Crônicas de Irati

Coletânea de historietas, escritas por autores convidados, tendo como cenário a UNICENTRO, a cidade de Irati e a região Centro-Sul do estado do Paraná.

Editores da coletânea são Dr. Antonio José de Araujo e Dr. Mario Takao Inoue, ambos professores aposentados da UFPR e da UNICENTRO, membros efetivos da ALACS – Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro-Sul.

Todas as contribuições são assinadas e seus conteúdos estarão sob a inteira responsabilidade dos respectivos autores. Quando for o caso, ao clicar no nome, abre-se o link ao currículo na Plataforma Lattes.

Introdução

O registro de fatos do cotidiano, mesmo que em formato informal, pode servir de boa fonte de consulta para conhecimento histórico e cultural. Foi com essa premissa que surgiu a ideia de publicar a coletânea “Crônicas de Irati” para registrar impressões vividas e ouvidas na forma de contos, em textos curtos de ficção inspirados em fatos.

A localização dos acontecimentos é a região Centro-Oeste do Paraná, centralizando-se principalmente na cidade de Irati.

Vista parcial da cidade de Irati, Paraná.
Foto: M.T. Inoue, 2001

Os contos seguem a linha de tempo entre fins de 1990 até os dias atuais, período marcado pela criação, implantação e desenvolvimento do Curso de Engenharia Florestal da Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO em seu Campus Universitário de Irati.

Foi o período em ocorreu um rápido e grande crescimento da instituição, com a criação e fortalecimento de inúmeros cursos de graduação e pós-graduação, em sua boa parte com excelente avaliação oficial, o que consolidou o nome da UNICENTRO no cenário nacional e internacional.

Prédio principal da Unicentro, no Campus Universitário de Irati.
Foto: M.T. Inoue, inverno de 2006.

Via de regra, os nomes de pessoas, algumas instituições e localizações das ocorrências são fictícias ou têm suas denominações trocadas, visando a preservar certa privacidade. De acordo com as descrições, não é difícil a provável identificação de personagens, instituições e locais, principalmente para as pessoas que conviveram contemporaneamente a época e os fatos.

Caracterizando-se como crônicas, as narrativas são curtas e redigidas informalmente, usando-se linguagem simples e coloquial, procurando-se não afetar princípios morais e éticos. Ingredientes lúdicos, curiosos, cômicos, sui generis, bom humor e irreverência contribuem para que a leitura seja prazerosa.

O período em que as estórias são contadas foi marcado por inúmeras ocorrências significantes no Brasil e no mundo. Talvez o fato mais chocante foi o ataque terrorista às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, no inesquecível 11 de setembro de 2001. Foi o período em que muitos conflitos armados foram deflagrados, principalmente envolvendo países do Oriente Médio, como Afeganistão e Iraque. Pela primeira vez na história, um Presidente de descendência afro-americana, Barack Obama, é conduzido à Casa Branca. No Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro operário a ser eleito como Presidente da República. Entre 2008 e 2009, o mundo sofreu uma das maiores crises econômicas, levando vários países à recessão. Houve acontecimentos positivos também, como o surgimento da Internet e do iPhone, propiciando a explosão tecnológica em termos de comunicação, efetivamente globalizada na forma das redes sociais. O Brasil conquista o seu quinto título de campeão na Copa do Mundo, no Japão. Na moda, foi o período das calças de cós baixo, que permitia aos jovens, principalmente as meninas, de exibirem ostentosamente seus “cofrinhos”.

1 - Algumas memórias do Campus Universitário de Irati da UNICENTRO

Estávamos no ano de 1994. 
Mês de fevereiro.
Ansiosos porque iríamos mudar para o prédio no bairro do Riozinho, antigo Seminário Seráfico Santa Maria. A mudança era necessária, pois o prédio, onde nasceu a Faculdade, denominada FECLI (Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Irati), instalada em 1974 e cuja primeira diretora foi a professora Maria Roza Zanon de Almeida, ficara pequeno para abrigar as perspectivas alvissareiras no ensino superior.

A Faculdade de Irati já estava estadualizada, devido à fusão com a FAFIG (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Guarapuava), portanto a transferência para o prédio no bairro do Riozinho propiciaria melhores condições para o funcionamento do ensino superior.

Havia uma negociação mediada pela Prefeitura de Irati e pela Congregação dos Frades Capuchinhos, para efetuar a mudança de sede da instituição, que perdurava por sete anos, visto que o prédio fora desocupado no ano de 1987.

Enfim, legalizados todos os protocolos, mudamos e fomos adaptando-nos naquele espaçoso prédio, de quase 10 mil metros quadrados de construção e com um terreno igualmente com condições de abrigar outros segmentos educacionais.

Em 1997, a UNICENTRO foi reconhecida como universidade – a Universidade Estadual do Centro-Oeste. Os projetos começaram a ser desenvolvidos gradativamente, como: concursos para professores e funcionários, aquisição de bens para equipar nossos primeiros laboratórios, biblioteca, salas de departamentos pedagógicos, setores administrativos, como também, o processo de reconhecimento contemplava a instalação de dois novos cursos: Educação Física e Engenharia Florestal. 

Optou-se por esses cursos no projeto de expansão, pois Irati tinha um histórico muito favorável, devido ao fato de sediar o Colégio Florestal, que recebia alunos do ensino médio de vários locais do Brasil. Logo, com esses parâmetros tão bem-sucedidos, implantar-se-ia o Curso de Engenharia Florestal, em nível superior.

Em relação ao Curso de Educação Física, levou-se em consideração o espaço onde outrora, enquanto Seminário Santa Maria, realizavam-se eventos esportivos e festas religiosas anualmente. A comunidade iratiense, se fazia presente, naquele recanto agradabilíssimo, por sua paisagem, por sua estrutura esportiva e por serem encontros tradicionais. Além de que havia uma enorme carência de profissionais na área de Educação Física em todos os municípios da região.

E assim foi o começo de nossa estada no novo local de ensino…  

Esses são alguns finos fios de memórias dos primeiros momentos de nossa UNICENTRO/Irati que tem e terá muitas vozes para contar e cantar com dignidade, orgulho e satisfação de sua história, que se desenvolve no dia a dia de seus alunos, de seus professores, de seus funcionários e de todos que fazem parte de sua magistral trajetória.

2 - A UNICENTRO e as Araucárias

Era novembro. Mês de calor e de expectativas. Era quase chegado o momento das provas. Mais um concurso. Mais esperanças. A natureza em todo seu verdor formava um casamento perfeito com o sol que nos aquecia e brilhava, brilhava e aquecia. Esperança dentro de mim, calor fora de mim. Verdes dentro e fora de mim. O percurso até aquela cidade foi cortado por elas, as araucárias. Nobres, solenes, etéreas. Indiferentes à azáfama que assola a todos. Elas, em seu esplendor, a nos pedir apenas calma. A nos aconselhar a olhar para o belo que está fora de nós, dentro de nós.

Era novembro. E a curiosidade aumentava, quase fazendo o concurso ficar para segundo plano. Como seria a cidade na qual a Unicentro estava fincada? Eu sabia apenas que Irati era a cidade em que nascera a grande atriz Denise Stoklos .

Como cheguei na cidade dias antes do concurso e me hospedei num hotel no centro da cidade, resolvi, num dia banhado de sol, conhecer a cidade. Que brisa! Quanta lindeza! E Nossa Senhora das Graças a abrir os braços para mim. Meu primeiro percurso foi curto porque me deparei, assim que sai do hotel, com um Sebo. Era o Centenário . Na porta, uma senhora de olhos azuis e olhar poético olhava o infinito. E ao ser interpelada por mim, que lhe perguntara por um determinado livro, me dera uma aula acerca da literatura portuguesa. Foi encantamento porque era novembro.

Ao sair do sebo, um cartaz me chamou a atenção: às 20h, no Centro Cultural Clube do Comércio, haveria a apresentação da peça As lágrimas amargas de Petra Von Kant (Filme de 1972  –  Peça teatral de 1984). Era o grupo de teatro de Irati que faria algumas apresentações. E eu me indaguei: será que estou no paraíso, meu Deus! Uma cidade em que entro num sebo e tenho uma aula, saio dele e vejo propaganda de uma obra clássica. Era novembro e minhas emoções cada vez mais se aqueciam.

Volto ao hotel em festa. Descanso. Saio para jantar. Italiano. Leio o cardápio, amargo a solidão de jantar sozinho, mas não me fiz de rogado e pedi uma farofa. Que farofa! Mais deleites. Mas era novembro e tinha no meio do caminho um concurso.

Manhã de sol. Táxi para Unicentro. Que impacto. Nossa Senhora da Conceição e as araucárias nos recebem. Esperanças duplicadas. E de repente me deparei com uma fachada majestosa que, de tão bela, causava uma certa estupefação, e por algumas horas o concurso saiu de minha cabeça e meus olhos queriam apenas admirar portadas e janelas, jardins e iluminação. Sim, havia uma luz forte que cercava todo aquele prédio, que depois eu ficara sabendo que era o principal.

Figura 2.1: Caminho de acesso ao prédio principal da Unicentro.
Foto: M.T. Inoue, 2001.

Procuro, claro, a biblioteca, e me contam que ali nos tempos idos era a padaria. A Unicentro fora um seminário franciscano. Entre estantes atapetadas de livros, sinto cheiros e vem o café de minha avó, o pão da minha mãe, o pão nosso de cada dia. Perto dali, diviso um jardim e as cores se misturam e viram um mosaico, mas uma cor rouba a cena e é com o domínio do verde e da esperança que vários candidatos procuram apressados as salas, porque o concurso vai começar.

A prova começa e minha imaginação vagueia entre as araucárias, Nossa Senhora, o verde, o calor, a esperança. Saio da prova como quem sai de um jardim botânico. Há cheiros em minha alma e uma quase certeza de que Irati seria em minha vida não apenas um encontro, mas um intenso caso de amor.

À noite, assisto à peça As lágrimas amargas de Petra Von Kant e minha alma sai do teatro com esperanças ainda mais renovadas. Durmo pensando no verde, em tempos de porvir. Era novembro. Dias depois, sai o resultado e eu fora aprovado e minha alma dança, transborda. Eu moraria em Irati, eu viveria dias, meses, quiçá anos naquele universo bento de araucárias e certezas: respirar os verdes das araucárias da Unicentro, em Irati!

Em 24 de junho de 2020
Dia de São João
Dia Nacional da Araucária

3 - Os Três Mosquiteiros

A nossa história, embora ocorrida num seminário franciscano na famosa metrópole que lembra, do tupi-guarani, ninho de abelha, não se pretende que seja parodiada com o romance de Alexandre Dumas. Seu romance também foi uma coletânea das crônicas jornalisticas das aventuras de “Athos, Porthos e Aramis”, compiladas mais tarde em forma de livro com o título mudado para “Os Três Mosqueteiros”, que, no entanto, eram quatro.

Não percebemos a razão do nome da cidade ser Irati. Em todo caso, vamos descrever o início de nossa história com a chegada dos Três Mosquiteiros (com i). Sabe-se que, para se proteger de insetos, é bastante eficaz o uso de mosquiteiros em janelas ou na forma de tenda sobre a cama.

O professor Takei Okoku contava que, em suas andanças pelo interior de Moçambique, precisamente em Marrupa, na Província do Niassa, ele foi o único da equipe de cooperantes que não fora afetado pela malária. Certamente, devido a sua paciência nipônica, diariamente, infalivelmente, abaixava o mosquiteiro instalado acima de sua cama e, esmeradamente, com todo o tempo livre de expediente de trabalho encerrado (claro, não havia o que fazer naquele fim do mundo), enfiava toda a borda do véu por debaixo do colchão, cuidando para que não ficasse uma frestinha sequer. Na hora de dormir, abria uma fresta para se deitar e fechava cuidadosamente. Os demais colegas de trabalho não se davam ao afazer deste esmerado ritual, e sim, simplesmente abaixando o véu e deixando as bordas soltas ao lado da cama. Este expediente acontecia no início do entardecer, no período em que o mosquito do gênero Anopheles, transmissor do protozoário que provoca a doença, sai de sua toca à procura de sangue para se alimentar. Contava o mesmo professor também que, em suas aventuras pelo interior do Amazonas, precisamente em Novo Aripuanã, praticava o mesmo ritual, agora em terras brasileiras. Assim, até hoje, nunca foi afetado por malária. Se as pessoas praticassem o uso de mosquiteiro em zonas onde existe o mosquito da dengue, Aedes aegypti, certamente a incidência dessa doença mortal, assim como da chikungunya e da zika não seria tão disseminada.

Retornemos à história da chegada dos Três Mosquiteiros à Irati. Neste contexto, a missão dos três heróis não era a de proteger a cidade de bandidos. Haviam sido contratados pelo Reitor com a missão de implementar o recém-criado Curso de Engenharia Florestal da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro). Eram também conhecidos como “Os três A”. Vejamos então o porquê dessa denominação, independentemente da cronologia de chegada.

Alfonso Figueiroa tinha sido professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde praticou proficuamente a docência por quase três décadas, aposentando-se em final de carreira. A sua dedicação à profissão era tamanha que, precocemente, havia doado muito de sua vasta cabeleira à formação de milhares de profissionais florestais, entre graduados, mestres e doutores. Conhecedor dos quatro quadrantes do mundo, disseminou internacionalmente seus conhecimentos, propagando a fama de sua universidade de origem, em cursos e seminários proferidos e por meio de trabalhos apresentados em congressos. A sua expertise é o Manejo Florestal, que trata do planejamento e dos procedimentos aplicados às florestas, sejam plantadas, sejam naturais, visando à produção sustentada. O mote, é conseguir com que a exploração dos recursos florestais seja, em montante e em qualidade, igual ao montante e qualidade que a floresta consegue crescer e produzir naturalmente, sem prejuízo das condições ambientais.

Figura 3.1: Professor Alfonso marcando árvores da pesquisa na Floresta Nacional de Irati.
Foto: M.T. Inoue, 2001.

Antônius Marujo foi igualmente um professor da UFPR, também aposentado após três décadas de dedicação exclusiva à docência e à pesquisa. Com extensa experiência internacional, formou milhares de pessoas que atuam nos mais diferentes e distantes recantos do mundo, titulados como mestres e doutores. No início de sua carreira, além da docência, atuou também como administrador e pesquisador de uma estação experimental da UFPR, na cidade de Rio Preto, à 100 km de Curitiba. Foi ali que aprendeu a gostar e treinar as habilidades, que mais tarde marcariam sua trajetória profícua como docente e grande pesquisador na área da Genética Florestal. Durante a sua atuação naquela fazenda experimental, foi obrigado a aprender dirigir. Havia um veículo da Volkswagem chamado kombi, único utilitário de fabricação brasileira à época. Era um modelo de cabine simples, com carroceria aberta. O intuito era o seu uso como utilitário, mesmo. Isso precisa ser confirmado mas, parece que o nosso herói foi um autodidata em habilidades motorísticas. O manual de uso do veículo estava sempre à sua mão. O ritual para a saída com o carro era o mesmo: adentrar, sentar-se ereto, olhar para frente. Daí em diante, os atos eram acompanhados da descrição por sua voz, como na partida de um avião:

–  freio de mão, acionado;

– pisar na embreagem, pisado;

– olhar para a longa manopla do câmbio, olhado;

– conferindo as marchas: primeira, ponto morto, segunda, ponto morto, terceira, ponto morto, quarta, ponto morto, marcha à ré, ponto morto (a cada marcha, a descrição completa do pisar na embreagem);

– repetindo, pisar na embreagem, pisado;

– pisar no freio, pisado;

– conferindo outra vez as marchas: primeira, ponto morto, segunda, ponto morto, terceira, ponto morto, quarta, ponto morto, marcha à ré, ponto morto.

Após umas três ou quatro repetições deste ritual, agora era pra valer, depois de uma última conferida dos procedimentos.

E foi assim que o nosso herói se saiu garbosamente como exímio motorista que ele é hoje, cuidadoso, nunca se envolveu em acidente.

Aliás, existe um incidente, mas isso será assunto de um outro capítulo.

Figura 3.2: Professor Marujo na cerimônia de reconhecimento do Curso.
Foto: M.T. Inoue, 2002.

Abílio Desesperanti é o nosso terceiro mosquiteiro. Exemplo da descendência italiana, concluiu duas graduações: Licenciatura em Ciências e Engenharia Florestal, que certamente foram, em sua totalidade, alicerces para a sua ascensão jubilosa como professor da UFPR, onde se aposentou após três décadas, como Professor Titular. Ele não era morador da CEU, a Casa do Estudante Universitário, mas tomava refeições e frequentava diariamente a instituição, ampliando as suas relações pessoais. Muito religioso, tornou-se amigo e, dizia-se, que atuava como coroinha do Padre G, mentor católico da CEU, durante a missa realizada semanalmente. Viajante cosmopolita, doutorou-se na Inglaterra e realizou estágio pós-doutoral nos Estados Unidos. Foi um dos mais profícuos docentes, formando milhares de profissionais, dentre eles, muitos orientados como mestres e doutores. Sua especialidade era o Sensoriamento Remoto, ou seja, o planejamento do manejo de florestas por meio de imagens, antigamente na forma de fotografias aéreas tomadas por avião, mais tarde, por imagens de satélites. Foi precursor no desenvolvimento dos atuais drones. A teimosia do italiano em ver as árvores de perto e por cima foi a chama para o aprimoramento de algumas técnicas não tanto convencionais para obtenção de fotografias aéreas. Dentre as suas peripécias no uso de técnicas remotas, experimentou usar balões acoplados a uma câmera fotográfica e fios para controle; aeromodelos com controle remoto; chegou a pilotar avião para tomada de fotos aéreas. Teve oportunidades em realizar trabalhos em parceria com Takei Okoku, descritos na sequência.

Figura 3.3: Professor Abílio em aula prática de Topografia.
Foto: M.T. Inoue, 2003.

Na prática, a denominação de “Os três A” não se deve apenas às letras de seus nomes. A estratégia inteligente adotada pelos dirigentes da Unicentro em arregimentar profissionais experientes para implementar um curso incipiente, teve uma resposta positiva, não encontrável de forma corriqueira. O presente exemplo é prova cabal disso. Para um empreendimento como aquele, não bastava título, produção científica, experiência e cara bonita, se não houvesse engajamento. Não sem propósito, “Os Três A” formavam um time de elite, sintonizados com um objetivo específico: tornar aquele curso incipiente um curso de primeira linha. Também não é sem propósito, que as inúmeras noitadas de planejamento na Lanchonete do Napolitano formaram o calabouço da estratégia para o começo do curso. Mas isso é assunto para outros capítulos.

O quarto mosquiteiro a chegar, foi o Takei Okoku. Também foi professor da UFPR, aposentando-se como Professor Titular após três décadas de serviço exclusivamente dedicado ao ensino e à pesquisa. Teve larga experiência na administração universitária, ocupando diferentes cargos. Do signo de virgem e nascido no ano do cachorro, segundo o calendário chinês, teve sua vida alinhada com esmero, objetividade, fidelidade e, sobretudo, garra para o trabalho. Não é sem propósito que ficou conhecido como ergo-maníaco. Começou a trabalhar para fora desde os 12 anos de idade e nunca mais parou. Iniciou sua carreira profissional como responsável pela Estação Experimental da UFPR na cidade de Santo Antônio da Prata, ao mesmo tempo que lecionava em Curitiba. Essa época marcou sua trajetória como “pé na estrada” internacional. Partia no domingo à noite de Prata, acompanhado da esposa, em camioneta da Estação, prelecionava a aula na segunda-feira, e à noite, retornava à Prata. Esta responsabilidade pela Estação não era remunerada. O pouco que recebia como Auxiliar de Ensino era suficiente para sobreviver, naquela época sem internet, shopping center e coisas incitantes ao consumismo. Não sem propósito, este comportamento transigente foi o alicerce para a sua rápida ascensão profissional, sendo na UFPR, o primeiro a retornar com título de doutor obtido no Exterior, especificamente, Alemanha. Igualmente, propiciou que usufruísse de inúmeras oportunidades de viagens internacionais pelos quatro continentes, participando de cursos, proferindo palestras e apresentando contribuições em congressos. Nunca utilizou dinheiro do governo brasileiro para essas viagens, sempre recebendo apoio de instituições internacionais. Por natureza ou por afinco, é dotado de inúmeras outras habilidades. Autodidata em eletrônica, desenvolveu em parceria com o Prof. Abílio Desesperanti, três equipamentos para uso auxiliar em técnicas de sensoriamento remoto. O primeiro, foi um clinômetro eletrônico, descrito numa publicação científica em revista de grande circulação, para uso em tomadas de fotos aéreas inclinadas. O segundo, foi um disparador temporizado acoplado à câmera fotográfica, para múltiplas fotos contínuas em tempos regulares de um, dois, três ou mais segundos entre fotos. O terceiro, foi um contador eletrônico de pontos, em formato de caneta, usado para contar os furos de uma máscara plástica transparente sobre um mapa, propiciando estimar a área de uma superfície de mato, por exemplo. Não se sabe porque, recebeu apelido de “Cotonete”. Provavelmente, deve-se a sua figura cambaleante quando usava camisa e calça azuis, que complementavam o figurino, de cabeça branca e tênis branco.

Figura 3.4: Figura 3.4: Professor Takei treinando laboratorista no uso de equipamento para medir fotossíntese.
Foto: M.T. Inoue, 2007.

Em resumo, os Três Mosquiteiros, com a chegada do quarto, formaram o time que impulsionaram o início do curso, que mais tarde ultrapassou, em qualidade, o curso de origem dos nossos heróis. 

A Pensão da Dona Piriquita

Inspiração para a crônica "O amanhecer na Pensão da Dona Piriquita", classificada em primeiro lugar no III Concurso Literário Foed Castro Chamma, edição 2020, promovido pela ALACS.

Dentre as figuras que podem ser consideradas emblemáticas de Irati, sem dúvida que a Pensão da Dona Piriquita é uma das mais representativas. Tanto pela localização estratégica, como também pela sua imponente arquitetura em estilo polonês. 

O bairro onde fica a referida construção é denominado Riozinho. Na verdade, existe um córrego bem perto da casa, mas não grande o suficiente para ostentar o nome de rio.

Figura 4.1: O estilo arquitetônico da Pensão da Dona Piriquita.
Foto: M.T. Inoue, 2000.

O nome da casa é homenagem à matriarca de uma família proeminente do bairro, outrora mais desenvolvido que a própria cidade. Certamente, os antigos donos do terreno e da casa devem ter sido de relevância no contexto sócio-político da época. Um ex-governador do Paraná era neto daquela matriarca.  

Entre idas e vindas, a casa acabou sendo adquirida pela atual proprietária, a Dona Leoni, que de imediato, implementou uma significante reforma, dando-lhe o atual aspecto: de coloração bege e azul-celeste. O interior foi igualmente remodelado, para futuro uso como pensionato, com diversos quartos e banheiros bem dimensionados, femininos e masculinos.

O ponto forte do futuro pensionato era, sem dúvida, a sua localização: no cruzamento da rodovia Irati-Rebouças com a rodovia que vai para São Mateus do Sul e o bairro Gutierrez, por onde passa o ônibus urbano com destino ao Campus da Unicentro. O foco da Dona Leoni, era atender a demanda por moradia de professores e alunos da instituição.

Foi justamente neste local que, em 1938 foi inaugurada a estação de trem denominada Riozinho, o que deflagou um desenvolvimento maior do que o da cidade. Todo o contexto social, político e econômico estava centrado nesta região.

Figura 4.2: Ensaio fotográfico mostrando a localização da Pensão da Dona Piriquita.
Ilustração de M.T. Inoue, baseado em foto original de C. Mazur, 2001.

A Figura 4.2 mostra a localização da casa, numa vista vindo da cidade em direção ao trevo Rebouças – São Mateus – Gutierrez. No lado direito da foto, onde existia uma grande serraria, localiza-se o atual acesso ao Campus da Unicentro.

Planejados e executados, os objetivos da Dona Leoni foram, aos poucos, sendo concretizados. Entre os anos de 1998 e 2004, seguramente, boa parte dos docentes que eram contratados pela Unicentro, passaram pela pensão da Dona Piriquita. Dentre eles, os Três Mosquiteiros, incluindo o quarto, que chegou em 2001. Via de regra, o ritual de passagem pela casa era: os novos, desconhecendo as condições de logística da cidade, ficavam hospedados na casa, onde tomavam as refeições e dormiam. Para ir ao trabalho, era só caminhar os 300 metros que dista o prédio da Unicentro. Isso acontecia com os docentes como também com os estudantes.

A casa oferecia: três refeições diárias, exceto domingo à noite; quartos individuais, duplos e triplos; banheiros separados, masculinos e femininos, dimensionados a não provocar congestionamentos; lavanderia com máquina de lavar; amplo quintal com estacionamento; varandas circundando toda a morada. Para o deslocamento à cidade para compras ou noitadas, era só pegar o ônibus cuja parada ficava ao lado da casa. Mas, havia que se seguir a regra do lar: retornar por volta das 22 horas, após o que as portas eram trancadas. Houve caso de uma exceção, mas isso será contado em outro capítulo.

Na prática, a passagem pela casa, via de regra, era temporária.Com raras exceções, depois de um semestre ali, a maioria, já ambientada com a logística da cidade, arrumava jeito de alugar um imóvel no centro. Com o passar do tempo, os comerciantes da cidade despertaram para a demanda infalível para morada, alimentação, vestuário, etc, iniciando um boom de novas construções e estabelecimentos. Isso faz parte dos dividendos de se ter uma universidade urbana.

Somente quem já morou na região pode testemunhar o que é passar frio. Devido a sua localização no segundo planalto, a quase 850 m acima do mar e circundada pela floresta de araucária, o inverno costuma ser rigoroso, com temperatura mínima de até -10ºC. Nessas circunstâncias, uma casa em madeira não oferece proteção adequada, notadamente nas noites que precedem a geada. Daí, não existe cobertor que chegue para aplacar o gélido vento que, às vezes, penetrava por entre os sarrafos da parede. Após uma noite assim mal dormida, o comentário geral no café da manhã, era que a Dona Piriquita tinha vindo assombrar aqueles menos avisados da pensão, puxando-lhes pelas pernas. Daí, o fato de não conseguirem dormir. O mais afetado dos hóspedes era o Prof. Alfonso, que dizia ser paquerado pela Dona Piriquita, de tantas visitas que recebia, independentemente da época do ano. Com certeza, era o charme de sua vasta cabeleira o motivo dessas visitas noturnas.

Além dos atributos da casa quanto à temperatura de inverno, nas demais estações do ano, notadamente no verão, a morada tinha que ser protegida da visita de alguns insetos indesejáveis. O pior deles era o conhecido como “borrachudo”, que atacava as pernas descobertas, principalmente durante o período da tarde. Nesse ponto, as mulheres que usavam vestido, saia ou bermuda eram as mais preferidas. No entanto, a ferocidade do ataque acontecia mesmo por cima do tecido das calças ou o inseto adentrando por dentro da perna da mesma. A picada do “borrachudo” além de bastante dolorida, deixa rastro preto em forma de uma pinta, que vai aparecer depois de dois ou três dias e coça muito.

Outro inseto que afetava a vida na casa, faz parte do grupo dos pernilongos, incluindo o da dengue. Estes, adentram as moradias no final da tarde. Para se proteger, as portas da casa tinham fitas adornando a entrada e molduras de tela nas janelas, que podiam ser retiradas durante o dia e reinstaladas no final da tarde. Nesse aspecto, o Prof. Takei, com a sua vivência na África e no Amazonas, era o guardião-mor encarregado de inspecionar o ritual de aplicação das telas em todas as janelas.

Uma das características marcantes da Dona Leoni, era a sua franqueza ao comentar ou responder a qualquer tipo de indagação ou observação. O episódio ocorreu logo nos primeiros tempos em que a equipe dos Três Mosquiteiros veio a ocupar a pensão da Dona Piriquita. Geralmente, o pão servido era, obviamente, comprado no comércio local, que não era lá essas coisas. Às vezes, a compra vinha da cidade. Foi num final de semana, talvez no café da manhã de domingo, alguém comentou sobre o pão servido.

– Será que não tem como a gente ter pão mais fresco?

– Aqui não é uma padaria, para ter pão fresco a toda hora.

Claro, que o dito ficou pelo não dito e não houve sequência do diálogo.

Isso ocorreu quando ainda não existia máquina elétrica (panificadora caseira) de fazer pão. Talvez o episódio do pão fresco deve ter despertado o interesse da dona da casa em oferecer um tratamento mais adequado aos hóspedes. Logo depois, alegremente, ostentava a compra do artefato elétrico, até mostrando como a mesma era eficiente na mistura da massa.

Daí em diante, tínhamos pão fresco todos os dias! De manhã e à noite!

Aquela casa foi testemunha de alguns episódios marcantes, até ao nível mundial. O ataque às torres do World Trade Center, no fatídico 11 de setembro de 2001, foi noticiado pela hora do almoço, quando a maioria dos hóspedes estava presente. Quase não foi possível almoçar direito, pois o choque da notícia, somado às imagens dos aviões chocando-se com as torres, tomou conta do ambiente na Dona Piriquita. Quem não tinha compromisso depois do almoço, permaneceu por conta de acompanhar os noticiários no restante da tarde.

Na época, a internet ainda era incipiente, assim como precário era o serviço de telefonia móvel. Para se fazer ou receber uma ligação telefônica, era preciso subir ao piso superior, onde, com muita sorte, era possível estabelecer um contato meia boca. Durante o dia, havia a possibilidade de subir até o espigão, aproximadamente onde estão as pessoas na foto da Figura 4.2, onde se podia conseguir um sinal um pouco melhor. Ainda assim, era preciso levantar o telefone acima da cabeça e girar devagar o corpo até conseguir um ou dois pauzinhos de sinal. E ainda, falar no viva-voz com o telefone no alto.     

A prova no Salão Nobre

Os primeiros alunos a ingressar no Curso de Engenharia Florestal eram, em sua maioria, oriundos da região Centro-Sul do estado do Paraná, de cidades vizinhas a Irati, como Teixeira Soares, Prudentópolis, Imbituva, Rebouças, Fernandes Pinheiro, Rio Azul, entre outras. Com o passar do tempo, os candidatos vinham de outros municípios, dos estados do Paraná e Santa Catarina, sobretudo. Atualmente, com o reconhecimento do curso ao nível mundial, principalmente devido a projetos de cooperação internacional, possibilitam a estudantes de outras origens virem aqui estudar, seja na graduação ou nos níveis de mestrado e doutorado.

Nos primórdios do curso havia um mínimo de docentes para alavancar os seus primeiros passos. Uma parte das disciplinas, principalmente as básicas não profissionalizantes, era coberta por docentes já existentes na instituição, dos dois campi da Unicentro, Irati e Guarapuava. Aliás, o status de Campus Universitário para o complexo em Irati só foi alcançado bem mais tarde. Até então, era uma extensão do Campus de Guarapuava, sede da Reitoria.

As demais disciplinas profissionalizantes, incluindo algumas do básico, eram prelecionadas pelos “Os Três A”. Com a chegada de Takei Okoku e outros docentes, inicialmente contratados como Colaboradores e, pouco tempo depois, ingressos por concurso, as principais disciplinas até o terceiro ano do curso estavam garantidas. No andar da carruagem, outros concursos foram abertos e em pouco tempo, o time de docentes estava completo, em sua maioria, Engenheiros Florestais formados em diferentes partes do Brasil, todos com titulação ao nível de doutorado.

Inicialmente, Takei Okoku foi contratado como Colaborador. Seguindo a “estratégia” que “Os Três A” igualmente tiveram a que se submeter em suas chegadas, o novo docente foi convidado a assumir a preleção de nove disciplinas. Essa “estratégia” tinha sido desenvolvida para permitir que o docente acumulasse uma carga horária que lhe propiciava um salário razoável. Mister se faz frisar, que o docente colaborador ganha por hora lecionada.

Além das matérias de sua especialidade, Takei preparou e lecionou aulas de ampla diversidade, como Estatística, Informática, Ecologia e Fruticultura, entre outras. Aliás, por uma grande sorte, o ponto sorteado da prova escrita no concurso a que se submeteu no ano seguinte a sua chegada, foi justamente “Fruticultura”. Com a experiência adquirida em se preparar e lecionar a matéria, o concursante escreveu nada mais, nada menos, que nove folhas inteiras de papel almaço, ou seja, um total de 36 páginas, escritas à mão com letras pequenas. Foi uma verdadeira “prova de esforço físico de escrita”, usando na totalidade as quatro horas destinadas àquela prova.

O ingresso na carreira docente de Takei na UFPR foi pela disciplina de Dendrologia, já mencionada em outra crônica desta coletânea. Esta lhe acompanhou até a sua aposentadoria naquela universidade. Na Unicentro, foi também uma matéria que marcou sua carreira até a aposentadoria, 12 anos após o seu ingresso.

O doutorado de Takei foi na área de Ecofisiologia Vegetal, na Universidade de Hamburgo, Alemanha. Portanto, na Unicentro, foi a matéria que o manteve ocupado, tanto na graduação, como no mestrado e doutorado. É uma matéria que foi incorporada ao curso de florestas da UFPR, após o seu retorno da Alemanha, em 1976. Logo depois, os cursos de outros estados incorporaram em seus currículos, disciplinas que contemplam o olhar prático do conhecimento teórico propiciado pela Botânica, Fisiologia Vegetal e a Ecologia.

A matéria em pauta requer conhecimentos prévios de Morfologia e Fisiologia Vegetal, além de conteúdos de Química e Bioquímica. Esta base imprescindível para o entendimento da complexa relação entre a árvore e o seu ambiente, tornava a disciplina de Ecofisiologia Florestal pouco atraente para os alunos de Irati. Mas, sempre foi uma das obrigatórias do currículo. Para dificultar, a literatura especializada era, em sua maioria, em língua estrangeira. Mesmo em forma de apostilas, não era fácil encontrar material para consulta e estudo que fosse acessível.

A cada semestre, a disciplina foi deixando um contingente de alunos reprovados, sendo necessária a abertura de turmas adicionais, turma A, turma B e assim por diante. As salas destinadas as aulas não comportavam mais do que 30 alunos.

Foi numa dessas circunstâncias, com a retenção de alunos cada vez maior, que as provas da disciplina tiveram que ser aplicadas no Salão Nobre, no edifício principal do Campus.

Figura 5.1: Salão Nobre do prédio principal do Campus da Unicentro, Irati.
Foto: M.T. Inoue, 2001.

O salão, que os mais ousados denominavam de “Salão Pobre”, devido a um certo abandono, certamente por razões de orçamento, não era mesmo um local aconchegante. As poltronas eram antigas, construídas super reforçadas com madeira compensada, do tipo “Móveis Cimo”, sem estofamento, apenas com apoio de braço. Nelas, não se podia aguentar mais do que 30 minutos, após o que, o desconforto prenunciava um ritual de remexer o corpo de um lado para outro, contagiante e acompanhado por toda a plateia. Mais tarde, o teatro foi modestamente remodelado.

Era grande o suficiente para mais de duas centenas de pessoas, distribuídas em dois grupos de poltronas enfileiradas, com corredor livre entre eles e nas laterais. O teto era muito alto, talvez até demais para o tamanho do salão. Havia um palco elevado, com escadarias de acesso de ambos os lados, assim como entradas internas no palco, à direita e à esquerda, com espaço para coxia. A entrada ao teatro era pela lateral direita em direção ao palco. Entre a entrada e a última fila de poltronas havia um espaço vazio, de teto rebaixado, acima do qual ficava um aposento com largura ocupando todo o espaço e janelas que permitiam observar o teatro por inteiro. Certamente, tinha a finalidade de vigia ou observação, à guisa de camarote. Mas sempre esteve vazio, sem mobiliário algum.

O salão foi e continua sendo local para muitos eventos importantes até os dias atuais. O reconhecimento do curso aconteceu aqui. As primeiras outorgas à membros da ALACS – Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro-Sul do Paraná – também ocorreram aqui. Foi palco da criação da “Fundação Denise Stoklos”, com a presença da homenageada. A artista, via de regra, faz as estreias de suas peças na cidade de Irati, onde tem a sua origem e familiares. Neste palco, aconteceram algumas das estreias.

Vamos ao episódio da prova no salão, tema do capítulo.

Alguns dias antes da sabatina prevista, um dos alunos, não repetente, o Gervásio Silveira, oriundo da cidade de Castro, interior do Paraná, assediou o Prof. Takei para um pedido. Era um cara de pau, embora fosse um aluno com desempenho mediano.

– Ei Profe, acho que vou ter que fazer a prova em segunda chamada.

– E qual é o motivo? Alguém morreu?

– É que ontem, na “Quintaneja”, machuquei o punho, olha aqui.

“Quintaneja” é uma extensão ampliada em mais um dia da “Sextaneja”, denominação carinhosa para a noitada, que entre outras, era animada por música sertaneja e que acontecia e acontece nas noites de sexta-feira, comemorando, por antecipação, o final de semana. Alguns já começam a comemorar nas “Quartanejas”, “Terçanejas” e assim por atrás.

– Mas como foi machucar assim?

– Em meio as paqueras e bebidas, tive um bate-papo físico com um cara e acabei destroncando o punho direito e daí, que não estarei em forma para escrever na prova de segunda-feira.

– Pois é, a prova vai acontecer mesmo na “Segundaneja” e você vai ter que fazer, porque isso daí não justifica uma segunda chamada.

– Mas Profe, com essa mão… sou destro.

– Sinto muito, mas não há o que fazer. Espero que até segunda-feira a tua mão esteja em ordem.

– Não sei não, Profe. Não garanto.

Aquela prova foi mesmo realizada no dia previsto, no Salão Nobre, com a presença dos alunos de todas as turmas, A, B e C, da disciplina de Ecofisiologia Florestal. Com quase a metade do salão ocupado, o Prof. Takei começou a distribuir as provas e ficou aliviado em ver a presença do Gervásio, com a mão direita engessada até os dedos.

– Tá vendo, Profe, estou todo engessado, será que vou conseguir escrever?

– Fica frio. Senta aqui na frente para eu te ver trabalhando. A prova será de múltipla escolha e assim, você pode marcar a resposta com “x” e pode muito bem fazê-lo com a mão esquerda.

Embora os alunos fossem distribuídos em filas e poltronas alternadas, o campo de visão assim ampliado, dificultava uma vigia mais eficaz. Na verdade, o professor sempre exagera nesse ponto que, no final, passa sendo uma cena teatral, apenas para amedrontar os sabatinados. O Prof. Takei até exagerava em sua performance teatral, quando desconfiava de algum movimento suspeito na plateia. Olhando para a janela do balcão que fica acima, no fundo do salão e com o polegar levantado, gritava:

– Ei, Professor Marujo, tudo bem por aí, no balcão? Está conseguindo vigiar direitinho?

Era um expediente ridículo, mas certamente funcionava para aqueles mal intencionados.

Afinal, tudo ocorreu tranquilo com a sabatina.

Após a correção da prova, foi grande a satisfação para o Gervásio em ter conseguido um escore bastante elevado como resultado.

Para o Prof. Takei foi mais uma comprovação de como, uma boa orientação e incentivo, é capaz de fazer com que as pessoas ultrapassem o seu limite, independente de que tipo.

Sob o pé da castanheira

Os alunos estavam preparando-se para mais uma aula prática de campo da Disciplina de Dendrologia. Era um corre-corre para pegar ferramentas, prensas, jornal e outros materiais necessários à coleta de exemplares para futura confecção de exsicatas para o Herbário.

Dendrologia é a matéria que treina os alunos a identificar uma espécie florestal com base em caracteres macromorfológicos, como folhas (tipo, tamanho, forma, cheiro, entre outros), porte da árvore (altura, tipo de copa, tipo de tronco, entre outros) e a casca (tipo, cor, descamação, espessura até o lenho, cheiro interno, entre outros). Existem várias outras características visíveis ou detectáveis a olho nu, que no conjunto, permitem uma identificação rápida no campo. Esta técnica é utilizada pelos mateiros, pessoas treinadas para identificar árvores, que quase sempre acumulam também outras habilidades como coletar e preparar material botânico para herborização.

Na área do Campus havia alguns nichos com mata secundária e também pequenos trechos com árvores plantadas, estas em sua maioria, espécies exóticas, ou seja, aquelas que foram introduzidas na região.

Desta vez, a aula estava marcada para estudar as espécies que haviam sido plantadas na futura área destinada ao reflorestamento de pesquisa e aulas práticas. Eram exemplares já adultos, com abundante material fértil de flores e frutos para coleta dendrológica, plantados há vários anos, bem antes da área ser destinada à Universidade.

A subida para o local do estudo passava pela alameda de ciprestes centenários. São inúmeras as estórias envolvendo tais ciprestes. A alameda era formada por duas fileiras de Cupressus lusitanica, nome científico do cipreste ali plantado, que adornavam uma ladeira de quase 45 graus, separadas por uma rua carroçável sem pavimentação. As valetas de cada lado da rua, oriundas da erosão, eram de dimensões medianas, as quais, de tempos em tempos, tentava-se preencher com entulhos e pedras. Mas, naquela inclinação do terreno era impossível conter o efeito da chuva com tais técnicas simples e temporárias de controle da erosão.

Figura 6.1: Alameda de ciprestes do Campus Universitário de Irati.
Foto: M.T. Inoue, 2005.

Alguns alunos subiram pela rua de ciprestes, usufruindo de sua sombra para aplacar o sol ardente do verão. Outros, acompanharam a subida junto com o Prof. Takei, pela lateral direita da fila de árvores. Este caminho, mais macio e seguro, ficava a uns quatro metros acima do leito da rua. Ou seja, o assoreamento pela erosão já havia propiciado o rebaixamento do leito da rua a tal ponto. Sob tais circunstâncias, as raízes dos ciprestes estavam lateralmente todas expostas. O perigo de queda das árvores em direção à rua era iminente. A novela envolvendo estes ciprestes será assunto para um outro capítulo.

Vencida a subida de uns 300 metros ladeira acima e com a respiração ofegante, o cortejo finalmente atingiu o topo do morro. Logo no início do espigão estava plantada a fileira de castanheira portuguesa, aquela que produz a saborosa castanha que se cozinha na época natalina. Os japoneses designam  esta castanha como kuri. Estranho ou coincidência, o nome em língua tupi guarani do nosso conhecido pinhão da araucária é curi. Embora a grafia possa ser diferente, o que importa é o som do nome. Da mesma forma, o modo de preparo para degustar é o mesmo: cozinhar com bastante água.

Figura 6.2: Fileira de castanheiras no Campus da Unicentro, em Irati.
Foto: M.T. Inoue, 2003.

A castanheira, Castanea sativa, é uma espécie exótica introduzida com sucesso na região sul do Paraná, onde se adaptou climaticamente, produzindo boa safra de castanhas, anualmente. Não era o objeto previsto para a aula prática, mas como estavam na rota, o Prof. Takei aproveitou para uma rápida abordagem sobre as características dendrológicas da espécie.

            – Embora a castanheira não seja uma espécie usada para a produção de madeira, é encontrada muito comumente em nossa região. Daí, acho importante que vocês conheçam algumas características para a sua identificação imediata. Primeiramente, observar se existem frutos no chão, que são fáceis de identificar pelo seu formato de ouriço.

            – Ei Profe, mas se é um fruto comestível, provavelmente não é fácil encontrá-los no chão, comentou Pedrão, apelido do Pedro Simão, devido ao seu tamanho.

            – É mesmo Profe, acresceu Joaninha, a C.D.F. da classe. Existe outra maneira de saber se é a castanheira?

            – Na verdade, existem diversas outras características. Podemos observar o formato das flores, por exemplo. Ela produz flores compostas em forma de longos cachos, disse Takei.

            –  Mas, agora por exemplo, não tem flores, retrucou João Krokoski, o sempre mal humorado da turma.

            – Certo. Nem sempre é como a gente espera que seja. Mas, quando a floração está presente, sei que é possível identificar facilmente a castanheira por exalar forte odor semelhante ao de esperma, principalmente quando as inflorescências estão se abrindo, informou Takei.

            – Mas eu não sei como é o cheiro disso que o senhor disse, comentou inocentemente a Dorinha.

Esta garota, embora com idade suficiente para ser universitária, era um toquinho de gente, com uns 150 cm de altura e uns 40 quilos de peso. Daí, o seu apelido diminutivo. Como boa parte dos alunos, ela era oriunda do interior do Paraná, com certeza com pouca ou quase nenhuma experiência em outras coisas da vida que não os afazeres domésticos e o trabalho da roça. O seu espontâneo e infantil comentário incitou quase uma comoção entre os alunos e o próprio professor. Com certeza, os mais ousados gostariam de fazer, cada um, o seu comentário malicioso. Percebendo o iminente tumulto, Takei não se fez de rogado e logo acrescentou.

            – Sei que muitos gostariam de dirimir ao vivo e pessoalmente a dúvida da nossa querida Dorinha. Vamos resolver isso já. Vou pedir ao Zé Paquera que vá até aquele bosque e traga uma amostra para que a Dorinha conheça como é o cheiro de esperma.

O referido aluno ganhou o apelido por ser mulherengo demais. Não se sabe se ele seria mesmo um conquistador ou se seria apenas folclore. Em todo caso, de imediato assumiu a missão e se prontificou a executar a obra.

            – Pois não, Profe, deixa comigo que é pra já!

            – Leve a revistinha do Pedrão, para ser mais rápido, comandou Takei.

Dali a alguns minutos, lá veio de volta o Zé Paquera, meio pálido, mas com uma cara de satisfeito por ter cumprido com garbo o sacrifício. Trazia dentro de um saco plástico o papel higiênico que usara para a coleta do material “dendrológico”.

Tendo isso a parte, o restante da aula transcorreu em sua normalidade.

Embora sob circunstância um tanto quanto cômica e constrangedora, certamente aquela aula de Dendrologia marcou indelével e inequivocamente, a técnica mais eficaz para a identificação da castanheira.

A abdução de Walter Kuchilo

Dentre os inúmeros alunos que estudaram no Campus Universitário da Unicentro em Irati, um que marcou época, sem dúvida, foi o Walter Kuchilo. De características étnicas típicas da região, cabelos encaracolados, altura mediana, pele branca e voz com timbre forte, parece que vivia para marcar a sua passagem por este mundo. Nesse expediente, quase sempre perturbava tudo ao seu redor: colegas, professores, ambiente e até os animais. Parece que ele fazia coleção de pássaros. Imagino o que os pobres coitados não passavam.

Como aluno, não era brilhante, talvez dentro da média. Mas, a sua figura destemida o fazia se sobressair na comunidade universitária. Alunos que ficam na lembrança de todo docente são aqueles dos extremos da curva de Gauss, considerando o desempenho nas notas. São os alunos “cobras”, com performance excelente, comportamento geralmente normal ou exemplar e os “maus” alunos, aqueles com escores bem abaixo da média e geralmente repetentes. A história nos mostra que o sucesso profissional quase sempre nada tem a ver com a performance estudantil, que não retrata a inteligência nem a sabedoria, esta, interpretada por vezes como esperteza, no bom sentido.

Voltando ao nosso ator, não havia um dia sequer que ele não aparecesse com alguma coisa diferente, seja em seu modo de trajar, seu linguajar, suas implicâncias com alguém da comunidade. Ele havia concluído o ensino médio no Colégio Florestal de Irati, uma instituição estadual de renome nacional e internacional, devido a projetos de cooperação, principalmente com a Alemanha. Ali, o convívio interno e em período integral, eram ingredientes propícios a que pessoas com “espírito de porco” aproveitassem o espaço e o tempo para extravasar suas características. E o Walter havia trazido tal comportamento para o ambiente universitário.

Para se ter uma ideia da figura, em sua colação de grau, naquela atmosfera bem formal e com a presença de autoridades, pais e familiares de formandos e colegas, o nosso protagonista, adentra a cerimônia extraordinária do Conselho Universitário calçando ostentosamente um par de pantufas espalhafatosas! E recebe o diploma e grau de Engenheiro Florestal trajando beca, borla e pantufas!

Mas o fato que marcou a sua passagem pela universidade foi a sua abdução por alienígenas, ficando “fora do ar” por uma semana. Acho que era no inverno, pouco tempo antes das provas finais do primeiro semestre. Não tendo comparecido à universidade por dois dias seguidos, sua ausência não poderia deixar de ser notada. Estaria doente? Sofreu algum acidente? As especulações chegaram a aventar até a possibilidade de ter morrido. Mas, sem ninguém saber?

Especulações a parte, após uma semana, como um fantasma ou num passe de mágica, o Kuchilo apareceu, para a paz e a tranquilidade da nação unicentrense. A nova figura do nosso herói estava um pouco diferente, meio abobado e com o olhar fixado em alguma coisa inexistente, pensativo e um pouco encabulado. Até restabelecer devidamente os contatos levou alguns dias. Aos poucos, foi perdendo a inibição inicial, até que começou, aos poucos, revelar o que havia experimentado naquela semana de desaparecimento.

Segundo seus depoimentos, divididos em várias sessões de conversa com os colegas, o desaparecimento ocorreu durante um passeio noturno no Parque Aquático, local bem frequentado durante o dia, mas relativamente deserto a noite. Ele caminhava tranquilamente pelas trilhas ecológicas em meio a mata circundante do parque, quando avistou um festival de luzes que lhe chamou a atenção.

– Opa, será que estão festando em plena quinta-feira, perguntou-se.

Ao se aproximar das luzes, deparou com uma cena nunca antes vista, que, certamente, ficará para sempre na sua lembrança. Descreveu como sendo uma nave espacial em formato de esfera achatada, com tamanho aproximado de 20 metros de diâmetro, inúmeras janelinhas arredondadas que circundavam a nave, de cujo interior piscavam luzes coloridas, as quais o Kuchilo avistara há pouco. Diversas “pernas” que saiam do artefato até o chão o fixavam no lugar. Havia um silêncio quase mortal.  Estupefato, qual não foi a sua surpresa quando se abriu uma espécie de porta, de onde uma escada foi baixada lentamente. Seu espírito aventureiro impediu que gritasse ou fugisse do local. De repente, vindo da porta da nave, uma voz agradável, mas retumbante, dizia num português nítido:

– Saudações ó Grande Kuchilo!

– Nós o saudamos em nome do nosso Imperador Antures, do planeta U345.

– Viemos para conhecer os terráqueos e você foi escolhido como amostra representativa dos seres inteligentes deste planeta. Entre na espaçonave para nos conhecermos melhor.

Nosso herói não se fez de rogado, pois sempre fora adepto de novas experiências e aquela, certamente, seria a oportunidade única para fazer contato com seres extra terrestres.

O relato de Kuchilo resume-se nisso. Argumenta que recebeu instruções bem severas para não divulgar a estada de uma semana em espaço exterior. Até hoje não se sabe o que aconteceu, na realidade. Em todo caso, ficou evidente alguma mudança em seu comportamento e visão de mundo.

Atualmente, o Walter Kuchilo é um profissional bem sucedido da área de Colheita Florestal.