Crônicas de Irati

Coletânea de historietas, escritas por autores convidados, tendo como cenário a UNICENTRO, a cidade de Irati e a região Centro-Sul do estado do Paraná.

Editores da coletânea são Dr. Antonio José de Araujo e Dr. Mario Takao Inoue, ambos professores aposentados da UFPR e da UNICENTRO, membros efetivos da ALACS – Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro-Sul do Paraná.

Todas as contribuições são assinadas e seus conteúdos estarão sob a inteira responsabilidade dos respectivos autores. Quando for o caso, ao clicar no nome, abre-se o link ao currículo na Plataforma Lattes.

Introdução

O registro de fatos do cotidiano, mesmo que em formato informal, pode servir de boa fonte de consulta para conhecimento histórico e cultural. Foi com essa premissa que surgiu a ideia de publicar a coletânea “Crônicas de Irati” para registrar impressões vividas e ouvidas na forma de contos, em textos curtos de ficção inspirados em fatos.

A localização dos acontecimentos é a região Centro-Oeste do Paraná, centralizando-se principalmente na cidade de Irati.

Vista parcial da cidade de Irati, Paraná.
Foto: M.T. Inoue, 2001

Os contos seguem a linha de tempo entre fins de 1990 até os dias atuais, período marcado pela criação, implantação e desenvolvimento do Curso de Engenharia Florestal da Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO em seu Campus Universitário de Irati.

Foi o período em ocorreu um rápido e grande crescimento da instituição, com a criação e fortalecimento de inúmeros cursos de graduação e pós-graduação, em sua boa parte com excelente avaliação oficial, o que consolidou o nome da UNICENTRO no cenário nacional e internacional.

Prédio principal da Unicentro, no Campus Universitário de Irati.
Foto: M.T. Inoue, inverno de 2006.

Via de regra, os nomes de pessoas, algumas instituições e localizações das ocorrências são fictícias ou têm suas denominações trocadas, visando a preservar certa privacidade. De acordo com as descrições, não é difícil a provável identificação de personagens, instituições e locais, principalmente para as pessoas que conviveram contemporaneamente a época e os fatos.

Caracterizando-se como crônicas, as narrativas são curtas e redigidas informalmente, usando-se linguagem simples e coloquial, procurando-se não afetar princípios morais e éticos. Ingredientes lúdicos, curiosos, cômicos, sui generis, bom humor e irreverência contribuem para que a leitura seja prazerosa.

O período em que as estórias são contadas foi marcado por inúmeras ocorrências significantes no Brasil e no mundo. Talvez o fato mais chocante foi o ataque terrorista às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, no inesquecível 11 de setembro de 2001. Foi o período em que muitos conflitos armados foram deflagrados, principalmente envolvendo países do Oriente Médio, como Afeganistão e Iraque. Pela primeira vez na história, um Presidente de descendência afro-americana, Barack Obama, é conduzido à Casa Branca. No Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro operário a ser eleito como Presidente da República. Entre 2008 e 2009, o mundo sofreu uma das maiores crises econômicas, levando vários países à recessão. Houve acontecimentos positivos também, como o surgimento da Internet e do iPhone, propiciando a explosão tecnológica em termos de comunicação, efetivamente globalizada na forma das redes sociais. O Brasil conquista o seu quinto título de campeão na Copa do Mundo, no Japão. Na moda, foi o período das calças de cós baixo, que permitia aos jovens, principalmente as meninas, de exibirem ostentosamente seus “cofrinhos”.

1 - Algumas memórias do Campus Universitário de Irati da UNICENTRO

Estávamos no ano de 1994. 
Mês de fevereiro.
Ansiosos porque iríamos mudar para o prédio no bairro do Riozinho, antigo Seminário Seráfico Santa Maria. A mudança era necessária, pois o prédio, onde nasceu a Faculdade, denominada FECLI (Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Irati), instalada em 1974 e cuja primeira diretora foi a professora Maria Roza Zanon de Almeida, ficara pequeno para abrigar as perspectivas alvissareiras no ensino superior.

A Faculdade de Irati já estava estadualizada, devido à fusão com a FAFIG (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Guarapuava), portanto a transferência para o prédio no bairro do Riozinho propiciaria melhores condições para o funcionamento do ensino superior.

Havia uma negociação mediada pela Prefeitura de Irati e pela Congregação dos Frades Capuchinhos, para efetuar a mudança de sede da instituição, que perdurava por sete anos, visto que o prédio fora desocupado no ano de 1987.

Enfim, legalizados todos os protocolos, mudamos e fomos adaptando-nos naquele espaçoso prédio, de quase 10 mil metros quadrados de construção e com um terreno igualmente com condições de abrigar outros segmentos educacionais.

Em 1997, a UNICENTRO foi reconhecida como universidade – a Universidade Estadual do Centro-Oeste. Os projetos começaram a ser desenvolvidos gradativamente, como: concursos para professores e funcionários, aquisição de bens para equipar nossos primeiros laboratórios, biblioteca, salas de departamentos pedagógicos, setores administrativos, como também, o processo de reconhecimento contemplava a instalação de dois novos cursos: Educação Física e Engenharia Florestal. 

Optou-se por esses cursos no projeto de expansão, pois Irati tinha um histórico muito favorável, devido ao fato de sediar o Colégio Florestal, que recebia alunos do ensino médio de vários locais do Brasil. Logo, com esses parâmetros tão bem-sucedidos, implantar-se-ia o Curso de Engenharia Florestal, em nível superior.

Em relação ao Curso de Educação Física, levou-se em consideração o espaço onde outrora, enquanto Seminário Santa Maria, realizavam-se eventos esportivos e festas religiosas anualmente. A comunidade iratiense, se fazia presente, naquele recanto agradabilíssimo, por sua paisagem, por sua estrutura esportiva e por serem encontros tradicionais. Além de que havia uma enorme carência de profissionais na área de Educação Física em todos os municípios da região.

E assim foi o começo de nossa estada no novo local de ensino…  

Esses são alguns finos fios de memórias dos primeiros momentos de nossa UNICENTRO/Irati que tem e terá muitas vozes para contar e cantar com dignidade, orgulho e satisfação de sua história, que se desenvolve no dia a dia de seus alunos, de seus professores, de seus funcionários e de todos que fazem parte de sua magistral trajetória.

2 - A UNICENTRO e as Araucárias

Era novembro. Mês de calor e de expectativas. Era quase chegado o momento das provas. Mais um concurso. Mais esperanças. A natureza em todo seu verdor formava um casamento perfeito com o sol que nos aquecia e brilhava, brilhava e aquecia. Esperança dentro de mim, calor fora de mim. Verdes dentro e fora de mim. O percurso até aquela cidade foi cortado por elas, as araucárias. Nobres, solenes, etéreas. Indiferentes à azáfama que assola a todos. Elas, em seu esplendor, a nos pedir apenas calma. A nos aconselhar a olhar para o belo que está fora de nós, dentro de nós.

Era novembro. E a curiosidade aumentava, quase fazendo o concurso ficar para segundo plano. Como seria a cidade na qual a Unicentro estava fincada? Eu sabia apenas que Irati era a cidade em que nascera a grande atriz Denise Stoklos .

Como cheguei na cidade dias antes do concurso e me hospedei num hotel no centro da cidade, resolvi, num dia banhado de sol, conhecer a cidade. Que brisa! Quanta lindeza! E Nossa Senhora das Graças a abrir os braços para mim. Meu primeiro percurso foi curto porque me deparei, assim que sai do hotel, com um Sebo. Era o Centenário . Na porta, uma senhora de olhos azuis e olhar poético olhava o infinito. E ao ser interpelada por mim, que lhe perguntara por um determinado livro, me dera uma aula acerca da literatura portuguesa. Foi encantamento porque era novembro.

Ao sair do sebo, um cartaz me chamou a atenção: às 20h, no Centro Cultural Clube do Comércio, haveria a apresentação da peça As lágrimas amargas de Petra Von Kant (Filme de 1972  –  Peça teatral de 1984). Era o grupo de teatro de Irati que faria algumas apresentações. E eu me indaguei: será que estou no paraíso, meu Deus! Uma cidade em que entro num sebo e tenho uma aula, saio dele e vejo propaganda de uma obra clássica. Era novembro e minhas emoções cada vez mais se aqueciam.

Volto ao hotel em festa. Descanso. Saio para jantar. Italiano. Leio o cardápio, amargo a solidão de jantar sozinho, mas não me fiz de rogado e pedi uma farofa. Que farofa! Mais deleites. Mas era novembro e tinha no meio do caminho um concurso.

Manhã de sol. Táxi para Unicentro. Que impacto. Nossa Senhora da Conceição e as araucárias nos recebem. Esperanças duplicadas. E de repente me deparei com uma fachada majestosa que, de tão bela, causava uma certa estupefação, e por algumas horas o concurso saiu de minha cabeça e meus olhos queriam apenas admirar portadas e janelas, jardins e iluminação. Sim, havia uma luz forte que cercava todo aquele prédio, que depois eu ficara sabendo que era o principal.

Figura 2.1: Caminho de acesso ao prédio principal da Unicentro.
Foto: M.T. Inoue, 2001.

Procuro, claro, a biblioteca, e me contam que ali nos tempos idos era a padaria. A Unicentro fora um seminário franciscano. Entre estantes atapetadas de livros, sinto cheiros e vem o café de minha avó, o pão da minha mãe, o pão nosso de cada dia. Perto dali, diviso um jardim e as cores se misturam e viram um mosaico, mas uma cor rouba a cena e é com o domínio do verde e da esperança que vários candidatos procuram apressados as salas, porque o concurso vai começar.

A prova começa e minha imaginação vagueia entre as araucárias, Nossa Senhora, o verde, o calor, a esperança. Saio da prova como quem sai de um jardim botânico. Há cheiros em minha alma e uma quase certeza de que Irati seria em minha vida não apenas um encontro, mas um intenso caso de amor.

À noite, assisto à peça As lágrimas amargas de Petra Von Kant e minha alma sai do teatro com esperanças ainda mais renovadas. Durmo pensando no verde, em tempos de porvir. Era novembro. Dias depois, sai o resultado e eu fora aprovado e minha alma dança, transborda. Eu moraria em Irati, eu viveria dias, meses, quiçá anos naquele universo bento de araucárias e certezas: respirar os verdes das araucárias da Unicentro, em Irati!

Em 24 de junho de 2020
Dia de São João
Dia Nacional da Araucária

3 - Os Três Mosquiteiros

A nossa história, embora ocorrida num seminário franciscano na famosa metrópole que lembra, do tupi-guarani, ninho de abelha, não se pretende que seja parodiada com o romance de Alexandre Dumas. Seu romance também foi uma coletânea das crônicas jornalisticas das aventuras de “Athos, Porthos e Aramis”, compiladas mais tarde em forma de livro com o título mudado para “Os Três Mosqueteiros”, que, no entanto, eram quatro.

Não percebemos a razão do nome da cidade ser Irati. Em todo caso, vamos descrever o início de nossa história com a chegada dos Três Mosquiteiros (com i). Sabe-se que, para se proteger de insetos, é bastante eficaz o uso de mosquiteiros em janelas ou na forma de tenda sobre a cama.

O professor Takei Okoku contava que, em suas andanças pelo interior de Moçambique, precisamente em Marrupa, na Província do Niassa, ele foi o único da equipe de cooperantes que não fora afetado pela malária. Certamente, devido a sua paciência nipônica, diariamente, infalivelmente, abaixava o mosquiteiro instalado acima de sua cama e, esmeradamente, com todo o tempo livre de expediente de trabalho encerrado (claro, não havia o que fazer naquele fim do mundo), enfiava toda a borda do véu por debaixo do colchão, cuidando para que não ficasse uma frestinha sequer. Na hora de dormir, abria uma fresta para se deitar e fechava cuidadosamente. Os demais colegas de trabalho não se davam ao afazer deste esmerado ritual, e sim, simplesmente abaixando o véu e deixando as bordas soltas ao lado da cama. Este expediente acontecia no início do entardecer, no período em que o mosquito do gênero Anopheles, transmissor do protozoário que provoca a doença, sai de sua toca à procura de sangue para se alimentar. Contava o mesmo professor também que, em suas aventuras pelo interior do Amazonas, precisamente em Novo Aripuanã, praticava o mesmo ritual, agora em terras brasileiras. Assim, até hoje, nunca foi afetado por malária. Se as pessoas praticassem o uso de mosquiteiro em zonas onde existe o mosquito da dengue, Aedes aegypti, certamente a incidência dessa doença mortal, assim como da chikungunya e da zika não seria tão disseminada.

Retornemos à história da chegada dos Três Mosquiteiros à Irati. Neste contexto, a missão dos três heróis não era a de proteger a cidade de bandidos. Haviam sido contratados pelo Reitor com a missão de implementar o recém-criado Curso de Engenharia Florestal da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro). Eram também conhecidos como “Os três A”. Vejamos então o porquê dessa denominação, independentemente da cronologia de chegada.

Alfonso Figueiroa tinha sido professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde praticou proficuamente a docência por quase três décadas, aposentando-se em final de carreira. A sua dedicação à profissão era tamanha que, precocemente, havia doado muito de sua vasta cabeleira à formação de milhares de profissionais florestais, entre graduados, mestres e doutores. Conhecedor dos quatro quadrantes do mundo, disseminou internacionalmente seus conhecimentos, propagando a fama de sua universidade de origem, em cursos e seminários proferidos e por meio de trabalhos apresentados em congressos. A sua expertise é o Manejo Florestal, que trata do planejamento e dos procedimentos aplicados às florestas, sejam plantadas, sejam naturais, visando à produção sustentada. O mote, é conseguir com que a exploração dos recursos florestais seja, em montante e em qualidade, igual ao montante e qualidade que a floresta consegue crescer e produzir naturalmente, sem prejuízo das condições ambientais.

Figura 3.1: Professor Alfonso marcando árvores da pesquisa na Floresta Nacional de Irati.
Foto: M.T. Inoue, 2001.

Antônius Marujo foi igualmente um professor da UFPR, também aposentado após três décadas de dedicação exclusiva à docência e à pesquisa. Com extensa experiência internacional, formou milhares de pessoas que atuam nos mais diferentes e distantes recantos do mundo, titulados como mestres e doutores. No início de sua carreira, além da docência, atuou também como administrador e pesquisador de uma estação experimental da UFPR, na cidade de Rio Preto, à 100 km de Curitiba. Foi ali que aprendeu a gostar e treinar as habilidades, que mais tarde marcariam sua trajetória profícua como docente e grande pesquisador na área da Genética Florestal. Durante a sua atuação naquela fazenda experimental, foi obrigado a aprender dirigir. Havia um veículo da Volkswagem chamado kombi, único utilitário de fabricação brasileira à época. Era um modelo de cabine simples, com carroceria aberta. O intuito era o seu uso como utilitário, mesmo. Isso precisa ser confirmado mas, parece que o nosso herói foi um autodidata em habilidades motorísticas. O manual de uso do veículo estava sempre à sua mão. O ritual para a saída com o carro era o mesmo: adentrar, sentar-se ereto, olhar para frente. Daí em diante, os atos eram acompanhados da descrição por sua voz, como na partida de um avião:

–  freio de mão, acionado;

– pisar na embreagem, pisado;

– olhar para a longa manopla do câmbio, olhado;

– conferindo as marchas: primeira, ponto morto, segunda, ponto morto, terceira, ponto morto, quarta, ponto morto, marcha à ré, ponto morto (a cada marcha, a descrição completa do pisar na embreagem);

– repetindo, pisar na embreagem, pisado;

– pisar no freio, pisado;

– conferindo outra vez as marchas: primeira, ponto morto, segunda, ponto morto, terceira, ponto morto, quarta, ponto morto, marcha à ré, ponto morto.

Após umas três ou quatro repetições deste ritual, agora era pra valer, depois de uma última conferida dos procedimentos.

E foi assim que o nosso herói se saiu garbosamente como exímio motorista que ele é hoje, cuidadoso, nunca se envolveu em acidente.

Aliás, existe um incidente, mas isso será assunto de um outro capítulo.

Figura 3.2: Professor Marujo na cerimônia de reconhecimento do Curso.
Foto: M.T. Inoue, 2002.

Abílio Desesperanti é o nosso terceiro mosquiteiro. Exemplo da descendência italiana, concluiu duas graduações: Licenciatura em Ciências e Engenharia Florestal, que certamente foram, em sua totalidade, alicerces para a sua ascensão jubilosa como professor da UFPR, onde se aposentou após três décadas, como Professor Titular. Ele não era morador da CEU, a Casa do Estudante Universitário, mas tomava refeições e frequentava diariamente a instituição, ampliando as suas relações pessoais. Muito religioso, tornou-se amigo e, dizia-se, que atuava como coroinha do Padre G, mentor católico da CEU, durante a missa realizada semanalmente. Viajante cosmopolita, doutorou-se na Inglaterra e realizou estágio pós-doutoral nos Estados Unidos. Foi um dos mais profícuos docentes, formando milhares de profissionais, dentre eles, muitos orientados como mestres e doutores. Sua especialidade era o Sensoriamento Remoto, ou seja, o planejamento do manejo de florestas por meio de imagens, antigamente na forma de fotografias aéreas tomadas por avião, mais tarde, por imagens de satélites. Foi precursor no desenvolvimento dos atuais drones. A teimosia do italiano em ver as árvores de perto e por cima foi a chama para o aprimoramento de algumas técnicas não tanto convencionais para obtenção de fotografias aéreas. Dentre as suas peripécias no uso de técnicas remotas, experimentou usar balões acoplados a uma câmera fotográfica e fios para controle; aeromodelos com controle remoto; chegou a pilotar avião para tomada de fotos aéreas. Teve oportunidades em realizar trabalhos em parceria com Takei Okoku, descritos na sequência.

Figura 3.3: Professor Abílio em aula prática de Topografia.
Foto: M.T. Inoue, 2003.

Na prática, a denominação de “Os três A” não se deve apenas às letras de seus nomes. A estratégia inteligente adotada pelos dirigentes da Unicentro em arregimentar profissionais experientes para implementar um curso incipiente, teve uma resposta positiva, não encontrável de forma corriqueira. O presente exemplo é prova cabal disso. Para um empreendimento como aquele, não bastava título, produção científica, experiência e cara bonita, se não houvesse engajamento. Não sem propósito, “Os Três A” formavam um time de elite, sintonizados com um objetivo específico: tornar aquele curso incipiente um curso de primeira linha. Também não é sem propósito, que as inúmeras noitadas de planejamento na Lanchonete do Napolitano formaram o calabouço da estratégia para o começo do curso. Mas isso é assunto para outros capítulos.

O quarto mosquiteiro a chegar, foi o Takei Okoku. Também foi professor da UFPR, aposentando-se como Professor Titular após três décadas de serviço exclusivamente dedicado ao ensino e à pesquisa. Teve larga experiência na administração universitária, ocupando diferentes cargos. Do signo de virgem e nascido no ano do cachorro, segundo o calendário chinês, teve sua vida alinhada com esmero, objetividade, fidelidade e, sobretudo, garra para o trabalho. Não é sem propósito que ficou conhecido como ergo-maníaco. Começou a trabalhar para fora desde os 12 anos de idade e nunca mais parou. Iniciou sua carreira profissional como responsável pela Estação Experimental da UFPR na cidade de Santo Antônio da Prata, ao mesmo tempo que lecionava em Curitiba. Essa época marcou sua trajetória como “pé na estrada” internacional. Partia no domingo à noite de Prata, acompanhado da esposa, em camioneta da Estação, prelecionava a aula na segunda-feira, e à noite, retornava à Prata. Esta responsabilidade pela Estação não era remunerada. O pouco que recebia como Auxiliar de Ensino era suficiente para sobreviver, naquela época sem internet, shopping center e coisas incitantes ao consumismo. Não sem propósito, este comportamento transigente foi o alicerce para a sua rápida ascensão profissional, sendo na UFPR, o primeiro a retornar com título de doutor obtido no Exterior, especificamente, Alemanha. Igualmente, propiciou que usufruísse de inúmeras oportunidades de viagens internacionais pelos quatro continentes, participando de cursos, proferindo palestras e apresentando contribuições em congressos. Nunca utilizou dinheiro do governo brasileiro para essas viagens, sempre recebendo apoio de instituições internacionais. Por natureza ou por afinco, é dotado de inúmeras outras habilidades. Autodidata em eletrônica, desenvolveu em parceria com o Prof. Abílio Desesperanti, três equipamentos para uso auxiliar em técnicas de sensoriamento remoto. O primeiro, foi um clinômetro eletrônico, descrito numa publicação científica em revista de grande circulação, para uso em tomadas de fotos aéreas inclinadas. O segundo, foi um disparador temporizado acoplado à câmera fotográfica, para múltiplas fotos contínuas em tempos regulares de um, dois, três ou mais segundos entre fotos. O terceiro, foi um contador eletrônico de pontos, em formato de caneta, usado para contar os furos de uma máscara plástica transparente sobre um mapa, propiciando estimar a área de uma superfície de mato, por exemplo. Não se sabe porque, recebeu apelido de “Cotonete”. Provavelmente, deve-se a sua figura cambaleante quando usava camisa e calça azuis, que complementavam o figurino, de cabeça branca e tênis branco.

Figura 3.4: Figura 3.4: Professor Takei treinando laboratorista no uso de equipamento para medir fotossíntese.
Foto: M.T. Inoue, 2007.

Em resumo, os Três Mosquiteiros, com a chegada do quarto, formaram o time que impulsionaram o início do curso, que mais tarde ultrapassou, em qualidade, o curso de origem dos nossos heróis. 

A Pensão da Dona Piriquita

Inspiração para a crônica "O amanhecer na Pensão da Dona Piriquita", classificada em primeiro lugar no III Concurso Literário Foed Castro Chamma, edição 2020, promovido pela ALACS.

Dentre as figuras que podem ser consideradas emblemáticas de Irati, sem dúvida que a Pensão da Dona Piriquita é uma das mais representativas. Tanto pela localização estratégica, como também pela sua imponente arquitetura em estilo polonês. 

O bairro onde fica a referida construção é denominado Riozinho. Na verdade, existe um córrego bem perto da casa, mas não grande o suficiente para ostentar o nome de rio.

Figura 4.1: O estilo arquitetônico da Pensão da Dona Piriquita.
Foto: M.T. Inoue, 2000.

O nome da casa é homenagem à matriarca de uma família proeminente do bairro, outrora mais desenvolvido que a própria cidade. Certamente, os antigos donos do terreno e da casa devem ter sido de relevância no contexto sócio-político da época. Um ex-governador do Paraná era neto daquela matriarca.  

Entre idas e vindas, a casa acabou sendo adquirida pela atual proprietária, a Dona Leoni, que de imediato, implementou uma significante reforma, dando-lhe o atual aspecto: de coloração bege e azul-celeste. O interior foi igualmente remodelado, para futuro uso como pensionato, com diversos quartos e banheiros bem dimensionados, femininos e masculinos.

O ponto forte do futuro pensionato era, sem dúvida, a sua localização: no cruzamento da rodovia Irati-Rebouças com a rodovia que vai para São Mateus do Sul e o bairro Gutierrez, por onde passa o ônibus urbano com destino ao Campus da Unicentro. O foco da Dona Leoni, era atender a demanda por moradia de professores e alunos da instituição.

Foi justamente neste local que, em 1938 foi inaugurada a estação de trem denominada Riozinho, o que deflagou um desenvolvimento maior do que o da cidade. Todo o contexto social, político e econômico estava centrado nesta região.

Figura 4.2: Ensaio fotográfico mostrando a localização da Pensão da Dona Piriquita.
Ilustração de M.T. Inoue, baseado em foto original de C. Mazur, 2001.

A Figura 4.2 mostra a localização da casa, numa vista vindo da cidade em direção ao trevo Rebouças – São Mateus – Gutierrez. No lado direito da foto, onde existia uma grande serraria, localiza-se o atual acesso ao Campus da Unicentro.

Planejados e executados, os objetivos da Dona Leoni foram, aos poucos, sendo concretizados. Entre os anos de 1998 e 2004, seguramente, boa parte dos docentes que eram contratados pela Unicentro, passaram pela pensão da Dona Piriquita. Dentre eles, os Três Mosquiteiros, incluindo o quarto, que chegou em 2001. Via de regra, o ritual de passagem pela casa era: os novos, desconhecendo as condições de logística da cidade, ficavam hospedados na casa, onde tomavam as refeições e dormiam. Para ir ao trabalho, era só caminhar os 300 metros que dista o prédio da Unicentro. Isso acontecia com os docentes como também com os estudantes.

A casa oferecia: três refeições diárias, exceto domingo à noite; quartos individuais, duplos e triplos; banheiros separados, masculinos e femininos, dimensionados a não provocar congestionamentos; lavanderia com máquina de lavar; amplo quintal com estacionamento; varandas circundando toda a morada. Para o deslocamento à cidade para compras ou noitadas, era só pegar o ônibus cuja parada ficava ao lado da casa. Mas, havia que se seguir a regra do lar: retornar por volta das 22 horas, após o que as portas eram trancadas. Houve caso de uma exceção, mas isso será contado em outro capítulo.

Na prática, a passagem pela casa, via de regra, era temporária.Com raras exceções, depois de um semestre ali, a maioria, já ambientada com a logística da cidade, arrumava jeito de alugar um imóvel no centro. Com o passar do tempo, os comerciantes da cidade despertaram para a demanda infalível para morada, alimentação, vestuário, etc, iniciando um boom de novas construções e estabelecimentos. Isso faz parte dos dividendos de se ter uma universidade urbana.

Somente quem já morou na região pode testemunhar o que é passar frio. Devido a sua localização no segundo planalto, a quase 850 m acima do mar e circundada pela floresta de araucária, o inverno costuma ser rigoroso, com temperatura mínima de até -10ºC. Nessas circunstâncias, uma casa em madeira não oferece proteção adequada, notadamente nas noites que precedem a geada. Daí, não existe cobertor que chegue para aplacar o gélido vento que, às vezes, penetrava por entre os sarrafos da parede. Após uma noite assim mal dormida, o comentário geral no café da manhã, era que a Dona Piriquita tinha vindo assombrar aqueles menos avisados da pensão, puxando-lhes pelas pernas. Daí, o fato de não conseguirem dormir. O mais afetado dos hóspedes era o Prof. Alfonso, que dizia ser paquerado pela Dona Piriquita, de tantas visitas que recebia, independentemente da época do ano. Com certeza, era o charme de sua vasta cabeleira o motivo dessas visitas noturnas.

Além dos atributos da casa quanto à temperatura de inverno, nas demais estações do ano, notadamente no verão, a morada tinha que ser protegida da visita de alguns insetos indesejáveis. O pior deles era o conhecido como “borrachudo”, que atacava as pernas descobertas, principalmente durante o período da tarde. Nesse ponto, as mulheres que usavam vestido, saia ou bermuda eram as mais preferidas. No entanto, a ferocidade do ataque acontecia mesmo por cima do tecido das calças ou o inseto adentrando por dentro da perna da mesma. A picada do “borrachudo” além de bastante dolorida, deixa rastro preto em forma de uma pinta, que vai aparecer depois de dois ou três dias e coça muito.

Outro inseto que afetava a vida na casa, faz parte do grupo dos pernilongos, incluindo o da dengue. Estes, adentram as moradias no final da tarde. Para se proteger, as portas da casa tinham fitas adornando a entrada e molduras de tela nas janelas, que podiam ser retiradas durante o dia e reinstaladas no final da tarde. Nesse aspecto, o Prof. Takei, com a sua vivência na África e no Amazonas, era o guardião-mor encarregado de inspecionar o ritual de aplicação das telas em todas as janelas.

Uma das características marcantes da Dona Leoni, era a sua franqueza ao comentar ou responder a qualquer tipo de indagação ou observação. O episódio ocorreu logo nos primeiros tempos em que a equipe dos Três Mosquiteiros veio a ocupar a pensão da Dona Piriquita. Geralmente, o pão servido era, obviamente, comprado no comércio local, que não era lá essas coisas. Às vezes, a compra vinha da cidade. Foi num final de semana, talvez no café da manhã de domingo, alguém comentou sobre o pão servido.

– Será que não tem como a gente ter pão mais fresco?

– Aqui não é uma padaria, para ter pão fresco a toda hora.

Claro, que o dito ficou pelo não dito e não houve sequência do diálogo.

Isso ocorreu quando ainda não existia máquina elétrica (panificadora caseira) de fazer pão. Talvez o episódio do pão fresco deve ter despertado o interesse da dona da casa em oferecer um tratamento mais adequado aos hóspedes. Logo depois, alegremente, ostentava a compra do artefato elétrico, até mostrando como a mesma era eficiente na mistura da massa.

Daí em diante, tínhamos pão fresco todos os dias! De manhã e à noite!

Aquela casa foi testemunha de alguns episódios marcantes, até ao nível mundial. O ataque às torres do World Trade Center, no fatídico 11 de setembro de 2001, foi noticiado pela hora do almoço, quando a maioria dos hóspedes estava presente. Quase não foi possível almoçar direito, pois o choque da notícia, somado às imagens dos aviões chocando-se com as torres, tomou conta do ambiente na Dona Piriquita. Quem não tinha compromisso depois do almoço, permaneceu por conta de acompanhar os noticiários no restante da tarde.

Na época, a internet ainda era incipiente, assim como precário era o serviço de telefonia móvel. Para se fazer ou receber uma ligação telefônica, era preciso subir ao piso superior, onde, com muita sorte, era possível estabelecer um contato meia boca. Durante o dia, havia a possibilidade de subir até o espigão, aproximadamente onde estão as pessoas na foto da Figura 4.2, onde se podia conseguir um sinal um pouco melhor. Ainda assim, era preciso levantar o telefone acima da cabeça e girar devagar o corpo até conseguir um ou dois pauzinhos de sinal. E ainda, falar no viva-voz com o telefone no alto.     

A prova no Salão Nobre

Os primeiros alunos a ingressar no Curso de Engenharia Florestal eram, em sua maioria, oriundos da região Centro-Sul do estado do Paraná, de cidades vizinhas a Irati, como Teixeira Soares, Prudentópolis, Imbituva, Rebouças, Fernandes Pinheiro, Rio Azul, entre outras. Com o passar do tempo, os candidatos vinham de outros municípios, dos estados do Paraná e Santa Catarina, sobretudo. Atualmente, com o reconhecimento do curso ao nível mundial, principalmente devido a projetos de cooperação internacional, possibilitam a estudantes de outras origens virem aqui estudar, seja na graduação ou nos níveis de mestrado e doutorado.

Nos primórdios do curso havia um mínimo de docentes para alavancar os seus primeiros passos. Uma parte das disciplinas, principalmente as básicas não profissionalizantes, era coberta por docentes já existentes na instituição, dos dois campi da Unicentro, Irati e Guarapuava. Aliás, o status de Campus Universitário para o complexo em Irati só foi alcançado bem mais tarde. Até então, era uma extensão do Campus de Guarapuava, sede da Reitoria.

As demais disciplinas profissionalizantes, incluindo algumas do básico, eram prelecionadas pelos “Os Três A”. Com a chegada de Takei Okoku e outros docentes, inicialmente contratados como Colaboradores e, pouco tempo depois, ingressos por concurso, as principais disciplinas até o terceiro ano do curso estavam garantidas. No andar da carruagem, outros concursos foram abertos e em pouco tempo, o time de docentes estava completo, em sua maioria, Engenheiros Florestais formados em diferentes partes do Brasil, todos com titulação ao nível de doutorado.

Inicialmente, Takei Okoku foi contratado como Colaborador. Seguindo a “estratégia” que “Os Três A” igualmente tiveram a que se submeter em suas chegadas, o novo docente foi convidado a assumir a preleção de nove disciplinas. Essa “estratégia” tinha sido desenvolvida para permitir que o docente acumulasse uma carga horária que lhe propiciava um salário razoável. Mister se faz frisar, que o docente colaborador ganha por hora lecionada.

Além das matérias de sua especialidade, Takei preparou e lecionou aulas de ampla diversidade, como Estatística, Informática, Ecologia e Fruticultura, entre outras. Aliás, por uma grande sorte, o ponto sorteado da prova escrita no concurso a que se submeteu no ano seguinte a sua chegada, foi justamente “Fruticultura”. Com a experiência adquirida em se preparar e lecionar a matéria, o concursante escreveu nada mais, nada menos, que nove folhas inteiras de papel almaço, ou seja, um total de 36 páginas, escritas à mão com letras pequenas. Foi uma verdadeira “prova de esforço físico de escrita”, usando na totalidade as quatro horas destinadas àquela prova.

O ingresso na carreira docente de Takei na UFPR foi pela disciplina de Dendrologia, já mencionada em outra crônica desta coletânea. Esta lhe acompanhou até a sua aposentadoria naquela universidade. Na Unicentro, foi também uma matéria que marcou sua carreira até a aposentadoria, 12 anos após o seu ingresso.

O doutorado de Takei foi na área de Ecofisiologia Vegetal, na Universidade de Hamburgo, Alemanha. Portanto, na Unicentro, foi a matéria que o manteve ocupado, tanto na graduação, como no mestrado e doutorado. É uma matéria que foi incorporada ao curso de florestas da UFPR, após o seu retorno da Alemanha, em 1976. Logo depois, os cursos de outros estados incorporaram em seus currículos, disciplinas que contemplam o olhar prático do conhecimento teórico propiciado pela Botânica, Fisiologia Vegetal e a Ecologia.

A matéria em pauta requer conhecimentos prévios de Morfologia e Fisiologia Vegetal, além de conteúdos de Química e Bioquímica. Esta base imprescindível para o entendimento da complexa relação entre a árvore e o seu ambiente, tornava a disciplina de Ecofisiologia Florestal pouco atraente para os alunos de Irati. Mas, sempre foi uma das obrigatórias do currículo. Para dificultar, a literatura especializada era, em sua maioria, em língua estrangeira. Mesmo em forma de apostilas, não era fácil encontrar material para consulta e estudo que fosse acessível.

A cada semestre, a disciplina foi deixando um contingente de alunos reprovados, sendo necessária a abertura de turmas adicionais, turma A, turma B e assim por diante. As salas destinadas as aulas não comportavam mais do que 30 alunos.

Foi numa dessas circunstâncias, com a retenção de alunos cada vez maior, que as provas da disciplina tiveram que ser aplicadas no Salão Nobre, no edifício principal do Campus.

Figura 5.1: Salão Nobre do prédio principal do Campus da Unicentro, Irati.
Foto: M.T. Inoue, 2001.

O salão, que os mais ousados denominavam de “Salão Pobre”, devido a um certo abandono, certamente por razões de orçamento, não era mesmo um local aconchegante. As poltronas eram antigas, construídas super reforçadas com madeira compensada, do tipo “Móveis Cimo”, sem estofamento, apenas com apoio de braço. Nelas, não se podia aguentar mais do que 30 minutos, após o que, o desconforto prenunciava um ritual de remexer o corpo de um lado para outro, contagiante e acompanhado por toda a plateia. Mais tarde, o teatro foi modestamente remodelado.

Era grande o suficiente para mais de duas centenas de pessoas, distribuídas em dois grupos de poltronas enfileiradas, com corredor livre entre eles e nas laterais. O teto era muito alto, talvez até demais para o tamanho do salão. Havia um palco elevado, com escadarias de acesso de ambos os lados, assim como entradas internas no palco, à direita e à esquerda, com espaço para coxia. A entrada ao teatro era pela lateral direita em direção ao palco. Entre a entrada e a última fila de poltronas havia um espaço vazio, de teto rebaixado, acima do qual ficava um aposento com largura ocupando todo o espaço e janelas que permitiam observar o teatro por inteiro. Certamente, tinha a finalidade de vigia ou observação, à guisa de camarote. Mas sempre esteve vazio, sem mobiliário algum.

O salão foi e continua sendo local para muitos eventos importantes até os dias atuais. O reconhecimento do curso aconteceu aqui. As primeiras outorgas à membros da ALACS – Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro-Sul do Paraná – também ocorreram aqui. Foi palco da criação da “Fundação Denise Stoklos”, com a presença da homenageada. A artista, via de regra, faz as estreias de suas peças na cidade de Irati, onde tem a sua origem e familiares. Neste palco, aconteceram algumas das estreias.

Vamos ao episódio da prova no salão, tema do capítulo.

Alguns dias antes da sabatina prevista, um dos alunos, não repetente, o Gervásio Silveira, oriundo da cidade de Castro, interior do Paraná, assediou o Prof. Takei para um pedido. Era um cara de pau, embora fosse um aluno com desempenho mediano.

– Ei Profe, acho que vou ter que fazer a prova em segunda chamada.

– E qual é o motivo? Alguém morreu?

– É que ontem, na “Quintaneja”, machuquei o punho, olha aqui.

“Quintaneja” é uma extensão ampliada em mais um dia da “Sextaneja”, denominação carinhosa para a noitada, que entre outras, era animada por música sertaneja e que acontecia e acontece nas noites de sexta-feira, comemorando, por antecipação, o final de semana. Alguns já começam a comemorar nas “Quartanejas”, “Terçanejas” e assim por atrás.

– Mas como foi machucar assim?

– Em meio as paqueras e bebidas, tive um bate-papo físico com um cara e acabei destroncando o punho direito e daí, que não estarei em forma para escrever na prova de segunda-feira.

– Pois é, a prova vai acontecer mesmo na “Segundaneja” e você vai ter que fazer, porque isso daí não justifica uma segunda chamada.

– Mas Profe, com essa mão… sou destro.

– Sinto muito, mas não há o que fazer. Espero que até segunda-feira a tua mão esteja em ordem.

– Não sei não, Profe. Não garanto.

Aquela prova foi mesmo realizada no dia previsto, no Salão Nobre, com a presença dos alunos de todas as turmas, A, B e C, da disciplina de Ecofisiologia Florestal. Com quase a metade do salão ocupado, o Prof. Takei começou a distribuir as provas e ficou aliviado em ver a presença do Gervásio, com a mão direita engessada até os dedos.

– Tá vendo, Profe, estou todo engessado, será que vou conseguir escrever?

– Fica frio. Senta aqui na frente para eu te ver trabalhando. A prova será de múltipla escolha e assim, você pode marcar a resposta com “x” e pode muito bem fazê-lo com a mão esquerda.

Embora os alunos fossem distribuídos em filas e poltronas alternadas, o campo de visão assim ampliado, dificultava uma vigia mais eficaz. Na verdade, o professor sempre exagera nesse ponto que, no final, passa sendo uma cena teatral, apenas para amedrontar os sabatinados. O Prof. Takei até exagerava em sua performance teatral, quando desconfiava de algum movimento suspeito na plateia. Olhando para a janela do balcão que fica acima, no fundo do salão e com o polegar levantado, gritava:

– Ei, Professor Marujo, tudo bem por aí, no balcão? Está conseguindo vigiar direitinho?

Era um expediente ridículo, mas certamente funcionava para aqueles mal intencionados.

Afinal, tudo ocorreu tranquilo com a sabatina.

Após a correção da prova, foi grande a satisfação para o Gervásio em ter conseguido um escore bastante elevado como resultado.

Para o Prof. Takei foi mais uma comprovação de como, uma boa orientação e incentivo, é capaz de fazer com que as pessoas ultrapassem o seu limite, independente de que tipo.

Sob o pé da castanheira

Os alunos estavam preparando-se para mais uma aula prática de campo da Disciplina de Dendrologia. Era um corre-corre para pegar ferramentas, prensas, jornal e outros materiais necessários à coleta de exemplares para futura confecção de exsicatas para o Herbário.

Dendrologia é a matéria que treina os alunos a identificar uma espécie florestal com base em caracteres macromorfológicos, como folhas (tipo, tamanho, forma, cheiro, entre outros), porte da árvore (altura, tipo de copa, tipo de tronco, entre outros) e a casca (tipo, cor, descamação, espessura até o lenho, cheiro interno, entre outros). Existem várias outras características visíveis ou detectáveis a olho nu, que no conjunto, permitem uma identificação rápida no campo. Esta técnica é utilizada pelos mateiros, pessoas treinadas para identificar árvores, que quase sempre acumulam também outras habilidades como coletar e preparar material botânico para herborização.

Na área do Campus havia alguns nichos com mata secundária e também pequenos trechos com árvores plantadas, estas em sua maioria, espécies exóticas, ou seja, aquelas que foram introduzidas na região.

Desta vez, a aula estava marcada para estudar as espécies que haviam sido plantadas na futura área destinada ao reflorestamento de pesquisa e aulas práticas. Eram exemplares já adultos, com abundante material fértil de flores e frutos para coleta dendrológica, plantados há vários anos, bem antes da área ser destinada à Universidade.

A subida para o local do estudo passava pela alameda de ciprestes centenários. São inúmeras as estórias envolvendo tais ciprestes. A alameda era formada por duas fileiras de Cupressus lusitanica, nome científico do cipreste ali plantado, que adornavam uma ladeira de quase 45 graus, separadas por uma rua carroçável sem pavimentação. As valetas de cada lado da rua, oriundas da erosão, eram de dimensões medianas, as quais, de tempos em tempos, tentava-se preencher com entulhos e pedras. Mas, naquela inclinação do terreno era impossível conter o efeito da chuva com tais técnicas simples e temporárias de controle da erosão.

Figura 6.1: Alameda de ciprestes do Campus Universitário de Irati.
Foto: M.T. Inoue, 2005.

Alguns alunos subiram pela rua de ciprestes, usufruindo de sua sombra para aplacar o sol ardente do verão. Outros, acompanharam a subida junto com o Prof. Takei, pela lateral direita da fila de árvores. Este caminho, mais macio e seguro, ficava a uns quatro metros acima do leito da rua. Ou seja, o assoreamento pela erosão já havia propiciado o rebaixamento do leito da rua a tal ponto. Sob tais circunstâncias, as raízes dos ciprestes estavam lateralmente todas expostas. O perigo de queda das árvores em direção à rua era iminente. A novela envolvendo estes ciprestes será assunto para um outro capítulo.

Vencida a subida de uns 300 metros ladeira acima e com a respiração ofegante, o cortejo finalmente atingiu o topo do morro. Logo no início do espigão estava plantada a fileira de castanheira portuguesa, aquela que produz a saborosa castanha que se cozinha na época natalina. Os japoneses designam  esta castanha como kuri. Estranho ou coincidência, o nome em língua tupi guarani do nosso conhecido pinhão da araucária é curi. Embora a grafia possa ser diferente, o que importa é o som do nome. Da mesma forma, o modo de preparo para degustar é o mesmo: cozinhar com bastante água.

Figura 6.2: Fileira de castanheiras no Campus da Unicentro, em Irati.
Foto: M.T. Inoue, 2003.

A castanheira, Castanea sativa, é uma espécie exótica introduzida com sucesso na região sul do Paraná, onde se adaptou climaticamente, produzindo boa safra de castanhas, anualmente. Não era o objeto previsto para a aula prática, mas como estavam na rota, o Prof. Takei aproveitou para uma rápida abordagem sobre as características dendrológicas da espécie.

            – Embora a castanheira não seja uma espécie usada para a produção de madeira, é encontrada muito comumente em nossa região. Daí, acho importante que vocês conheçam algumas características para a sua identificação imediata. Primeiramente, observar se existem frutos no chão, que são fáceis de identificar pelo seu formato de ouriço.

            – Ei Profe, mas se é um fruto comestível, provavelmente não é fácil encontrá-los no chão, comentou Pedrão, apelido do Pedro Simão, devido ao seu tamanho.

            – É mesmo Profe, acresceu Joaninha, a C.D.F. da classe. Existe outra maneira de saber se é a castanheira?

            – Na verdade, existem diversas outras características. Podemos observar o formato das flores, por exemplo. Ela produz flores compostas em forma de longos cachos, disse Takei.

            –  Mas, agora por exemplo, não tem flores, retrucou João Krokoski, o sempre mal humorado da turma.

            – Certo. Nem sempre é como a gente espera que seja. Mas, quando a floração está presente, sei que é possível identificar facilmente a castanheira por exalar forte odor semelhante ao de esperma, principalmente quando as inflorescências estão se abrindo, informou Takei.

            – Mas eu não sei como é o cheiro disso que o senhor disse, comentou inocentemente a Dorinha.

Esta garota, embora com idade suficiente para ser universitária, era um toquinho de gente, com uns 150 cm de altura e uns 40 quilos de peso. Daí, o seu apelido diminutivo. Como boa parte dos alunos, ela era oriunda do interior do Paraná, com certeza com pouca ou quase nenhuma experiência em outras coisas da vida que não os afazeres domésticos e o trabalho da roça. O seu espontâneo e infantil comentário incitou quase uma comoção entre os alunos e o próprio professor. Com certeza, os mais ousados gostariam de fazer, cada um, o seu comentário malicioso. Percebendo o iminente tumulto, Takei não se fez de rogado e logo acrescentou.

            – Sei que muitos gostariam de dirimir ao vivo e pessoalmente a dúvida da nossa querida Dorinha. Vamos resolver isso já. Vou pedir ao Zé Paquera que vá até aquele bosque e traga uma amostra para que a Dorinha conheça como é o cheiro de esperma.

O referido aluno ganhou o apelido por ser mulherengo demais. Não se sabe se ele seria mesmo um conquistador ou se seria apenas folclore. Em todo caso, de imediato assumiu a missão e se prontificou a executar a obra.

            – Pois não, Profe, deixa comigo que é pra já!

            – Leve a revistinha do Pedrão, para ser mais rápido, comandou Takei.

Dali a alguns minutos, lá veio de volta o Zé Paquera, meio pálido, mas com uma cara de satisfeito por ter cumprido com garbo o sacrifício. Trazia dentro de um saco plástico o papel higiênico que usara para a coleta do material “dendrológico”.

Tendo isso a parte, o restante da aula transcorreu em sua normalidade.

Embora sob circunstância um tanto quanto cômica e constrangedora, certamente aquela aula de Dendrologia marcou indelével e inequivocamente, a técnica mais eficaz para a identificação da castanheira.

A abdução de Walter Kuchilo

Dentre os inúmeros alunos que estudaram no Campus Universitário da Unicentro em Irati, um que marcou época, sem dúvida, foi o Walter Kuchilo. De características étnicas típicas da região, cabelos encaracolados, altura mediana, pele branca e voz com timbre forte, parece que vivia para marcar a sua passagem por este mundo. Nesse expediente, quase sempre perturbava tudo ao seu redor: colegas, professores, ambiente e até os animais. Parece que ele fazia coleção de pássaros. Imagino o que os pobres coitados não passavam.

Como aluno, não era brilhante, talvez dentro da média. Mas, a sua figura destemida o fazia se sobressair na comunidade universitária. Alunos que ficam na lembrança de todo docente são aqueles dos extremos da curva de Gauss, considerando o desempenho nas notas. São os alunos “cobras”, com performance excelente, comportamento geralmente normal ou exemplar e os “maus” alunos, aqueles com escores bem abaixo da média e geralmente repetentes. A história nos mostra que o sucesso profissional quase sempre nada tem a ver com a performance estudantil, que não retrata a inteligência nem a sabedoria, esta, interpretada por vezes como esperteza, no bom sentido.

Voltando ao nosso ator, não havia um dia sequer que ele não aparecesse com alguma coisa diferente, seja em seu modo de trajar, seu linguajar, suas implicâncias com alguém da comunidade. Ele havia concluído o ensino médio no Colégio Florestal de Irati, uma instituição estadual de renome nacional e internacional, devido a projetos de cooperação, principalmente com a Alemanha. Ali, o convívio interno e em período integral, eram ingredientes propícios a que pessoas com “espírito de porco” aproveitassem o espaço e o tempo para extravasar suas características. E o Walter havia trazido tal comportamento para o ambiente universitário.

Para se ter uma ideia da figura, em sua colação de grau, naquela atmosfera bem formal e com a presença de autoridades, pais e familiares de formandos e colegas, o nosso protagonista, adentra a cerimônia extraordinária do Conselho Universitário calçando ostentosamente um par de pantufas espalhafatosas! E recebe o diploma e grau de Engenheiro Florestal trajando beca, borla e pantufas!

Mas o fato que marcou a sua passagem pela universidade foi a sua abdução por alienígenas, ficando “fora do ar” por uma semana. Acho que era no inverno, pouco tempo antes das provas finais do primeiro semestre. Não tendo comparecido à universidade por dois dias seguidos, sua ausência não poderia deixar de ser notada. Estaria doente? Sofreu algum acidente? As especulações chegaram a aventar até a possibilidade de ter morrido. Mas, sem ninguém saber?

Especulações a parte, após uma semana, como um fantasma ou num passe de mágica, o Kuchilo apareceu, para a paz e a tranquilidade da nação unicentrense. A nova figura do nosso herói estava um pouco diferente, meio abobado e com o olhar fixado em alguma coisa inexistente, pensativo e um pouco encabulado. Até restabelecer devidamente os contatos levou alguns dias. Aos poucos, foi perdendo a inibição inicial, até que começou, aos poucos, revelar o que havia experimentado naquela semana de desaparecimento.

Segundo seus depoimentos, divididos em várias sessões de conversa com os colegas, o desaparecimento ocorreu durante um passeio noturno no Parque Aquático, local bem frequentado durante o dia, mas relativamente deserto a noite. Ele caminhava tranquilamente pelas trilhas ecológicas em meio a mata circundante do parque, quando avistou um festival de luzes que lhe chamou a atenção.

– Opa, será que estão festando em plena quinta-feira, perguntou-se.

Ao se aproximar das luzes, deparou com uma cena nunca antes vista, que, certamente, ficará para sempre na sua lembrança. Descreveu como sendo uma nave espacial em formato de esfera achatada, com tamanho aproximado de 20 metros de diâmetro, inúmeras janelinhas arredondadas que circundavam a nave, de cujo interior piscavam luzes coloridas, as quais o Kuchilo avistara há pouco. Diversas “pernas” que saiam do artefato até o chão o fixavam no lugar. Havia um silêncio quase mortal.  Estupefato, qual não foi a sua surpresa quando se abriu uma espécie de porta, de onde uma escada foi baixada lentamente. Seu espírito aventureiro impediu que gritasse ou fugisse do local. De repente, vindo da porta da nave, uma voz agradável, mas retumbante, dizia num português nítido:

– Saudações ó Grande Kuchilo!

– Nós o saudamos em nome do nosso Imperador Antures, do planeta U345.

– Viemos para conhecer os terráqueos e você foi escolhido como amostra representativa dos seres inteligentes deste planeta. Entre na espaçonave para nos conhecermos melhor.

Nosso herói não se fez de rogado, pois sempre fora adepto de novas experiências e aquela, certamente, seria a oportunidade única para fazer contato com seres extra terrestres.

O relato de Kuchilo resume-se nisso. Argumenta que recebeu instruções bem severas para não divulgar a estada de uma semana em espaço exterior. Até hoje não se sabe o que aconteceu, na realidade. Em todo caso, ficou evidente alguma mudança em seu comportamento e visão de mundo.

Atualmente, o Walter Kuchilo é um profissional bem sucedido da área de Colheita Florestal.

UNICENTRO: Porque sempre há dias para não se esquecer

Para aqueles que prestam um concurso público, há um dia muito especial: o da assinatura da posse. Dia festivo, no qual familiares e amigos se irmanam para a celebração de uma nova vida, um novo porvir. Geralmente tal evento ocorre na UNICENTRO/I (Universidade Estadual do Centro-Oeste/Campus de Irati), no prédio principal, num espaço que fica no primeiro andar e se chama Miniauditório.

Figura 8.1: Vista geral do interior do Miniauditório da Unicentro/Irati.
Foto: E.S. Silva, 2020.

Era novembro e o calor desde cedo lançava bafejos de fogo pelo dia que prometia ser recheado de alegrias. O miniauditório, como era de se esperar, naquele dia de posse estava lotado dos futuros funcionários públicos e seus apaniguados. O espaço lindamente decorado abria suas infinitas janelas para as infinitas copas de muitas araucárias que lá fora não se preocupavam com nada. Elas queriam apenas existir. E em um clima pleno de futuros, vários discursos foram proferidos, mas, um, em especial, me chamou atenção. Era a fala de uma professora já veterana na casa, que agora daria as boas-vindas aos novatos, e entre estes estava sua irmã. O sobrenome da professora era Malinoski. Ela disse ser filha de agricultores e que desde cedo ouvia de seus pais uma frase que, de certo modo, eu também ouvira muito em meu seio familiar: “estudem, meus filhos. O estudo é o maior bem que uma pessoa pode ter.” Como não concordar com tal frase?

Figura 8.2: Vista para o jardim do prédio principal, da janela do miniauditório.
Foto: E.S. Silva, 2020.

Embalado pela sentença posta pela família Malinoski, meus pensamentos me levaram para minha linda cidade no sertão da Bahia, e de lá veio o cheiro de letras do abecê e de minha primeira professora, Teresa Ferreira Passos. Sentia a mão dela naquele momento me passando o bastão, afinal, a partir dali eu ensinaria futuros professores a levar aos alunos aquilo que me encantava, a paixão pelos livros e pela literatura.

Eis que terminada a cerimônia, fui convidado pela professora Ruth Mara Buffa, que, naquela época, comandava o departamento do qual eu passaria a fazer parte, para conhecer o prédio onde ficava o Departamento de Letras, o famoso DELET. Do prédio principal dirigimo-nos ao Bloco F e de repente meus sentidos bailaram, posto que uma brisa suave com cheiro de flor de laranjeira tomava conta do espaço e se casava com o tempo abrasador. Enfrentamos uma ladeira e arfando, só via tempo para agradecer. Agradecer à vida, aos mestres e, sobretudo, à nova vida que eu teria em Irati, cidade tão abençoada pelas presenças de tão ilustres filhos, dentre eles, o grande poeta Foed Castro Chamma,  que, ao desmembrar o nome da cidade em IR A TI a uniu e a ungiu poeticamente para todo o sempre:

Ir a ti

colher as iras

crespas do ar

os verdes cachos

eriçados

de espinho,

despir do solo

o resto de uvas

que espremi no frio (…)

Figura 8.3: Ladeira de acesso aos Blocos Setoriais.
Foto: E.S. Silva, 2020.

A ladeira se acentua e recebo notícias de que é hora de virar à esquerda, e, tal qual um mar que é formado por rios, adentramos uma nesga de passagem, chegamos a um banco, espécie de rede de balanço para os cansados; e todo um mundo de repente se abre num imenso corredor. De um lado, para a sala dos professores; de outro, para o infinito.

Figura 8.4: Prédio do DELET, com o banco de descanso na entrada.
Foto: E.S. Silva, 2020.

Ainda não pronto para caminhos abstratos e atônito, emocionado e guiado pelas mãos certeiras da professora Ruth, optei, enquanto me preparo para a surpresa dos mistérios, por aquele regato que me leva desde 2011 ao templo sagrado de uma casa de ensino e sempre quando estou nesse templo me lembro de que sempre há dias para não se esquecer.

Em 9 de agosto de 2020
Tempos de pandemia

A Santa da Pedra que Ri

A cidade de Paris tem a Torre Eiffel como ícone mais conhecido para identificá-la, assim como a própria França. A Estátua da Liberdade, presente da França aos Estados Unidos e inaugurada em 1886, representa o país e é o ícone mais difundido da cidade de Nova York. De forma idêntica, o Cristo Redentor erigido no Morro do Corcovado na cidade do Rio de Janeiro, inaugurado em 1931, é o símbolo de representa a cidade e o Brasil. E assim por diante, cada cidade e seu país orgulha-se de ter um símbolo, geralmente uma estátua ou monumento, que serve para os identificar facilmente.

A nossa cidade em foco também não poderia ficar de lado. Estando a cidade de Irati localizada numa região com forte influência polonesa e ucraniana e, portanto, povoada por imigrantes e descendentes dessas etnias, o ingrediente religioso manifesta-se em inúmeros monumentos, edificações, eventos etc.

A cidade foi instalada numa região onde a topografia é bastante acidentada, cercada por morros e colinas, adentrando a Serra Geral do segundo planalto, conhecido como Planalto de Ponta Grossa ou Planalto dos Campos Gerais. A característica da paisagem deste bioma é predominada pela estepe, com diferentes gramíneas que dão o amarelado típico. Em meio a estepe, aparece de vez em quando, um aglomerado de vegetação arbórea conhecido como capão. O termo origina-se do tupi-guarani ca-a (mato) + pu-an (redondo).

Os capões têm tamanho limitado e formato arredondado, onde predomina o pinheiro (Araucaria angustifolia), árvore símbolo do estado do Paraná, representado em seu brasão, ao lado de outro vegetal, a erva-mate (Ilex paraguariensis). Existem duas teorias sobre a origem dos capões. A primeira, diz que eles se iniciaram pelo centro e foram expandindo-se continuamente até formar os atuais formatos. A outra opinião fala o contrário, ou seja, que os capões já existiam como formação vegetal de ampla extensão e que a estepe foi adentrando a floresta pelos limites externos e continuamente tomando conta em direção ao seu interior, dando-lhe o atual formato. Como não existem fotografias aéreas mais antigas que mostrem a evolução dos capões, então ficam válidas as duas ideias do seu surgimento. 

Figura 9.1: Paisagem dos Campos Gerais com os capões, na região de São Luiz do Purunã.
Ilustração: M.T. Inoue, 2020.

Foi numa das colinas que circundam a cidade, o Morro da Pedra que Ri, que foi edificado um monumento em homenagem à Nossa Senhora das Graças. Do texto e imagem de Ana Paula Schreider publicado em 23/11/2015 (hojecentrosul/?id=350) do Jornal “Hoje Centro-Sul”, seguem algumas informações a respeito deste monumento. Trata-se de uma estátua em reverência à Santa mencionada, inaugurada no dia 16/12/1957, por ocasião dos 50 anos da cidade. A imagem tem 22 metros de altura e é considerada a maior do mundo. Seus braços estão abaixados, com as palmas abertas, como se estivesse abençoando a cidade.

Figura 9.2: Estátua de N.S. das Graças, em Irati.
Foto: Ana Paula Schreider, 2015

Muitos milagres têm sido atribuídos à Santa e pretende-se tornar o local um Santuário católico.

Por outro lado, muitas outras estórias e lendas em torno da imagem tem sido igualmente criadas e transmitidas, por falas, causos e escritos. Uma dessas folclóricas fofocas, é que a posição das mãos da imagem quer significar uma expressão emanada da santa, a cada nascimento de bebê que ocorre na cidade.

– Mais um polaco!

Nesse intuito, não aconteceu nada com a chegada do primeiro e do segundo dos “Três Mosquiteiros” à Irati. Mas, quando o terceiro Mosquiteiro adentrou a cidade, dizem as más-línguas, que a Santa teria expressado:

– Mais um aposentado!

Daí que, ao chegar o quarto Mosquiteiro, a imagem teria sacudido os braços em desespero:

– Mais um aposentado! Assim, não há santo que aguente! E ainda mais, um nipônico! Parece que querem internacionalizar a minha abençoada cidade?! E ainda, irão referir-se a mim como “N.S. das Gurassas”! (pronúncia ajaponesada de Graças)

Estórias e fofocas a parte, a imagem da Santa, sem dúvida, é um ícone de Irati e certamente o símbolo que identifica facilmente a cidade.

Existem outros monumentos, ainda no nicho religioso, a Igreja de Uma Torre, a Igreja de Duas Torres, entre outros.

Unicentro: Porque chegar ao SEHLA era entrar em estado de júbilo

Na linda cidade de Irati há um espaço que merece destaque: a Universidade Estadual do Centro-Oeste, ou UNICENTRO. O tempo que se leva da cidade até a Universidade deve girar em torno de 20 minutos de transporte, e a pé, em torno de 45 minutos. O primeiro impacto para quem chega à Universidade é o encantamento com o prédio principal; mas quando nos tornamos íntimos daquele espaço do saber, descobrimos outros espaços, e nos deparamos com mais encantamentos, desde que se superem as ladeiras. E é na metade de uma delas, exatamente quando o pulmão se enche de ar e o coração se queda nos tempos dos eternos, que visualizamos, à esquerda, o bloco das Letras, e, um pouco mais à frente, o SEHLA, que depois ficamos sabendo o que a sigla pomposa significa: Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes.

Figura 10.1: Acesso aos Blocos dos Setores e Departamentos. O prédio a esquerda é o descrito no texto.
Foto: Edson Santos Silva, reeditado por M.T. Inoue, 2020.

E é nesse espaço que estão os três mais lindos cursos de toda a Universidade: Letras, Pedagogia e História. O SEHLA teve como diretoras Maria Rita Kaminski Ledesma e Regina Chicoski, e depois Regina Chicoski e Cibele Krause Lemke. Para além das tarefas burocráticas, aquele espaço tinha cheiro de doce e de afabilidade. As falas ali pareciam ser sussurradas, tão suave era o grau de generosidade daquelas pessoas, que sabiam respeitar as relações humanas e tinham a real certeza do poder do diálogo. Foi lá que desde cedo descobri, intuitivamente, que Amizade dada é Amor. Ali muitos aprenderam a conhecer de forma profunda nossa tão amada Universidade. É fato que temos de conhecer e seguir muitos regulamentos, mas Regina e Cibele sempre nos ensinaram que por detrás deles há pessoas que devem ser vistas sempre com generosidade, amor e afeto. Ensinaram que é possível encontrar epifanias, e eu preciso das epifanias!

Tive a feliz experiência de conviver com as meninas do SEHLA, era assim que elas carinhosamente eram chamadas, quando fui chefe de departamento. Muitas tardes, a vice-chefe, Cristiane Malinoski Pianaro Angelo, e eu íamos com um mar de processos e memorandos pedir ajuda às nossas diretoras. Quantas vezes também chegávamos lá com grandes questões que julgávamos impossíveis de resolver com presteza. E lá chegando sempre tivemos a mesma recepção, regada com cafés, largos sorrisos e, de repente, a papelada se evolava e éramos tomados por uma leveza tão suave, afável e amigável. É preciso dizer que ainda havia o Alexandre, meu Deus, que pessoa! Que funcionário! É a esse trio (Regina – Cibele – Alexandre) que quero eternizar aquele passado.

É preciso escrever, é preciso registrar, já dizia o professor José Maria Orreda. Temos de colocar em palavras perfumadas os sentimentos raros, que fazem com que as aproximações aconteçam e algumas delas perdurem para todo o sempre. Sabemos que ser professor no Brasil passou a ser uma luta diária, seja porque não nos valorizam, seja porque as Humanas estão em situação muito delicada; o que era a glória no passado tornou-se quase que um pesadelo no presente.

Estamos em agosto de 2020, em plena pandemia, e uma peste maior do que ela reina na capital da esperança. A situação do magistério se explica por uma simples pergunta: quem quer ser professor hoje? Mas resta, para minha enorme alegria, a forte presença daqueles que nasceram talhados para o magistério, e que fazem das dificuldades da profissão um impulso para a criação de dias melhores. De fato, os que creem na profissão acabam se juntando e formando uma confraria. Tudo é possível na confraria, menos as lamúrias vazias. Não há dúvidas de que o SEHLA, no período da Regina e da Cibele, foi o maior e mais caloroso espaço de confraria que a Unicentro já teve.

No momento em que escrevo esta crônica, já não sou mais chefe de Departamento e as meninas não são mais diretoras do Setor. Pudera, a vida nos empurra sempre, que bom, para novos desafios e novas empreitadas, mas deixa de cada experiência certezas e, com as meninas do SEHLA, levarei comigo ao menos três dessas certezas: a primeira, que é possível ser competente com humildade; a segunda, que é possível conciliar regulamento e respeito ao outro e, por fim, que a maior e melhor joia que temos é  dialogar, que hoje é um dom, objeto de luxo. E dessas certezas brotou um tesouro muito raro: nutro pelas meninas do Setor um amor sem neblina, sem a morte de Dido, sem a fúria do Adamastor e sem o assassinato de Inês de Castro. E se tiver uma palavra para eu dizer a elas em forma de canção, seria aquela que neste momento de memória brota do meu coração: a palavra GRATIDÃO.

agosto pandêmico
2020

O corte das pereiras

Uma das características positivas de se ter um Campus Universitário numa área rural é a possibilidade de as aulas práticas serem realizadas no próprio terreno, economizando saídas dispendiosas para locais mais distantes, muito embora o antigo seminário se localizasse dentro do perímetro urbano de Irati. Claro que tal expediente nunca dispensou as visitas às empresas e instituições, quando o assunto não podia ser coberto localmente. O Campus de Guarapuava dispunha de ônibus, mas cobrava dos usuários para o seu uso.  Devido a isso, era mais eficiente que tais visitas fossem realizadas alugando-se um veículo no comércio local, já que o custo teria que ser coberto pelos alunos e professores. No caso das aulas da pós-graduação, eram usados o carro do professor e de algum aluno que dispunha de veículo, pois o número daqueles estudantes era menor.

Em textos anteriores, foram descritas as áreas do Campus que eram utilizadas para as práticas do curso de Engenharia Florestal. Uma área bem próxima das edificações, quase como que um quintal dos prédios, era um dos vários pomares distribuídos em diversos pontos do terreno. Fora outrora um pomar de pereiras, do qual ainda persistiam meia dúzia de árvores raquíticas, em idade avançada, improdutivas, com aspecto daquelas que aparecem em filmes de horror.

Naquelas árvores, enquanto não se tinha árvores florestais em tamanho adequado, o Prof. Takei costumava realizar as práticas de desrama, também conhecida como poda florestal. É a retirada dos galhos mais baixos de árvores, permitindo o acesso e diminuindo o risco de incêndio em plantações florestais. Não se trata de um simples corte de galhos. Existem técnicas para garantir que os galhos não se quebrem, descascando a árvore. O resultado é um corte limpo e bem rente ao tronco (denominado fuste, entre os florestais).

Figura 11.1: Desrama de galhos grossos em Pinus sp., efetuado em quatro etapas. O primeiro corte é praticado na parte inferior do ramo. O segundo, na parte superior, um pouco adiante do local do primeiro. Com o peso, o ramo cai por si só. O terceiro corte é realizado um pouco além da inserção do ramo no fuste. O acabamento é feito por um quarto corte, efetuado o mais rente possível ao fuste.
Foto: M.T. Inoue, 2002.

Com o tempo, as árvores da área de reflorestamento do Campus apresentavam-se em tamanho e condições de receberem os tratamentos silviculturais, dentre os quais, a desrama. Assim, as pereiras do pomar tornaram-se ainda mais obsoletas e desnecessárias, pois já há muito tinham deixado de produzir frutas.

O crescimento e expansão da universidade estava em plena ascensão, com inúmeras edificações sendo realizadas e assim, o plano diretor do Campus teve que ser igualmente atualizado e pensado em curto prazo. Dentre os projetos de expansão, previa-se a instalação de um arboreto próximo dos prédios, justamente na área em que existiam as pereiras. Como em qualquer lugar, havia pessoas, dentre as quais, docentes, que tinham adotado a postura inflexível de proteção ao meio ambiente. Assim, o intuito da erradicação das pereiras provocou verdadeira comoção na atmosfera unicentrense. As frentes “pró-pereiras” foram de imediato mobilizadas, de prontidão evitar para qualquer evidência de derrubada daquelas árvores “que eram patrimônio do Campus”.

Entre reuniões e discussões a respeito, alguém aventou a possibilidade daquelas árvores estarem doentes, contaminadas por nematoides.  Somente a pronúncia deste termo desencadeou um temor fundamental, pois sua presença pode inutilizar o uso do solo contaminado, colocando em risco outras áreas contíguas. Para o seu completo controle é necessário erradicar toda a vegetação existente e atear fogo depois que os restos vegetais estiverem secos.

Ato contínuo, solicitou-se um laudo técnico por profissional habilitado. Numa cidade pequena como Irati, felizmente a facilidade dos contatos desencadeia ações rápidas e eficientes. Um Engenheiro Agrônomo, conhecido de alguém da universidade e técnico ativo da Emater, órgão estadual responsável pela assistência técnica e extensão rural, com sedes em todo o Estado, prontificou-se a realizar uma avaliação, graciosamente. O laudo expedido confirmou a suspeita de contaminação. Foi um alívio para todos.

E assim, a pereiras foram derrubadas e seus restos, juntamente com a vegetação existente, formou pouco tempo depois, a base combustível para o fogo controlado.

Sebo Centenário - Oásis literário de Irati

Há no universo dores intensas que só a arte sabe mitigar. Quem ama arte tem uma maneira de olhar para si e para o mundo que é sempre de encantamentos. O sorriso, o caminhar, o falar, o sentar revelam sempre a pessoa que se encanta pela palavra exata e pelo lume da poesia. O ato de ir a uma livraria ou biblioteca ou sebo ou alfarrábios se assemelha muito ao ato de ir ao teatro, ao cinema que amamos, àquele restaurante que sempre voltamos quando algo muito especial nos acontece. Sempre vamos de alma perfumada, pois, intuitivamente, sabemos que voltaremos desses espaços sagrados renovados e de alma lavada, como dizem. Trazemos também desses espaços em que a arte reina soberana, marcas de pessoas que por vezes se tornam indeléveis.

Há na linda cidade de Irati um desses espaços, o Sebo Centenário. Sua localização se dá num espaço muito conhecido na cidade: o Centro Cultural Clube do Comércio, que fora em seus tempos de glória reduto de uma sociedade pujante, festiva e rica. Seus espaços dão prova de noites de galas e pela suntuosidade carcomida pelo tempo ainda se reverberam bailes temáticos de quinze anos, de formatura, de casamento. Além do famoso Sebo, o espaço ainda alberga três pilares culturais da cidade: a sede da Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro-Sul do Paraná, a ALACS; a Associação Denise Stoklos e o Cineclube Denise Stoklos. Se espaços que albergam chamas de culturas são lugares especiais, o que esperar das pessoas que vivem, zelam por tais espaços?

Figura 12.1: Prédio do Centro Cultural Clube do Comércio de Irati. Em destaque, a Livraria e Sebo Centenário.
Foto: Google Maps, acesso em 16/10/2020.

Figura 12.2: Última cerimônia presencial de posse de novos membros da ALACS, dentre os quais, o Professor Edson Santos Silva, quarto a contar da esquerda na segunda fileira, ao lado da Professora Luiza Nelma Fillus, figura central desta crônica.
Foto: ALACS, 2018.

À frente do Sebo Centenário temos a portentosa Luiza Nelma Fillus, ícone da cultura na cidade e por muitos chamada de Dama da Cultura de Irati. Como definir essa mulher que nasceu talhada, tal mármore de Carrara, para as Letras e as Artes? Amiga de José Maria Orreda, Foed Castro Chamma, Olga Zeni, Gaspar Valenga e Denise Stoklos, para citar apenas algumas pessoas ilustres do campo da arte da cidade de Irati. Foi figura de proa na criação da UNICENTRO, tendo ocupado, na instituição, cargos importantes. Embalados pela força de seus olhos azuis, vimos nascer a Fundação Denise Stoklos, a Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro-Sul do Paraná e ainda figura importante na criação do Cineclube Denise Stoklos. Onde tem cultura, tem Luiza, e sua força a todos contagia; basta lembrar do celeiro de trovadores que ela criou na cidade. Uma coisa é fato: nada acontece na parte cultural sem que a musa inspiradora de poetas e sonhadores esteja envolvida. Espécie de pitonisa, uma das preocupações da nossa Dama da Cultura é a formação de leitores e, por conta disso, o Sebo Centenário recebe como ninguém o público infanto-juvenil, seja fazendo preços módicos na venda dos livros, seja fazendo doação a escolas locais. Luiza ainda patrocina eventos culturais com doação em dinheiro e, sobretudo, livros.

Eventos como Sábados Literários, Varal de Poesia Cristina Mosele , Bloomsday contam com generosas ofertas daquela que dedicou toda sua vida às artes. Amante dos festivais de teatro do país e de modo especial o de Curitiba, além de não perder nenhum espetáculo, ainda convida e congrega pessoas em tais eventos,  nos quais muitas vezes paga do ingresso ao jantar. E quando há estreias de sua amiga de infância, Denise Stoklos? Seja onde for, lá estará Luiza, na primeira fileira, e ao final do espetáculo faz questão de abraçar a conterrânea. Tem mais uma característica dessa mulher das artes. Ela adora tietar os artistas! Quem tem o privilégio de conviver com a Dama da Cultura tem o deleite de estar com uma pessoa de um humor absolutamente cativante e as risadas rolam solto.

Leveza, luminosidade, ternura, grandeza são alguns dos poucos elogios a essa mulher que tem o dom de fazer com que todos que dela se aproximam passem a ver com outros olhos a importância da arte. De fato, Luiza representa aquele toque suave de um livro quando ele está em nossas mãos, o som báquico que ao abrir um vinho se reverbera numa casa e evola para o mundo, o inefável que reside nas misturas de cores do ocaso e a certeza firme de dias melhores quando sem pejo e sem medo nos deixamos levar pela força da arte e das grandes amizades! Vida longa à pitonisa das artes da cidade de Irati.

O sukiyaki na Piriquita

Embora gratificante no psicológico, a atividade como docente no Brasil, em todos os níveis, é estigmatizada pela remuneração que não condiz com a sua importância social e econômica, e, na maioria dos casos, nem recebe o devido respeito e consideração pelos pagantes: governo e cidadãos.

Mas, felizmente existem aspectos do labor e momentos que amenizam e, talvez seja este o principal motivo de ainda existir pessoas que se dedicam à esta atividade. Teoricamente, o professor tem mais do que um mês de férias. Pode programar viagens e outras atividades do seu agrado, no período que lhe convém, pois existe a possibilidade de recuperação das aulas. Estar acompanhado e dialogar na mesma linguagem dos jovens, é o melhor remédio para se manter igualmente sempre jovem. E com eles, ter a oportunidade de aprender com eles, não possível em outra atividade profissional.

Talvez, a reminiscência de fatos ocorridos durante as lides docentes que carimbaram de forma marcante momentos pitorescos, emocionantes, cômicos, frustrantes, humilhantes, etc., forme o calabouço que mitiga verdades menos interessantes.

Hoje será narrado o inédito e hilariante encontro com sukiyaki realizado na Pensão da Dona Piriquita. O referido prato é o mais conhecido da culinária japonesa, rivalizando-se com a iguaria de peixe cru conhecido como sashimi. O sukiyaki tem sido referenciado em prosa, filme, canção, entre outras publicações. Mundialmente difundida pela gravação pioneira de Kyu Sakamoto , a música Ue o muite arukou , também conhecida como Sukiyaki, contém uma mensagem profunda de alento para os momentos baixos do estado de espírito. No Brasil, foi gravada pelo grupo da época da “Jovem Guarda”, o Trio Esperança, que popularizou a canção no país.  Clique para ver e ouvir a música no original em japonês e em português. Foi rodado um filme em 1962, tendo Sukiyaki como trilha sonora.

Trata-se de uma refeição, geralmente familiar e íntima, para colocar a conversa em dia enquanto se come, e que é elaborada em ocasiões, não no dia a dia. Claro, que pode ser encontrada sendo servida em restaurantes, para degustação individual ou em grupos comemorativos, como em casamentos, aniversários, formatura, etc.

O termo tem algumas origens. Surgido na Era Meiji, por volta de 1868, a parte suki é o nome dado a pá ou arado do agricultor, sobre a qual a iguaria era preparada em seu primórdio, enquanto que yaki significa grelhado, frito, cozido. Outra origem do nome, advém de sukimi, nome dado a carne fatiada.

O autor usa sempre a própria interpretação do termo, referindo-se ao significado de gostar (do verbo suki) e yaki, de cozido, guisado. Assim, a escolha dos ingredientes e os temperos fica ao gosto do preparador ou cozinheiro. Portanto, não existe uma receita fixa para fazer o sukiyaki. Cada um pode preparar de acordo ao seu gosto.

Era uma noite fria de inverno, convidativa para uma refeição quente como o sukiyaki. As panelas elétricas próprias para o preparo foram trazidas de Curitiba, da mesma forma que os ingredientes. Dentre estes estavam: filet mignon em fatias pequenas e finas, kamaboku (preparado sem-sólido de peixes brancos moídos, engrossados em farinha e gelatina e cozidos em vapor e consumidos crus ou cozidos, em fatias finas), chikuwa (preparado mais temperado de kamaboku, porém, é obtido por sucessivas camadas defumadas ao longo de um palito, formando um tolete perfurado), tofu (um tipo de queijo preparado com soja), shitake (cogumelo japonês, que pode ser fresco ou desidratado – a pronúncia correta é shiitake), macarrão soba (produzido com trigo sarraceno, portanto, dando-lhe uma coloração mais escura do que os tradicionais brancos udon e somen) e, claro, arroz tipo japonês, que pode ainda ser melhorado com a adição de 1/3 a 1/2 de porção de mochigome (arroz japonês arredondado, se sozinho, usado para a confecção dos famosos mochis). Dentre os vegetais, destaque-se a cebola cortada em meia-lua, acelga, brócolis, broto de feijão mungo (moyashi), broto de bambu (takenoko). Os temperos são o molho de soja (shoyu), o saquê de culinária (mirin), raspas de gengibre, açúcar, manteiga e ovos, estes usados batidos na tigela de consumo por aqueles que suportam consumi-lo cru, com o fito de arrefecer a porção do sukiyaki no momento da degustação.

O preparo segue um ritual de acordo com os ingredientes: primeiramente, refoga-se a carne na manteiga, adicionam-se na sequência os vegetais mais consistentes, os produtos de peixe e soja, sempre regando com os líquidos de tempero. O macarrão deve ser sido cozido previamente e só adicionado no final do preparo do prato, pois vai absorver o líquido, deixando tudo muito seco. Deve ser observada a hora certa para a sua inclusão de forma a não secar o sukiyaki.

À guisa de fondue, o sukiyaki é preparado à mesa, com os comensais assistindo a arte do cozinheiro no seu preparo. A degustação é feita imediatamente, cada um pegando um pouco daquilo que gosta. Come-se junto com o arroz, picles e outras misturas que se dispuser como o tamagoyaki (espécie de omelete) e o missoshiru (caldo suave a base de uma pasta de soja salgada).

A ocasião era especial na Piriquita. Houve participação de todos os moradores, entre alunos e professores, assim como alguns familiares da Dona Leoni. À exceção do professor Marujo e de sua esposa Nikita e do professor Takei e esposa Mimi, para os demais participantes era algo inédito e assim, a expectativa era muito grande.

Entre as conversas e fofocas interessantes, o sukiyaki começou a ser preparado em duas panelas, uma da Nikita e outra do Takei, cada um preparando o guisado nos respectivos equipamentos. Como o prato é degustado conforme vai sendo preparado, são necessárias panelas em quantidade apropriada para servir a todos, sem interrupção.

Figura 13.1: Momentos do sukiyaki, onde está a Dona Leoni, a Mimi e duas alunas da pensão.
Foto: M.T. Inoue, inverno de 2001, pouco antes do 11 de Setembro.

Figura 13.2: Momentos do sukiyaki, com a presença dos docentes Nadja, Abílio Desesperanti, Alfonso Figueiroa e esposa Cleusa. Ao fundo, de avental, a Nikita Marujo. (é possível identificar as duas panelas, azul e vermelha, sobre a mesa)
Foto: M.T. Inoue, 2001, pouco tempo antes do ataque ao World Trade Center.

Parece que foi no auge da comilança.  O aroma daquela comida gostosa foi misturado ao cheiro típico de borracha queimada. De repente, a cozinha foi tomada por uma nuvem de fumaça misturada ao vapor do sukiyaki. Entre gritos de surpresa e apreensão, o primeiro pensamento foi que havia ocorrido um curto circuito na casa.

A potência exigida pelas duas panelas elétricas em uso simultâneo sobrecarregou a tomada de força, o que provocou, inicialmente, o forte cheiro de borracha queimada. Pouco tempo depois, a panela do Takei se desligou e foi constatado que isto ocorreu devido a queima do cabo entre a tomada e a panela.

Ato contínuo, um corre-corre para dissipar a fumaceira da casa e se preparar para o prosseguimento da degustação, agora mais pausadamente, com base numa panela apenas. Foi bastante providencial a disposição inicial de dois equipamentos.

Daí pra frente, o encontro continuou sem trauma, com todos alegres e batendo papo enquanto degustavam o delicioso e memorável sukiyaki na Pensão da Dona Piriquita.

O cemitério das camisinhas

O Campus da UNICENTRO em Irati localiza-se no bairro denominado Riozinho, no Município de Irati. A área total abrange aproximadamente 735.000 m², dos quais, aprox. 65.800 m² (9%) formam a área construída, estacionamentos e áreas úteis. As vias de acesso não tomam muito espaço. Então, cerca de 80% ainda são áreas naturais, pomares e reflorestamento de produção e pesquisa. Muitas das aulas práticas dos cursos de Engenharia Florestal (graduação, mestrado e doutorado) são realizadas nessas áreas.

A área reflorestada resultou de um projeto de fomento florestal em parceria com a empresa Masisa, que envolveu um total de 10 pequenos proprietários da região, incluindo a UNICENTRO. Neste projeto, o proprietário recebia no âmbito de sua propriedade, uma área preparada, limpa, com mudas plantadas e cuidados iniciais do reflorestamento, assim como a assistência técnica fornecida pelo Departamento de Engenharia Florestal.

No caso do Campus, a área destinada foi na porção localizada ao sul do terreno, na parte mais elevada. Originalmente, fora uma área agricultável, porém abandonada por vários anos, em que havia apenas vegetação de estepe.

Figura 14.1: O professor Marujo inspecionando a futura área do reflorestamento.
Foto: M.T. Inoue, 2001.

Durante os trabalhos de limpeza do terreno, chegou-se no limite meridional do Campus, onde havia uma pequena área já anteriormente reflorestada com Pinus, próxima a uma entrada secundária ao terreno, atualmente desativada. Foi por esta entrada que os equipamentos mais pesados como caminhões e tratores com arado e grade puderam adentrar para o preparo do terreno ao plantio das mudas do projeto de fomento.

Com a movimentação naquele espaço, qual não foi a surpresa em constatar a existência do que, mais tarde, ficou conhecido como “cemitério das camisinhas”. Na verdade, não foi tão surpreendente assim, mesmo porque, numa área remota e erma como aquela, seria “normal” que houvesse visitantes, noturnos ou mesmo diurnos, para atos ilícitos e prazerosos.

A imaginação pode ajudar a identificar a origem de tais visitantes. Seriam moradores da redondeza? Ou iratienses urbanos que procuravam um ambiente natural e ecológico mais excitante para dar vazão aos seus desejos mais íntimos? Poder-se-ia pensar até em membros da comunidade universitária, entre docentes, funcionários e alunos.

Figura 14.2: Antiga entrada secundária ao Campus. Ao fundo, a rodovia BR 153, conhecida como Transbrasiliana ou Belém-Brasília, a quinta maior do país, com mais de 3,5 mil quilômetros. À esquerda, área plantada com Pinus, onde se localiza(va?) o Cemitério das Camisinhas.
Foto: M.T. Inoue, 2003.

Figura 14.3: O Cemitério das Camisinhas, sob árvores de Pinus. Nem tudo que está  visível são camisinhas.
Foto: M.T. Inoue, 2003.

Figura 14.4: O Campus de Irati, com a localização dos edifícios, área reflorestada e o Cemitério das Camisinhas. Pode-se ver também a Pensão da Dona Piriquita.
Imagem: Google Maps, 2020.

O local em foco, hoje talvez em desuso, teria sido ponto de referência sui generis para os amantes afoitos e aventureiros. Além de propiciar um ambiente natural, com ar puro, longe de eventuais olhares furtivos e denunciadores, era um verdadeiro “motel” gratuito, com um leito enorme e macio formado pela deposição de acículas (folhas) do pinus.