto misto de algo leitoso e marrento. Todavia, um sabor inédito e inesquecível. Mais tarde, sob a orientação de um amigo que já conhecia a fruta, escolhi uma que havia atingido a sua maturação plena, com aspecto murcho e forte odor ácido e adocicado, quase próximo ao cheiro apodrecido. O sabor, no entanto, em nada lembrava algo podre e sim, um gosto único, bem doce, inesquecível.

Foi nesta época que conheci uma bebida que marcou a minha memória gustativa e olfativa que caracteriza minha predileção pela Coca-Cola. Esta ainda não era tão popular quando tomei pela primeira vez a Crim-Pola. Assim era o nome daquele refrigerante que tinha um gosto inédito e estranho. Mais tarde fui conhecendo outras bebidas como a Grapette, nome dado a um refrigerante a base de suco de uva; a Cerejinha, que vinha numa garrafa baixinha e gordinha. A primeira vez que tomei Chocomilk foi na década de 50 durante a inauguração do Mercado Municipal de Londrina, no bairro Shangri-lá. Eu nunca havia estado num ambiente tão amplo, cheio de lojas e aglomeração de pessoas. O sabor do achocolatado pronto para beber foi uma experiência inesquecível. Em casa, eu só conhecia o leite misturado com um chocolate em pó, cujo nome lembra algo como Xadrez. Toddy era só para os ricos. Na época, a Batavo usava o nome Choba para o achocolatado inédito do mercado brasileiro. A partir de 1962, mudou o nome para o atualmente conhecido Chocomilk, mantendo embalagem e qualidade originais.

Já contei sobre a efêmera oferta de leite como merenda escolar. Era servido quente em copo de vidro. Sempre que tomo o leite quente puro, sou levado a lembrar daqueles poucos dias em que o experimentei pela primeira vez. Claro que o sabor e aroma daquela época eram mais fortes e gostosos.

Um sabor e visão inesquecíveis são os de uma torta úmida que era vendida num bar perto de casa. A consistência caramelizada do petisco, de sabor e odor marcantes, nunca mais encontrei em ofertas atuais. Eu posso garantir que daquele doce eu realmente sinto saudades.

Figura 1: Takao e o Eucalyptus citriodora do viveiro florestal da Klabin, PR. (1968).

A primeira vez que percebi o cheiro de eucalipto foi durante minhas pescarias e o nadar pelados num riacho na periferia de Londrina. Bem mais tarde, nos estudos da faculdade, consegui identificar aquele odor marcante como advindo das folhas de Eucalytpus citriodora. Seu nome científico retrata genialmente o cheiro perfumado de limão que a árvore exala. Mesmo uma única árvore isolada ou uma alameda ou uma floresta desta espécie de eucalipto, é capaz de exalar aquele perfume para o ambiente do seu entorno. O antigo viveiro florestal da antiga empresa papeleira Klabin do Paraná, em Monte Alegre, tinha em todo seu contorno uma fileira deste eucalipto. Uma das funções era o de proteger a área como cortina quebra-vento. A outra, talvez, fosse a de propiciar um ambiente perfumado para os que ali trabalhavam. Havia até queixa de que provocava dor de cabeça no fim do dia.

O último odor que vou relatar e que me é inesquecível, foi quando em minhas andanças pela redondeza de onde eu morava, adentrei numa casa abandonada. Era de alvenaria, com uma varanda na frente e quintal grande, construção bastante comum naquela época. Pelas condições de conservação, estava vazia e abandonada há muito tempo. A varanda era usada para a defecação de transeuntes apurados. Ao adentrar a varanda, a visão das bostas, umas mais frescas e outras mais secas e enegrecidas não foi das melhores, mas impregnou minha memória visual. Mas, o que permaneceu indelével foi o cheiro da bosta humana, seca e enegrecida. Dentre os animais, acho que o resultado do catabolismo do ser humano é o mais fedido, pois sendo omnívoro, come de tudo e o descarte é um verdadeiro desastre, visualmente e odoriferamente.

Ouro para o bem do Brasil

O início da década de 60 no Brasil foi marcado por um período de turbulência social, com movimentos estudantis e sindicais, acompanhando uma tendência mundial de transformações, que perdurou pelas duas décadas seguintes.

No nosso país, ocorreu o golpe militar de abril de 1964, com a deposição do governo de João Goulart, iniciando-se a ditadura que se prolongou até 1985.

Logo de início, os novos governantes deflagaram uma campanha em nível nacional, para arrecadar valores por meio de doação popular. Claro, pois não sabiam como gerenciar a economia de um país. A campanha levou o pomposo nome de “Ouro para o bem do Brasil”. Ao pé da letra, era para entregar o ouro para o governo. Podia-se doar de tudo, desde que fosse de ouro: alianças, anéis, prendedores de gravata, qualquer tipo de joias.

O argumento dos organizadores era usar a arrecadação para pagar a dívida externa e salvar o país do comunismo.

Entrada para fazer a doação à campanha. Fonte: Internet.

Passou-se o tempo e o governo militar nunca prestou conta da aplicação dos mais de 400 quilos de ouro e aproximadamente meio bilhão de cruzeiros doados pelo povo. Apesar das denúncias, o governo sempre desmentia ou dava uma desculpa esfarrapada.

Ao fazer a doação, cada um recebia um “comprovante” na forma de uma aliança de metal, com a inscrição Doei ouro para o bem do Brasil – 1964.

Eu mesmo, recebi e ostentava, inocente e orgulhosamente, o pequeno troféu.

Imagem do anel em latão que se recebia como comprovante de doação. Fonte: Internet.

Em Londrina, um dos locais para se fazer a doação era na sede de um banco, não me recordo o nome. Ficava na esquina da Maranhão com a Mato Grosso, na praça Willie Davids. Foi ali que fiz a minha doação, um anel familiar.

Haviam preparado próximo da entrada, um tipo de estande para expor alguns dos objetos doados, para servir de estímulo e despertar o espírito nos clientes que ali frequentavam.

Um dos objetos mais vistosos, talvez o que tivesse maior valor, era uma enxada em ouro maciço. Em tamanho natural. Penso que devia pesar mais de cinco quilos. Tinha sido mandado confeccionar pelos irmãos Godoy, fazendeiros de café e pioneiros da cidade, especialmente para ser doado à campanha.

Deve ter sido fundida, transformada em lingote e vendida no comércio internacional, por dólares. A cor do dinheiro ou de sua aplicação, nenhum dos doadores ficou sabendo.

Tempos que, espero, não voltem jamais.

O despertar para Brenda Lee

Eu estava no segundo ano ginasial, o que corresponde ao sexto ano do ensino fundamental do atual sistema brasileiro. Devia ter a idade entre 14 e 15 anos. Período da vida tranquilo, numa cidade tranquila do interior. O colégio ficava a umas 11 quadras da casa onde eu morava. Eu percorria o caminho, ida e volta, a pé, na parte da tarde.

De manhã e após as aulas, a preocupação era brincar nas ruas da redondeza ou na casa de algum amigo, todos da vizinhança.

O meu amigo de folguedos, o Eduardo morava na casa vizinha. Nos fundos da minha casa, ficava a casa do Dermival, que tinha o apelido de “Bichinho”. Contarei sobre nossas peripécias em um futuro conto.

O terreno da casa do Eduardo era enorme. Ocupava quatro lotes (também denominadas datas, à época). Na realidade, a propriedade da família estendia-se por mais de uma dúzia de datas, ao longo da rua Guaranis. Ia até a data em que ficava a casa da Marlene, jovem cujo nome foi o título de um conto publicado em edições anteriores. Com o passar do tempo, os terrenos foram vendidos aos poucos, até restar aquele quintal de grandes dimensões de sua casa, à época desta história.

Aquele pátio era o parque de diversões dos inúmeros amigos que tínhamos. Bastante arborizado, com fruteiras, como abacateiros, ameixeiras e mangueiras, todas já adultas e produzindo frutas deliciosas, que comíamos coletando no pé. Foi ali que conheci o caqui chocolate, conhecido no sul do Paraná como caqui café. Outra fruta nova para mim foi a ameixa preta, japonesa. Havia uma grande árvore, não fruteira. Na minha lembrança de suas características, penso que era um exemplar de jacarandá-mimoso, Jacaranda mimosifolia D. Don, da família das Bignoniáceas. Nesta árvore, brincávamos de tarzam, subíamos nela para apreciar a redondeza, às vezes, usando binóculos. Nela, havia sido instalado um balanço, que era muito disputado.

Muitas vezes, alheio aos folguedos dos amigos, eu ficava de conversa com uma das irmãs do Eduardo, a Rosa. Ela tinha uns dois anos a mais que eu e era muito desenvolta em assuntos da juventude. Acho que ela já até namorava, na época. Pelo menos, flertava bastante.

Foi num daqueles lances que eu vim saber da existência de Brenda Lee.

A Rosa estava em seu quarto, que era uma extensão da casa principal, ao lado do poço de água. Eu cheguei para conversar e me sentei num dos degraus da escada que dava acesso ao aposento. Enquanto se desenvolvia o bate-papo, ela se distraía com seu cabelo e as músicas no toca-discos. Com o cabo de um pente feminino, ela retirava um pouco de líquido ou creme de um pote, colocava em sua mão, distribuía na outra e alisava languidamente a longa cabeleira. Era um ritual, ao mesmo tempo, trabalhoso, mas bastante sensual. Sua duração adentrava alguns discos de baquelite, daqueles de apenas uma faixa em cada lado. E assim se desenrolava o nosso lero-lero. Ouvíamos os cantores da época, como Elvis Presley, Neil Sedaka e Paul Anka, assim como outros hits, a maioria de rock-and-roll. Estavam em evidência também, cantoras como Connie Francis e Doris Day.

Quando se esgotava a sua discoteca, ouvíamos as músicas tocadas no rádio. Foi nesta fonte que ouvi pela primeira vez a música “Jambalaya”, cantada por Brenda Lee. Despertou a minha curiosidade a sua voz infantil, mas forte e aveludada, características que a acompanharam durante toda a sua vida artística.

Brenda Lee, nascida na Geórgia, EUA, em 1944, começou a cantar em público desde os cinco anos de idade. Perdeu seu pai em 1953 e aos 10 anos adotou seu papel como principal sustento da família, por meio da música. Durante a década de 60, teve um total de 37 sucessos, número até hoje superado apenas por Elvis Presley, The Beatles, Ray Charles e Connie Francis. No ano passado, em 2023, a sua interpretação de Rockin’ Around the Christmas Tree, que se tornou a canção tradicional de Natal nos EUA desde 1958, alcançou o número um em Hot 100, superando todos os recordes. É viva, ativa e mora em Nashville, Tennessee.

Naquela mesma semana que a ouvi cantar no rádio, fui ao centro da cidade para adquirir um disco. Era um pretinho, de baquelite, quebrável, apenas de duas faixas, uma de cada lado. Não me lembro que músicas continha o disco. Lembro somente que o ouvia todos os dias, em nossa radio-vitrola. Tornei-me um fã de Brenda Lee. Adquiria seus discos assim que era lançado, no Brasil, pela gravadora Decca. Possuía quase a sua discografia inteira, em discos LP. Depois, com o advento da fita cassete, eu comprei alguns. Com a invenção do CD, comprei alguns no Japão e na Alemanha. Enquanto solteiro, eu mantinha suas fotos e capas de discos na parede de meu quarto, tanto em Curitiba, como em Londrina.

Meu quarto, em Curitiba, 1966.

Certa vez, alguns colegas de universidade, sabedores de meu fanatismo (acho de daí se origina a palavra, de ser um fã muito dedicado) pela cantora, lançaram um boato sobre a morte de Brenda Lee. Naquele tempo, as notícias não eram on-line nem existia o Google. Assim sendo, passei aquela semana deprimido com a notícia. Fui motivo de chacota, inocentemente. Mas, passou e descontei depois naqueles que haviam solto o boato.

Mesmo depois de casado, mantive a minha discoteca brendaleeana por muito tempo, adicionado de fitas cassete e CDs.

Minha esposa não tem ciúmes. Certo dia, deixou os meus filhos Gustavo e Eduardo brincarem com os discos, quase todos eles, fazendo-os de prancha de praia no assoalho do apartamento! Imaginem o resultado: discos arranhados até o último sulco! Ela não é ciumenta!

Mesmo assim estragados, mantive os discos em suas capas e guardei por muito tempo, até há uns cinco anos atrás. Foi numa dessas limpas que a gente realiza de vez em quando, que finalmente, descartei de vez os LPs.

Mas, alguns CDs, eu os mantenho ainda, mesmo na era de spotify e similares.

Alguns CDs adquiridos em viagens ao Exterior.

Para o deleite dos queridos leitores, que estão familiarizados com a cantora ou aos que gostariam de conhecer a sua música, deixo aqui o link para ouvir e assistir The End of the World, uma das mais belas canções compostas até hoje, que ficou melhor ainda na aveludada e forte voz de Brenda Lee. Se ouvir num fone de ouvido, melhor. Talvez seja necessário pular o anúncio do YouTube. É só clicar algumas vezes no quadradinho no canto direito, embaixo da tela.

https://www.youtube.com/watch?v=KLkLs6SvyDM

Desejo um ótimo entretenimento.

 

A casinha comunitária

Para quem já morou no interior, em casa de madeira, simples, em quintal amplo, sabe o que é uma casinha.

Para outros que são de uma urbe mais desenvolvida, explico o que é.

Casinha é o termo carinhoso para uma latrina construída distante da casa, propriamente dita. Geralmente é constituída por um buraco profundo, aberto no terreno, sobre o qual é edificada uma verdadeira casinha, em madeira, com laterais, telhado e assoalho. No meio do assoalho é aberto um orifício de dimensão adequada, para despejar o resultado do catabolismo  humano, número um e número dois. Na frente do orifício pode existir um pequeno anteparo, para impedir que a urina se espalhe pelo piso. Nesta estrutura simples, o ocupante precisa ficar de cócoras para o seu serviço. Uma alternativa, mais elaborada, é a construção de um assento em madeira, com altura ergonômica para que a pessoa fique sentada confortavelmente, com os pés apoiados no chão. Este banco ocupa toda a largura da parede de fundo da casinha.

Em recente visita ao Parque Histórico de Carambeí, fotografei um exemplo de casinha deste modelo mais elaborado.

Casinha em Carambeí, PR, 2024.

Esta visita foi extremamente didática, especialmente para os nossos netos, que levaram um susto ao abrirem a porta da casinha.

A casa onde morei durante minha adolescência e juventude, descrita no capítulo “O despertar para Brenda Lee”, é um exemplo típico de uma habitação do interior. Como o terreno era grande, existiam duas moradias ao longo do lote, construídas em madeira e separadas por uma cerca de balaústre. Havia duas árvores no quintal, um damasqueiro e uma ameixeira. No centro, localizava-se o poço comunitário para as duas vivendas. Este era bem elaborado, circular, com base murada de tijolos até a uma altura de uns 80 cm. Sobre a boca do poço existia a estrutura de sarilho com manivela, que movimentava o balde de puxar água. Este era preso com corrente de um metro de comprimento e o restante, por corda de sisal. 

Esta estrutura sobre o poço d’água em japonês é ino-ue, ou seja, meu sobrenome origina-se daí. Talvez, o primeiro ancestral tivesse sido um furador de poço ou construtor do sarilho.

A minha tarefa diária era puxar a água do poço, cujo balde consistia de uma lata de óleo de 20 litros, devidamente adaptada. A profundidade do poço devia ser de uns 12 metros. No início, eu acionava a manivela com os dois braços. Com o passar do tempo, fortalecido pelo exercício, eu o fazia apenas com um deles, alternando entre direita e esquerda a cada balde puxado. A água era armazenada num barril, estrategicamente estacionado na saída da porta da cozinha, numa área coberta e sombreada, onde ficava também o nosso ofurô (banho de imersão, de origem japonesa; o nosso, era um tambor de combustível, adaptado para aquecimento de água por serpentina). O barril de água, para uso geral na casa, tinha 200 litros. Então, para enchê-lo, era preciso puxar o balde d’água mais do que 10 vezes. A água do ofurô era trocada duas vezes por semana. A minha musculatura é devida a este exercício, que perdurou muitos anos, antes de ser instalada a água encanada.

A casinha, igualmente comunitária, ficava na divisa entre as duas casas. Na realidade, eram duas estruturas gêmeas, uma de cada lado da cerca, compartilhando o mesmo buraco no terreno. Não sei como era no lado do vizinho. A nossa, tinha o assento adequado, sobre o qual se sentava. Na parede do lado direito, na altura certa, ficava o araminho que segurava os pedaços de jornal, devidamente recortados em tamanho aproximado de uma folha A5, para o seu uso como pH (papel higiênico, que era uma raridade, na época). Tudo era jogado para dentro do buraco. O ambiente de serviço era bem cheiroso. Desodorante de ambiente não existia. E nem adiantaria, é claro. Cresci neste ambiente com perfume natural. Isto me fortaleceu para aguentar, anos mais tarde, similitudes em locais ermos na Amazônia e região Nordeste do Brasil e em Moçambique.

Às vezes, ocorria o timing coincidente no uso da casinha comunitária. Quando eu estava do lado de cá e percebia a entrada de alguém do outro lado, ficava bem quietinho, quase sem respirar, para não denunciar a minha presença. Se estivesse fazendo qualquer dos números, segurava. Era constrangedor perceber os excrementos do vizinho caindo ruidosamente no fundo do fosso, sem falar nos hilários ruídos gasosos. Era possível até adivinhar o seu sexo, se homem ou se mulher.

Muitas outras intimidades testemunhei naquela casinha comunitária.  

Glenda, a professora de inglês

Um nome chique para uma mulher jovem, bonita, elegante e charmosa. Ela era a nossa professora de inglês no segundo ginasial, naquele ano fatídico da reprovação. Única em toda minha vida, enquanto estudante.

Bem-feita, de corpo e alma, o nosso encontro era às sextas-feiras. De manhã, período destinado aos meninos do ginasial. O turno da tarde era destinado às meninas.

Era a filha de um outro professor, também de inglês. Grandalhão e com cara de poucos amigos, era tido como o “Tigre de Borneo”, que deixava vários alunos para exames e para a segunda época (um tipo de repescagem para quem não era aprovado no exame regular). Minha turma teve a sorte de não cair em suas garras.

Caímos nas garras da Glenda!

Ela tinha os cabelos longos e negros, que adornavam aquele rosto quadrado, quase pequeno em relação aos grandes olhos e uma boca de deixar qualquer um boquiaberto. Estava sempre de blusa e saia (na época, as mulheres eram mais elegantes e femininas, justamente por trajarem vestido e saia, contrapondo-se ao desengonçar das atuais fêmeas que usam calça, às vezes, até ternos). O comprimento das saias de nossa professora era até o ponto charmoso pouco abaixo dos joelhos, que mostrava as suas pernas bem torneadas e firmes.

As aulas de inglês eram às 10 horas. De manhã, para a chegada da professora, fresquinha e cheirosa. O ritual era o mesmo. Ao bater o sinal para entrada, os alunos enfileiravam-se ao longo da parede, a partir da porta. Um a um, era permitida a entrada na sala após cumprimentar devidamente a docente, que correspondia de maneira análoga, a cada aluno.

Com sua voz abaritonada, Glenda dominava a classe quando explanava a lição em meio ao seu passear vagaroso, quase indolente, pelo recinto, passando fila por fila das carteiras. A sua figura e a fala eram as atenções dos meninos mais ousados, que se babavam quando ela chegava perto. A danada sabia disso e tornava o suspense ainda maior, fixando a sua vista para o infinito e seduzindo a atmosfera ao redor com o seu olhar cativante, quando repentinamente, desviava os olhos para o aluno em alvo. Penso que alguns até chegavam ao êxtase. Enquanto isso, alguns que estavam mais distantes, mexiam as mãos por dentro da calça.

A aula mais aguardada era aquela quando a professora distribuía as provas corrigidas. Neste dia, por coincidência ou propósito, Glenda vestia a sua blusa de seda branca, com colarinho e mangas compridas. A parte da frente era abotoada e ela deixava um botão aberto, o que permitia a visão parcial de seu busto, com seios não muito grandes, mas bem formados e firmes. O ritual da entrada era o prenúncio de uma sessão bem abastecida de tensão. Os mais ousados, até davam uma paradinha (e olhadinha…) ao cumprimentar a docente, ao que ela retribuía com seu olhar pactuante.

Sentada à sua mesa na frente da sala, à um metro de distância afastada do quadro de giz, ela distribuía as provas, chamando cada aluno e apontando os erros que havia cometido. Neste ritual, geralmente o aluno ficava de pé, ao lado ou por detrás da professora. Não era sem propósito que tal situação levava, infalivelmente, a olhares curiosos de alguns e ousados de outros, para aquela abertura deliciosa da blusa. Lateralmente, visualizava-se parte do sutiã que sustentava generosamente os seios, elevando-os e salientando a sua beleza. Os alunos mais altos preferiam postar-se às costas, o que permitia uma perspectiva diferenciada daquele monumento ao deus Eros.

Ao término daquela aula, os alunos enfileiravam-se no banheiro para descarregar a tensão acumulada durante a preleção.