Europa 70

Esta coleção complementa a “Alemanha dos anos 70”, com as experiências vividas em outros países e cidades da Europa, na mesma época.

Serão sete publicações, descrevendo uma localidade em cada semana.

Entre Mozart e Noviça Rebelde

Falar sobre a Áustria é impossível não se lembrar de Mozart e de valsas vienenses. Terra de grandes compositores e de episódios inesquecíveis na evolução da Europa Central, alternando entre conflitos e calmaria de vidas palacianas e música.

Numa de nossas viagens com o fusca alemão, fomos conhecer este país desde Salzburgo até Viena. Foi em setembro de 1974.

Salzburgo é a cidade natal de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), um dos maiores compositores do período clássico. Foi uma criança prodígio, apresentando-se publicamente já aos cinco anos de idade. Passou a adolescência entre compor e apresentar-se em público pelas principais cidades da Europa. Residiu seus últimos dez anos em Viena, onde morreu aos 35 anos, acometido de febre reumática. A sua criação musical é muito rica, tendo composto óperas, sinfonias, sonatas entre outras, todas bem conhecidas mundialmente. A Flauta Mágica, As Bodas de Fígaro, Don Giovanni, Pequena Serenata Noturna, são alguns títulos dos mais famosos e ouvidos popularmente.

Arredores de Salzburg, 1974.
Casa onde nasceu Mozart, 1974.

Esta cidade foi palco de um dos filmes mais premiados até hoje, a Noviça Rebelde, no qual estreia Julie Andrews e Christopher Plummer. É um clássico dos musicais e romance, em meio as intrigas entre Alemanha e Áustria, nos anos que antecederam a II Grande Guerra. O título original do filme, de produção norte-americana, é The Sound of Music, ao qual devo ter assistido umas oito vezes, em cinemas no Brasil, em versão alemã em Hamburgo e em fitas VHS e CDs.

Enquanto passeávamos pelas ruas, jardins e no passeio ao Burg, de Salzburgo, pude relembrar as locações feitas durante as filmagens. Foi uma experiência interessante.

Palácio do rei divertido, 1974.

Dentre os castelos que visitamos, há aquele em que vivia um rei divertido. Nos jardins, ele mandou construir uma mesa em alvenaria, grande e retangular, com bancos ao longo dela. Os bancos tinham orifícios, que num determinado momento, no meio do almoço, os convivas eram surpreendidos por esguichos de água vindos do assento.

Salzburgo, com o rio Salzach. 1974.
Jardim florido, com o Burgo. 1974.

Com a nossa cara de japoneses, é comum sermos confundidos onde quer que estejamos por este mundo afora. Acham que somos japoneses, coreanos ou chineses. Foi em Viena que aconteceu uma dessas abordagens. Estávamos no centro, de tarde, absorvendo cultura em visitas a museus e monumentos históricos. De repente, uma jovem de origem nipônica nos aborda, perguntando em japonês.

            – Com licença, vocês poderiam me dizer onde fica o prédio da Ópera de Viena?

            – I am sorry. We are not japanese.

            – Oh, sorry, sorry.

E saiu de fininho… Japonês é muito cara de pau. Pensa que pode ir falando na sua língua para qualquer um que tenha fisionomia asiática.

Passear em Viena significa visitar o Palácio de Schönbrunn, onde nasceu e morou a imperatriz Leopoldina antes de ser enviada para se casar com Dom Pedro I. Ali, é possível apreciar pinturas que retratam a mulher do proclamador da independência do Brasil.

Além do prédio principal, existe um enorme jardim e um mirante que fica no alto de uma colina. Este mirante foi locação para outro filme clássico, “Sissi, a imperatriz”, com Romy Schneider. Ali era o seu refúgio para descansar, longe dos olhares da corte.

Palácio Schönbrunn, 1974.
Mirante do palácio, 1974.
Neusa no Mirante, 1974.
Takao no Mirante, 1974.

Foi na capital austríaca que comemoramos o meu aniversário de 28 anos.

Meio século atrás.

Copenhague: misto de sereia e pornografia

Uma viagem digna de ser relatada foi quando passamos o Réveillon de 1975 na capital da Dinamarca, Copenhague.

Tivemos a companhia de um casal de brasileiros, gaúchos, que trabalhava em Hamburg. Eram a Beth e o Paulo (apelidado de Paulo Pancada).

A travessia da península de Fehmarn (Alemanha) para Copenhague com barco durou cerca de quatro horas. Era uma rota comercial diária, mais conhecida como “Butterfahrt”, ou seja, viagem da manteiga. Os alemães faziam esta rota com a finalidade quase única de comprar a mercadoria na duty free dentro da embarcação, sem pagar taxa. No navio todo, acho que eram toneladas do produto a mudar de consumidores dinamarqueses para alemães.

Embora nossa cabine não fosse da primeira classe, era suficientemente ampla e confortável. Podíamos passear pelo convés do nosso andar e desfrutar da vista do Mar Báltico.

Cabine do ferry da Alemanha para Copenhague, 1975.

Nosso primeiro passeio tinha como destino a Sereia de Copenhague. Só conhecíamos a estátua por fotografia e não tínhamos ideia do seu tamanho. Ao chegarmos na praia onde se encontrava nosso alvo, foi um misto de surpresa e decepção. A ideia que se tinha era de ser uma escultura grande e vistosa. O seu tamanho real não passa de uns 80 cm de altura total, tentando se equilibrar sobre duas pedras na praia. Foi um aprendizado importante para não ser iludido por imagem fotográfica, no que diz respeito a escala dimensional do objeto em relação ao tamanho real.

Sereia de Copenhague, 1975.
Neusa e o casal Paulo/Beth, 1975.

O que marcou esta viagem foi a obsessão do Paulo Pancada em visitar as lojas de artigos eróticos e querer entrar em cineminhas onde se exibiam fitas pornográficas. E esse tipo de comércio é aBUNDAnte naquela capital. Existem bairros onde tal tipo de exibição é parecido com a rua 25 de março em São Paulo ou em Ciudad del Este, no Paraguai.

Este foi o réveillon mais atípico que experimentamos.

Sentir-se em casa quando na Itália

A Itália foi o primeiro país que fomos conhecer, logo nas primeiras miniférias dos estudos na Universidade de Hamburgo.

Viagem de trem noturno, atravessando os Alpes. Em Roma, ficamos hospedados num hotel gerenciado por freiras. Pensão completa, com desjejum, almoço com entrada de uma massa, prato principal com alguma proteína animal e sobremesa, jantar com entrada de massa e sopa.

O brasileiro quando chega na Itália sente-se em casa. Trânsito caótico, pessoas gesticulando e falando alto ou gritando nas ruas. As calçadas, nem sempre limpas, tropeça-se em papel, tocos de cigarros, restos de comida etc. Apesar de expansivos, os romanos nem sempre são gentis e as informações que dão, nem sempre corretas. Por cultura, os gestos de grazie e prego, amenizam uma rudez aparente.

A cidade de Roma inteira é um verdadeiro paraíso turístico e boa parte das construções medievais estão em bom estado de conservação ou foram restauradas em sua arquitetura original. Em se conhecendo a história, ao passear pelos monumentos, vemos passar séculos de cultura, pujança, nobreza, pobreza, poder, escravidão como num filme, no qual sentimos visualizar cenas e sons que nos levam àqueles períodos épicos.

No Coliseu, parece que sentimos as vibrações do povo nas arquibancadas, gritando e gesticulando com o dedão para baixo, pedindo para o sacrifício dos escravos pelos leões ou pelos carrascos lutadores. No Circo Máximo, pudemos visualizar o desfilar e correr fatídico das bigas, como no filme “Ben Hur”.

Neusa, no Coliseu de Roma, 1974.
Circo Máximo, Roma, 1974.

O Vaticano é uma visita obrigatória quando se está em Roma. Naquela viagem, tivemos oportunidade de ver o Papa Paulo VI num discurso feito dentro da Basílica.

Em todas as nossas viagens, sempre procuramos e fizemos boas amizades com companheiros de excursão. Na maioria das vezes, éramos os mais jovens do grupo, o que nos deixava bem a vontade para compartilhar as experiências e opiniões, oportunidade em que aprendíamos bastante com os mais idosos.

Com a Sra. Plassmeier, no Vaticano, 1974.
Companheiros de viagem, Roma, 1974.

Passear pelo Foro Romano é viajar no tempo e espaço, parcialmente destruído, contudo, com estruturas originais que mostram toda a pujança deste local, que outrora fora o centro do mundo. Da mesma maneira, a visita às Termas de Caracala nos levou novamente ao filme “Ben Hur”, onde os senhores do império romano se banhavam. Na parte subterrânea da construção, os escravos se ocupavam em aquecer a água e providenciar os vapores para a sauna.

Foro Romano, Roma, 1974.
Termas de Caracala, Roma, 1974.

Outras localidades de igual importância histórica e turística que visitamos nesta viagem, foram: litoral de Anzio, Ostia Antica, Ilha de Capri, Frascati, Nápolis, Tívoli e Vila Adriana.

Em cada lugar, uma história.

Em Ostia Antica, vilarejo onde começou a cidade de Roma, existe um sítio arqueológico, com boa conservação dos monumentos e construções. Há uma latrina coletiva, que provavelmente era pública para as necessidades de várias pessoas. Todos os visitantes queriam mostrar a finalidade da construção, mas ninguém queria demonstrar o como usar. Não me fiz de rogado e fui me sentar confortavelmente num dos lugares. Daí, fui alvo de uma enxurrada de flashes de câmeras fotográficas. Senti-me como um rei sentado em meu trono.

Ostia Antica, 1974.
Latrina pública em Ostica Antica, 1974.

A Ilha de Capri é um destino sonhado pelos casais jovens, um paraíso romântico em meio a arquitetura colorida e paisagens naturais de perder o fôlego. A visita à Lagoa Azul, onde há um acesso por debaixo das pedras, os raios de sol penetram na água, misturando-se com o leito e refletindo um azul indescritivelmente belo.

Tívoli é um monumento às deusas d’água, onde consegui extrair o líquido ao apertar os seios pétreos de uma delas.

Casal em lua de mel na Ilha de Capri, 1974.
Tirando água da pedra, Tívoli, 1974.

Contar histórias e descrever lugares é como viajar no tempo. Registro para a posteridade e exercício para a memória.

Daí, as Crônicas Memoráveis.

Viajantes incógnitos em Londres

A viagem para conhecer Londres foi uma das mais atípicas que experimentamos durante nossa estada na Europa.

O trecho de Hamburgo à capital inglesa foi realizado em avião, a única viagem aérea que fizemos em todo o período dos meus estudos.

Embora tenhamos visitados inúmeros monumentos, não há muitas histórias pitorescas dignas de relato. Assim, nesta matéria, vou descrever mais por imagens do que texto.

Vista aérea de Londres, sobre o Tâmisa,1975.
Rio Tâmisa, onde se vê a Coluna de Nelson e a cúpula da Catedral de São Paulo, 1975.

Londres é uma cidade cosmopolita, com habitantes provenientes de todas as colônias que pertenciam ao Reino Unido, sobretudo indianos, malásios e sul-africanos. Consequência disso, resulta que esta cidade e o país não evidenciam uma cultura própria, exceto a requinte da nobreza imperial. Tudo isso reflete na comida, na mistura linguística do inglês, no vestuário, entre outras identidades étnicas. A profusão de restaurantes indianos e chineses, sobretudo, é enorme. Foi aqui que eu vi, pela primeira vez,  um enorme espeto de shawarma na janela de um estabelecimento, quase na calçada. Foi uma visão que ficou gravada em minha memória.

Hyde Park, 1975.
Picadilly Circus, 1975.

Ficamos hospedados num pequeno hotel próximo do Hyde Park, na região central de Londres. Num lugar tranquilo, daqueles que aparecem nos filmes, com sobrados dos dois lados da rua, com escadaria para o acesso à casa. Até me senti um Sherlock Holmes brasileiro, disfarçado de japonês.

Além do Big Ben, um dos ícones mais visitados é a Torre de Londres, onde estão guardadas as joias da Coroa.

A Torre de Londres, 1975.
Neusa e a Ponte da Torre, 1975.

Uma das visitas mais proveitosas foi ao Museu Britânico. Além de outras preciosidades, a peça mais famosa e importante é, sem dúvida, a Pedra de Roseta. Ela foi descoberta no Egito e contém um decreto gravado em três idiomas: grego, caracteres hieróglifos e demótico. Os estudiosos, considerando que o conteúdo era o mesmo nas três línguas, conseguiram decifrar a antiga escrita hieroglífica

A Pedra de Roseta, Museu Britânico, 1975.
Abadia de Westminster, 1975.

Para quem olha apenas para o relógio, o Big Ben, como o nome diz, pensa que se trata de uma enorme construção, com o mecanismo de tempo em seu topo. Isso aconteceu comigo e foi uma pequena decepção, quando vi que o prédio que abriga o relógio é de uma altura baixa em relação ao tamanho do marcador e a sua fama. Achei ridiculamente pequeno.

O Big Ben, 1975.
Neusa, Big Ben e Westminster, 1975.

Uma constatação que marcou minha impressão e memória, foi revelar que dentre as pessoas que mais viaja no mundo e pelo mundo, são os japoneses. Talvez, deva incluir os chineses, em se tratando da época atual. Posteriormente a esta viagem, a constatação foi a mesma em todos os lugares que conhecemos.

Na foto tirada no momento da troca da guarda no Palácio de Buckingham, eu consegui identificar e contar umas 15 pessoas de origem asiática. Em diferentes posições.

Troca da guarda no Palácio de Buckingham, 1975.
Oxford Street, principal rua de comércio, 1975.

Nesta viagem, fomos apenas nós dois. Aliado também as limitações da língua, não tivemos muitos contatos, para compartilhar experiências e conhecimentos. Figuramos mesmo como viajantes incógnitos por Londres.