Dos 70 para os 80

Esta quinzena foi especial para mim. 
Completei os meus 80 anos bem vividos.

Tinha algumas ideias para descrever esta passagem. 
No entanto, resolvi pedir ajuda à tecnologia e apresento o texto para marcar este evento único em minha vida.

Compartilho com os meus queridos leitores.

Saindo da casa dos 70 e entrando na casa dos 80

Recebi uma comunicação oficial.

Não veio pelo correio, não chegou por WhatsApp e muito menos por e-mail.

Veio diretamente do calendário.

A mensagem era curta:

“Prezado senhor, informamos que seu período de permanência na casa dos 70 está chegando ao fim. Favor providenciar sua mudança para a casa dos 80.”

Tentei recorrer.

Argumentei que estava muito bem instalado, que nunca atrasei o condomínio e que poderia perfeitamente continuar mais uns dez anos por ali.

Não adiantou.

O síndico, um sujeito chamado Tempo, é inflexível.

— Regulamento é regulamento.

Perguntei:

— E se eu não quiser mudar?

Ele respondeu:

— O senhor muda do mesmo jeito.

Achei autoritário.

A verdade é que a casa dos 70 até que era confortável.

Quando cheguei nela, fiquei assustado.

Setenta anos!

Na juventude, eu achava que uma pessoa de 70 anos era praticamente uma testemunha ocular do descobrimento do Brasil.

Hoje, evidentemente, minha opinião mudou.

Uma pessoa de 70 anos é um jovem experiente, vigoroso, cheio de planos e perfeitamente capaz de fazer qualquer coisa.

Desde que não precise se agachar.

Porque agachar é fácil.

O problema é a segunda parte da operação:

levantar.

Aos 20 anos, você deixa cair uma moeda no chão e, antes que ela termine de quicar, já pegou.

Aos 80, você olha para a moeda.

Pensa.

Avalia a cotação.

E pergunta:

— Quanto é?

Se disserem:

— Dez centavos.

Você responde:

— Deixa aí.

Outra coisa interessante nessa mudança é que o corpo começa a funcionar como um condomínio antigo.

Tudo funciona.

Mas sempre tem alguma coisa em manutenção.

Um dia é o joelho.

No outro é a coluna.

Depois aparece um barulho estranho no ombro.

Você levanta da cama e escuta:

Creck!

Fica imóvel.

— O que foi isso?

Silêncio.

Você mexe o braço.

Tudo bem.

Mexe a perna.

Tudo bem.

Então conclui:

— Deve ter sido a cama.

Claro.

A culpa é sempre da cama.

Também mudam as conversas.

Quando éramos jovens, encontrávamos os amigos e perguntávamos:

— E as namoradas?

Depois:

— E o trabalho?

Mais tarde:

— E os filhos?

Depois:

— E os netos?

Agora encontramos um amigo e perguntamos:

— E a próstata?

E ele responde durante vinte minutos.

Com detalhes.

Inclusive exames.

Se houver intimidade, mostra os resultados no celular.

Antigamente, os amigos mostravam fotografias das namoradas.

Hoje mostram colonoscopias.

É a evolução natural da amizade.

E os médicos?

Na casa dos 80, você começa a colecionar médicos como antigamente colecionava figurinhas.

Cardiologista.

Oftalmologista.

Ortopedista.

Urologista.

Dermatologista.

Otorrino.

Quando aparece um médico novo, você quase pergunta:

— Esse eu já tenho?

A agenda fica tão cheia de consultas que você começa a suspeitar que está trabalhando no hospital.

E existe uma frase que nenhum morador da casa dos 80 gosta de ouvir:

— Para a sua idade, o senhor está ótimo!

Para a minha idade?

Eu não perguntei pela minha idade.

Perguntei se estava ótimo!

Porque existe uma diferença preocupante entre:

“Você está ótimo.”

e

“Para a sua idade, você está ótimo.”

É como dizer:

— Considerando o estado geral do veículo, ele ainda anda muito bem.

A memória também desenvolve personalidade própria.

Ela decide sozinha o que vai guardar.

Pergunte o nome do professor de Matemática de 1958.

Lembro.

Pergunte quem marcou o gol naquele jogo de 1967.

Lembro.

Pergunte o telefone da primeira casa onde morei.

Lembro.

Agora pergunte:

— Onde você colocou a chave do carro?

Não faço a menor ideia.

A chave desaparece.

Os óculos desaparecem.

O celular desaparece.

E começa uma investigação policial dentro de casa.

— Alguém viu meus óculos?

Todos começam a procurar.

Até que alguém diz:

— Estão na sua cabeça.

Aí você precisa manter a dignidade.

— Eu sei. Estava apenas verificando se vocês estavam atentos.

Existe também aquele fenômeno misterioso de entrar num cômodo e esquecer o que foi fazer ali.

Você vai até a cozinha.

Chega.

Para.

Olha para a geladeira.

Olha para a pia.

Olha para o armário.

Nada.

Volta para a sala.

No instante em que senta:

— Ah! O copo d’água!

Levanta novamente.

Chega à cozinha.

Esquece outra vez.

Aos 80, beber água pode exigir três viagens.

Pelo menos serve como exercício.

Mas há vantagens extraordinárias.

Uma delas é que você começa a adquirir o direito de dizer certas coisas.

— Não vou.

— Por quê?

— Não quero.

Antigamente era preciso inventar uma desculpa.

“Tenho compromisso.”

“Estou trabalhando.”

“Vou viajar.”

Agora não.

— Você vai à festa?

— Não.

— Está ocupado?

— Também não.

— Então por que não vai?

— Porque estou com 80 anos e finalmente conquistei o direito de ficar em casa sem apresentar justificativa.

É uma liberdade maravilhosa.

Também desaparece aquela preocupação exagerada com a opinião dos outros.

Aos 20, você entra numa festa pensando:

“O que será que estão achando de mim?”

Aos 40:

“Será que estou bem vestido?”

Aos 60:

“Espero encontrar alguém conhecido.”

Aos 80:

“Onde é o banheiro?”

Isso se chama estabelecer prioridades.

Outra mudança importante ocorre com os horários.

Na juventude, jantar às dez da noite parecia sofisticado.

Hoje, se alguém disser:

— Reservei o restaurante para as dez.

Você pergunta:

— Dez da noite?

Como se existisse a possibilidade de ser dez da manhã.

— Sim.

— Mas às dez eu já estou voltando!

— Voltando de onde?

— Não sei. Mas estou voltando.

E festa que começa às onze?

Isso não é festa.

É sequestro.

Apesar de tudo, estou animado com a mudança.

A casa dos 80 parece ter moradores interessantes.

Alguns já viajaram pelo mundo.

Outros criaram filhos, netos e bisnetos.

Amaram, perderam, recomeçaram, erraram, acertaram e descobriram uma coisa que nenhum jovem acredita:

quase tudo passa.

As grandes preocupações passam.

As pequenas também.

Os cabelos passam.

Os dentes às vezes passam.

A barriga, infelizmente, pode ficar.

Mas muita coisa passa.

E talvez seja justamente esse o luxo de chegar aos 80:

olhar para trás e perceber a quantidade de tempestades que pareciam o fim do mundo e acabaram virando apenas histórias para contar depois do almoço.

Portanto, estou preparando a mudança.

Na mala vou levar pouca coisa.

Algumas lembranças.

Boas histórias.

Velhos amigos.

Fotografias.

Um pouco de juízo adquirido com atraso.

E uma enorme disposição para continuar rindo.

Principalmente de mim mesmo.

Porque descobri que envelhecer com mau humor não deixa ninguém mais jovem.

Só deixa mais velho e chato.

Então, quando finalmente chegar à porta da casa dos 80, pretendo tocar a campainha.

Se alguém perguntar:

— Quem é?

Responderei:

— Sou eu. Vim morar aqui.

— Trouxe muita bagagem?

— Só experiência.

— Algum problema de saúde?

— Quer a lista completa ou o resumo executivo?

— Ainda faz planos?

— Claro!

— Para quanto tempo?

— Isso é assunto entre mim e o síndico.

E entrarei.

Devagar, evidentemente.

Porque uma coisa é chegar aos 80.

Outra é chegar aos 80 e tropeçar justamente na entrada.

Depois vou escolher um bom lugar, sentar confortavelmente, olhar pela janela e brindar à nova residência.

À casa dos 80!

Que tenha bons amigos, boas conversas, muito riso e poucas escadas.

E que o proprietário demore bastante para aparecer com outro aviso:

“Prezado senhor, favor providenciar sua mudança para a casa dos 90.”

Nesse dia, se ele aparecer, não vou discutir.

Vou pegar minhas coisas, olhar para o calendário e dizer:

— Noventa? Pode mandar a chave. Se cheguei até aqui, quero conhecer o resto do condomínio.