Crônicas Londrinenses

Coletânea de crônicas e contos curtos sobre a cidade, seu povo e sua vida cotidiana.

Conteúdo

INTRODUÇÃO

Este volume abrangerá o período após a chegada em Londrina da nova pequena família Inoue, que se mudou de Presidente Prudente logo depois da morte do patriarca Yoshiomi.

Será uma coletânea de textos na forma de crônicas e contos curtos, não havendo uma previsão definida de capítulos.

Haverá a contribuição de escritores convidados, o que poderá acarretar uma pluralidade de temas e estilos de escrita.

Os textos serão assinados, e os autores assumirão a responsabilidade sobre o seu conteúdo.

A linha de tempo a ser discorrida por mim vai desde a infância, passando pela educação primária, secundária e média, equivalente aos atuais ensinos fundamental e médio, até a saída de Londrina para o estudo universitário em Curitiba. Sendo criado como um filho pelo cunhado, as situações serão descritas considerando a região da cidade onde a família residiu, permitindo ao leitor imaginar mais facilmente as circunstâncias de tempo e espaço.

As crônicas serão baseadas ou inspiradas em fatos e experiências vividas ou ouvidas, acrescidas de informações oriundas de pesquisa e do imaginário, visando ao enriquecimento textual e atrativo literário e cultural da escrita.

Existirão narrativas, nas quais os personagens são fictícios, assim como as circunstâncias ambientais onde os fatos centrais dos episódios aconteceram. Assim, todos os conteúdos são ficcionais e quaisquer semelhança com pessoas, instituições, lugares e ambientes são meramente coincidências do acaso.

Espera-se que o leitor encontre, em meio ao entretenimento da leitura, situações que o levarão à um túnel do tempo rico em sensações lúdicas, dramáticas, românticas, etc. Se não, certamente servirá para enriquecer o seu arcabouço cultural e histórico.

Agradecimentos antecipados são dedicados aos escritores convidados que vierem a contribuir com suas valiosas escritas.

Mario Takao Inoue
Editor e Autor

A chegada em Londrina ou Duas mães lactantes

Pouco tempo após o falecimento do meu pai Yoshiomi, a família foi convidada a se mudar para Londrina. A nova pequena família Inoue era composta pela minha mãe, Isso, a filha mais nova, Toshiko e eu, filho caçula e derradeiro. A filha Mitiko permaneceu em Presidente Prudente, em adoção pela sua madrinha. A primogênita Sumie, casada, morava em São Paulo, que abrigou por um tempo a irmã mais nova, Hiroko. Esta, encontrou um emprego em restaurante e fixou residência própria.

Entrementes, Sumie havia engravidado e teve seu filho primogênito por um curto lapso de tempo, vindo a perde-lo acometido por doença infantil.

Em seguida, ela e o marido Juniti resolvem mudar-se para Londrina, fixando residência à Rua São Salvador.

Figura 1.1: Primeira foto em Londrina, no ano 1950. A mesma esquina, em 2013.
Rua São Salvador com Rua São Vicente.
Fotos: Foto de álbum familiar, 1950; M.T. Inoue, 2013.

Figura 1.2: Destaque da foto da Figura 1.1, com Tereza Fumie, Amélia Toshiko e Mario Takao.
Foto: Álbum familiar, 1950.

O marido, havia imigrado solteiro, juntamente com os pais, um irmão e uma irmã caçula. Na época da presente narrativa, seu irmão já estava casado e mantinha uma propriedade rural na cidade de Rolândia. A irmã, igualmente casada, havia constituído uma família de quatro filhos em Londrina.

Embora imigrado de longa data e sendo ativo na sociedade, Juniti sempre teve dificuldade para se expressar em português. Nunca se soube exatamente o tipo de trabalho que ele exercia. Estava sempre envolvido com pessoas proeminentes da sociedade paulista, característica que trouxe com a mudança para Londrina. O que se sabe, é que fazia “negócios”, intermediando imigrantes e outras pessoas da sociedade, geralmente envolvendo o comércio. Nesta tarefa, soube muito bem gerenciar o contato entre clientes e profissionais liberais como advogados, entre outros.

Como a demanda dos “negócios” era grande, podia manter uma vida familiar bastante confortável. Não obstante a característica oportunista de seu trabalho, com variados tipos de transações de compra e venda, nunca soube investir em propriedade, morando sempre em casa alugada.

Com a integração dos Inoue’s, agora a família ficou constituída por Juniti, Sumie, que já tinha dado à luz a sua filha primogênita, Tereza Fumie, a mãe Isso, a irmã Toshiko e eu, adentrando o meu quarto ano de idade.

Como eu ainda mamava, eram duas mães a amamentar seus filhos.

Minha juventude na jovem Londrina

Javina Kawabata
Costureira e Dona de Casa

Morávamos em Sertanópolis.

Meu pai trouxe-me para trabalhar em Londrina. Isso foi no final de 1955, quando eu tinha 16 anos de idade. A cidade também era jovem, com apenas 21 anos. Apesar disso, já era destaque na economia nacional.

Que coisa diferente de Sertanópolis! Ruas calçadas com paralelepípedo, nunca tinha visto nada igual. Havia muitos vendedores e caminhões que iam buscar mercadorias em São Paulo, Santos, Paranaguá e Curitiba, pois as frutas eram transportadas por navio. O movimento era muito grande.

A firma em que fui trabalhar era uma central de distribuição de frutas e verduras. Comecei como caixa. Com o tempo passei a ser secretária, telefonista, controladora de vendedores e do estoque de frutas importadas, que ficavam armazenadas na câmara frigorífica. As maçãs e peras vinham da Argentina, as uvas da Espanha. No verão, até era bom adentrar a câmara frigorífica, mas no inverno não era agradável.

No início, eu estranhei muito a falta da família, mas como morava na casa dos patrões e a casa era junto da firma, gozava de algumas regalias. Eu trabalhava sem horário fixo.  Trabalhava bastante, mas tinha bons momentos e conheci pessoas interessantes. A patroa era atenciosa e matriculou-me numa escola de corte e costura, onde fiquei estudando por 3 meses, à noite. Este treinamento marcou minha futura e longa trajetória como costureira.

Até então, eu desconhecia o que era jantar em restaurante. Aos domingos, íamos jantar no Restaurante Matsuo, se não o único, o mais conhecido e central. Após o jantar, deixávamos os quatro filhos na casa e íamos ao Cine Ouro Verde, que era um luxo na época. Nas manhãs de domingo, havia a matinada. Então, eu levava os filhos do patrão e mais minhas duas irmãs menores, que já haviam mudado para Londrina. Eu dizia ser funcionária de creche, pois era sozinha para cuidar de seis crianças! Só que nesse tempo não tinha muitos carros na rua, era bem mais tranquilo!

Depois que meus pais se mudaram para Londrina muita coisa mudou.

Dentre as coisas que me trazem boas lembranças, uma delas era assistir aos muitos filmes japoneses no Cine Municipal. Como era muito bom!

A inauguração do aeroporto foi muito bonita. Muita gente vinha de longe para conhecer. O acesso era feito pela recém-inaugurada Avenida Santos Dumont, no luxuoso bairro Jardim Santos Dumont. Pouca gente se lembra que o aeroporto de Londrina já foi o segundo maior do Brasil, em movimento, na áurea época da cafeicultura. A cidade até recebeu a alcunha de “Capital Mundial do Café”. A denominação e símbolo do Cine Ouro Verde foram inspirados também na cor das folhas e dos frutos do cafeeiro.

Figura 1: Aeroporto de Londrina, na década de 1960.
Foto: M.T. Inoue, 1966.

Depois de ser criado, o Lago Igapó foi um lugar muito aprazível e frequentado.  Íamos pescar tilápias e depois de um tempo, pescávamos muitas traíras. Como era gostoso, tanto pescar como degustar. Meu pai gostava muito de peixe e nas segundas-feiras, ele passava em casa para comer, pois sabia que no domingo tínhamos ido pescar. Era muito bom!

Figura 2: Vista parcial do Lago Igapó, na década de 1970.
Foto: M.T. Inoue, 1970.

À época, morávamos num sobrado localizado na Vila Higienópolis. Não havia energia elétrica e não tínhamos fogão a gás. Quando chovia, a lenha molhava e não se conseguia acender o fogo. Foi um tempo de muito sacrifício e sofrimento. Quando papai ficou ruim das finanças, tivemos que nos mudar. Construíram uma cobertura nos fundos da quitanda onde papai e mamãe trabalhavam e para lá nos mudamos, para livrarmos o aluguel. Foi nessa circunstância, que voltei a trabalhar para ajudar pagar as dívidas.

Foi muito bom vir para Londrina. Já faz 65 anos, aprendi muito, trabalhei bastante. Até hoje, gosto de usar meu tempo para algo útil. Tenho dois filhos e dois netos, tudo o que me preenche a vida. Sou viúva há 25 anos e me sinto tranquila.

Londrina, você me deu muitas coisas boas, muita experiência. Lembranças boas que ficam guardadas para sempre. Agradeço muito por tudo que me ofereceu e fui muito bem recebida por você. Continue hospitaleira como sempre foi.

Obrigada Londrina!

Sarudinha ou O peixeiro ambulante

Adentrando o segundo ano de pandemia provocado pelo Corona Vírus Covid-19 em nível mundial, uma figura nostálgica retorna à lembrança: a do vendedor ambulante.

Felizmente, as tecnologias e a imaginação colaboram para assegurar um confinamento menos traumático. As compras pela internet e as encomendas de alimentos e outros itens entregues em domicílio avançaram significativamente, propiciando mais conforto para os que praticam o confinamento.

É como se a população de vendedores ambulantes tivesse se proliferada inimaginavelmente.

Na época descrita nesta crônica, as famílias ficavam tranquilas em casa, aguardando a passagem do padeiro, do leiteiro, do vendedor de frutas e legumes, do mascate, do amolador de facas, do entregador de jornais, do entregador de marmitas, do doceiro, do sorveteiro, enfim, quase todo o necessário num lar era vendido de porta em porta.

Aqui é que entre a figura protagonista deste capítulo: o vendedor de peixe.

Um amigo de infância, a mais longa amizade até o momento, chamava-se também Mário, da família Miyake.

Morava também à Rua Pernambuco, a pouco metros distanciado da nossa casa.   

Figura 1: Localização de onde ficavam os itens citados no texto.
Imagem obtida do Google Maps e editada para esta ilustração.

Eu frequentava assiduamente a casa do amigo, por se localizar nas proximidades e devido as inúmeras possibilidades de folguedos juntos. Na parte do fundo do quintal havia um tanque com peixes ornamentais, principalmente carpas coloridas. Talvez o tanque não fosse tão grande, mas a lembrança dimensional é que se tratava de uma enorme piscina, muito funda. Todo o entorno do tanque estava repleto de vegetais diversos, entre arbustos e um caramanchão de glicínia de flores lilás. Tudo isso propiciava sombreamento intenso ao viveiro de peixes, tornando a imagem da água bastante escura. Só era possível enxergar os peixes quando eles vinham à tona para absorver oxigênio.

O Sr. Miyake era um homem de estatura média, meio calvo, de feições agradáveis e estava sempre com um sorriso. A sua rotina de trabalho era feita com bicicleta, primeiramente indo ao mercado fornecedor para abastecer a caixa com peixes e gelo. Depois, percorria longos trechos vendendo os peixes. Na época, a sardinha era a mais consumida, se não a única.

Desde sempre, a sardinha teve como destino principal a indústria de conservas. No mundo inteiro são consumidas as famosas sardinhas enlatadas, preparadas em óleo, sem a cabeça.

Outra iguaria, também industrial, são as sardinhas salgadas e secas, inteiras e vendidas em latas maiores. Estas sardinhas são consumidas grelhadas em carvão ou lenha, dispondo o peixe em grelhas especiais. Tenho boas lembranças de minha mãe, que adorava grelhar as sardinhas secas num pequeno vasilhame com carvão.

Tanto a oferta como o consumo de sardinha in natura diminuíram bastante. O inconveniente sempre foi a presença de muitos espinhos finos e soltos, perigosos quando se travam na garganta.

A figura do Sr. Miyake em Londrina é antológica.

Dirigindo a sua bicicleta com a caixa de peixe na garupa, ia e vinha distribuindo sua mercadoria, anunciando em voz abaritonada:

            – Sarudinha!

            – Sarudinha!

Devido a origem nipônica, assim era sua pronúncia para sardinha.

          

As pescarias no Lago Igapó

Sou nascida em Londrina no ano de 1959. Gosto por demais da cidade, não conseguindo me ver morando em outro lugar. Tive a experiência de residir em outro país, mas aqui é o meu lugar.

Na minha infância, uma das lembranças é a de ir pescar com meu pai no Lago Igapó. Naquele tempo, morávamos na Vila Casoni, mais especificamente na Rua Tupiniquins. Costumávamos ir de ônibus e não se podia carregar vara de pescar comum dentro do coletivo. Assim, meu pai tinha o capricho de fazer as devidas adaptações nas varas. Ele mesmo dava o seu jeitinho de as deixar mais curtas, improvisando os encaixes. Hoje em dia, existem os mais variados tipos de varas, telescópicas, com molinetes e tudo o mais, mas antigamente era tudo mais precário.

Lembro-me que descíamos do ônibus no ponto da Rua Senador Souza Naves esquina com a Avenida Bandeirantes e andávamos o restante do caminho. A ida era só descida até a beira do lago. O difícil era o retorno, subindo a serra e carregados de peixe! Ficávamos pescando até bem tarde, quando já anoitecia, pois o pai gostava de pescar o peixe conhecido como traíra, que aparecia mais ao anoitecer. É um peixe de carne muito saborosa, embora tenha algum espinho. Ao retirá-lo do anzol, é preciso ter muito cuidado, pois é feroz, com dentes muito afiados.

Além das varas, ele sempre tinha em mãos o sondal, que é uma linha preparada com anzol e chumbada enrolada em uma lata. Lembro-me que uma vez, ao recolher o sondal, para nossa surpresa, o apetrecho havia fisgado uma traíra de bom tamanho.

Eram momentos relaxantes. Eu era uma criança com sete, oito, nove anos e não tinha o estresse de um adulto. Lembro-me que não tinha preguiça de caminhar. Para mim era um passeio, e sempre ficava quietinha vendo o meu pai pescar. Eu também gostava de pescar, mas no começo não colocava a minhoca no anzol, pois tinha medo. E quando pegava algum peixe, não sabia como tirá-lo do anzol. Mas, com o passar do tempo, aprendi a colocar a minhoca sem nojo e tirar o peixe fisgado do anzol.

Figura 1: Mapa de localização de parte do Lago Igapó, que mostra o caminho da pescaria.
                 Imagem adaptada do Google Maps, 2021.

Naquele tempo, a população de peixe no Lago Igapó era bem maior, e podia-se consumir sem medo. Agora, já não há mais peixes como antes, sendo aconselhável não os consumir.

Atualmente, o lago está bem cuidado nas suas margens, mas se encontra bastante assoreado. Já foi esvaziado por diversas vezes para uma limpeza mais detalhada.

Figura 2: Vista parcial do Lago Igapó, em Londrina.
                 Foto: Mirian Santos, por Pixabay.

O Lago Igapó é um dos mais belos ícones de Londrina. Fotógrafos profissionais ou não, tiram fotos maravilhosas do lago, postando-as nos meios digitais, divulgando amplamente a beleza do lago.

Histórias e desafios na cidade de Londrina

Norma Tsubaque Fukushigue
Dona de casa

Primeira parte: Os antecedentes e os desafios da chegada em Londrina

Sabem, aquela ótima sensação, sonhos e ideias de estar se mudando para uma cidade maior e movimentada? Foi o que sentimos, eu e todos da família nessa época. Isto aconteceu no final da década de 1950. Londrina estava em expansão. Houve até aquela euforia de estar vindo assistir filmes, pois já havia o famoso Cine Ouro Verde.

Voltando lá no ano de 1955, em Sertanópolis, nós sete (eu Norma, meu pai Riozo, minha mãe Yoshiko e meus irmãos Javina, Nice, Neusa e Jorge), viemos de “mala e cuia” para Londrina. Fomos morar na rua Pará, num pequeno sobrado. Logo ali perto, meu pai iniciou dirigindo um pequeno bar, o qual não durou muito tempo, talvez por falta de experiência no ramo.

Contando um pouco mais sobre Sertanópolis, era séria a falta de hortaliças, pois não havia agrônomos e pessoas preparadas e interessadas. Era preciso trabalhar muito nesse ramo. Nada como a nossa atualidade, pegar um celular, telefone e fazer pedidos. Era outra época, daí veja como era complicado.

A cada 15 dias, eu e Lauro trocávamos uma cartinha, e nesse intervalo, fazíamos uma ligação telefônica. Quer saber como? Havia na cidade uma central telefônica e quando chegava um telefonema, a moça que ali trabalhava vinha até a quitanda e me avisava. Eu saia até lá e atendia. Que bom que era! Assim foi o nosso namoro por uns 5 meses.

Houve uma vez, na época do Carnaval, que ele teria folga nos dias e me convidou para ir até Londrina e passearmos. Aceitei que iria, mas acabei ficando em Ibiporã, onde morava minha irmã Maria. Ele ficou muito zangado, mas tudo voltou ao normal. 

Assim, conseguimos chegar ao noivado, pois todos estavam em comum acordo. Meu pai não estava indo bem com o bar, era um bairro residencial e o pessoal ali procurava mais as feiras e o centro da cidade. O aluguel era muito caro, difícil para quem veio de lugares pequenos e em más condições financeiras.

Tão logo, nós mudamos num predinho perto da avenida Higienópolis, onde ocupamos o térreo e o primeiro andar. Na época, ali perto funcionava o Colégio José de Anchieta. Lugar de fácil locomoção, pois havia ponto de ônibus a duas quadras dali. As ruas não eram pavimentadas na época. Me recordo com ironia, na situação de estar noiva, e ele, o Lauro, meu noivo, chegando para nos visitar com os pés e a calça toda enlameada em dias chuvosos.

Já estávamos nos preparando para o casamento. Com tanta coisa a fazer, a dificuldade é que não havia luz elétrica e usávamos lamparinas e velas.

Ao preparar o enxoval, aconteceu que eu teria que ir até Bela Vista do Paraíso experimentar umas roupas que minha irmã Iracema me presenteou. Mas no trajeto, eu e o pessoal do ônibus tivemos a má sorte de topar com uma chuva muito forte que foi horrível. Isto foi na volta para Londrina. Esse ônibus, o único do dia, encalhou no barro e não conseguiu continuar a viagem. Era horrível a escuridão da noite, pois só consegui chegar de madrugada. A surpresa? Não havia táxi e nem Uber, como hoje em dia, para sair da rodoviária para casa. O que era pior na época, era mal vista uma moça tomar ou alugar uma charrete. Pois foi o que eu fiz. Mas enfim, cheguei inteira e feliz.

Bem, vou expor aqui algumas condições que foram realidade. Onde morávamos não existia tudo que se precisasse como: farmácias, costureiras, armarinhos, mercados e feiras. Tudo era bem longe, mas se dava um jeitinho. Esse lugar se chamava Vila Higienópolis. Com o casamento marcado, escolhemos como padrinhos os patrões do Lauro. A esposa do patrão, a senhora Massaki, estava muito pronta para tudo, estava sempre comigo e em todo lugar, procurando o melhor nas compras. Naquela década, ela era a única mulher a dirigir um carro na cidade. Enfim, como programado, o dia do casamento chegou.

Histórias e desafios na cidade de Londrina

Norma Tsubaque Fukushigue
Dona de casa

Segunda parte: O casamento e a chegada dos filhos

Casamos no dia 25 de maio de 1956, e foi bem como diz o ditado, “se chover a sorte deve acompanhar o casal”. E assim foi, choveu demais.

Nossa lua de mel foi em São Paulo. Foi maravilhosa, pois não conhecíamos o mar. Na ida, viajamos de ônibus até Marília e de lá, de trem.  Lembram-se daquele trem antigo, chamado de Maria Fumaça? Era muito romântico e fomos em classe de primeira, como se dizia naquele tempo. Tinha uma mesinha, um vaso de flores naturais e bancos confortáveis e novos. Na cidade, bons hotéis, degustando diferentes comidas como, por exemplo, a lagosta. Enfim, um bom marido, pois a referência dele veio por meio de meu pai e da minha irmã Javina, que já o conheciam por ocasião da quitanda em Sertanópolis. O Lauro era tido como uma pessoa honesta, íntegra e prestativa.

No retorno, queríamos viajar de avião. Mas com o tempo chuvoso durante toda aquela semana que antecedeu o casamento, não deu outra. No aeroporto em São Paulo, subimos no avião, acomodamo-nos, mas o avião deu uma volta, foi ao alto e novamente voltou ao chão. Foi desconfortável a cena. Não deu para decolar pois o tempo estava ruim em todo o trecho até Londrina. Enfim, voltamos de ônibus. Mas somando tudo, foi muito gratificante. Fui a única entre as irmãs que teve essa regalia ou oportunidade de realizar.

Após casados, fomos morar na Vila Casoni, na rua Tupiniquins e junto estavam os meus sogros, alguns cunhados casados e outros solteiros e sobrinhos. No total éramos em 13 pessoas naquela casa!

O Lauro trabalhava como vendedor de frutas e verduras na cidade, num estabelecimento localizado na rua Brasil. Era uma grande distribuidora com câmaras frigoríficas. Em pouco tempo adquiriu experiência no ramo de vendedor. A espera do primeiro filho foi um fato relevante. Para nós foi muito chocante, porque com tamanha esperança de nos tornarmos pais, aconteceu o inesperado. A nossa casa era agregada a uma quitanda, que na época era dirigida pelo meu cunhado João e pela minha sogra. Aconteceu que, por descuido de alguém, deixou-se cair uma pequena vagem fresca, ali onde era passagem de todos e, infelizmente fui eu a vítima. Levei um escorregão. Eu estava com dois meses de gestação. Foi pouca sorte minha. Fui hospitalizada e, apesar de todos os cuidados, acabei perdendo o bebê. Seríamos pais após um ano de casamento. Infelizmente isso não aconteceu.

Mais tarde, veio a ideia de deixar aquele emprego e abrir uma firma por conta própria. Nesse tempo, não éramos pais ainda. Então, fomos trabalhar juntos, abrindo uma quitanda e mercearia com o nome LINENSE, localizada na esquina da rua Professor João Cândido com a rua Espírito Santo. Apesar do trabalho árduo, foi uma decisão acertada e bem sucedida. Em curto tempo, conseguimos empregar dois funcionários.

Após dois anos, nasceu a Lúcia, sem problemas no parto, assistido por minha sogra e minha mãe. Felizmente, tudo normal, apesar de ser uma criança frágil. Teve vários problemas de saúde no início, mas, sempre bem cuidada pela minha sogra. Até comentamos que foi muito mimada. Mas depois cresceu normalmente. A vida seguiu e a experiência valeu.

Tanto progresso tivemos na época, que conseguimos adquirir um terreno na avenida Bandeirantes, perto da avenida Duque de Caxias. Com o projeto da casa em mãos, iniciamos a construção. Tinha quatro quartos, sala, um longo corredor, cozinha ampla e banheiro. A Lúcia estava com três anos de idade. Infelizmente, logo depois meu sogro veio a falecer. A vida continuou e fomos felizes ali. Na época também vendíamos em feiras livres. Era muito animador, pois o dinheiro ganho era bem valorizado.

Após seis anos, nasceu a Erika. O que mais preocupou foi uma gripe alérgica que contraiu na fase escolar. Mas, com bons médicos e todos os cuidados, teve melhora e continuou saudável. Ela foi sempre de estudar muito e conseguir seus objetivos. Passados quatro anos, nasceu a Cláudia, muito saudável. Ela não chegou a conhecer e conviver muito com os avós. Foi a única das filhas a estender seus estudos fora de Londrina. Todas as três filhas nasceram e foram criadas nessa casa da Bandeirantes.

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Norma Tsubaque Fukushigue
Dona de casa

Terceira parte: Lauro, o trabalhador e patriarca dedicado

O primeiro comércio do Lauro como proprietário foi a mercearia e quitanda Linense. Juntos, ele e eu, consolidamos a experiência no ramo de secos e molhados, conseguindo progredir como empreendedores e também financeiramente. A primeira casa que construímos foi resultado da paciência e perseverança no trabalho. Ali ficamos por uns 3 anos.

O segundo estabelecimento era na rua Senador Souza Naves com a Espírito Santo. Ficamos mais ou menos uns cinco anos, que era a Frutaria Linense. Foi muito bom, pois era uma região de pessoas de nível financeiro melhor. Nessa época, eu ficava em casa, cuidando da primogênita Lúcia e dos meus sogros. Para auxiliar no estabelecimento, foi contratada a Neusa, minha irmã caçula. O trabalho nas feiras livres continuava.

Após isso, mudamos o comércio para a Duque de Caxias com a rua Borba Gato. A minha irmã também auxiliou naquele estabelecimento. Também nesse local o resultado financeiro foi ótimo, propiciando a aquisição de um terreno na rua Conceição Arenal, no bairro Aeroporto. Logo em seguida, conseguimos construir duas casas comerciais. Houve um tempo em que ali funcionou junto um açougue.

Antes disso, tivemos na avenida do Café, uma mercearia e uma máquina de benefício de arroz. Tínhamos bons fregueses.

Foi nessa época que faleceu minha sogra. Com o passar do tempo, como a saúde do Lauro não estava andando bem, aos poucos fomos deixando devagar tudo isso.

Vou falar sobre o Lauro e a vida que foi levada com o comércio e seus negócios.

Como todo tipo de trabalho, também no comércio há várias preocupações, muitas, inesperadas. Sei que nada o segurava. Quando chegava a comentar alguma ideia diferente já estava resolvido e iniciava ao modo dele. Essa era a minha preocupação, porém acho que Deus nos acompanhou sempre. Nada foi de grande relevância. Tudo solucionável. Gostava muito de negociar carros mais velhos e motos também. Era bem conhecido por muitos. Isso para nós foi de muita graça. Viver de negócios o realizava. Mesmo após aposentado, não conseguiu ficar parado. Até casinhas de cachorro construiu e comercializou.

O homem trabalhador, no entanto, jamais deixou de exercer suas responsabilidades como marido, pai e avô. Nunca faltou nada no lar, que sempre esteve equipada com facilidades modernas para a dona de casa. As suas férias, desfrutava religiosamente todos os anos, saindo para viagens com a família. Assim, conhecemos muitas praias do Paraná e Santa Catarina.

Cumprida a sua missão, o Lauro faleceu em 1996, aos 67 anos de idade.

Assim era o senhor Lauro Atsushi Fukushigue.

 

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Norma Tsubaque Fukushigue
Dona de casa

Conclusão: Conquistas das filhas e dos netos

As filhas cresceram cada uma do seu jeito.

Todas estudaram, casaram e me presentearam com oito netos que são: Charles, Francine, Jacques, Vitor, Amanda, Daniel e Felipe. Eles muito me orgulham e me deixam feliz como avó.

O Jan foi meu primeiro neto, mas infelizmente não chegou a viver entre nós. Nasceu com problemas no coração e não sobreviveu.

A Lúcia me presentou com o Charles. Ele foi uma criança que veio com o tempo incompleto, com sete meses. Foi complicado a sua vidinha. Mas hoje, com o passar dos anos, é uma ótima pessoa que, sempre ao encontrar, me faz feliz. Ele é trabalhador, esforçado e muito atento em tudo, principalmente com a mãe e familiares. O Lauro fazia de tudo por ele, afinal era o neto tão esperado. Por exemplo, o Lauro adorava carregá-lo na moto. Foi pena, que os outros netos conviveram pouco tempo com o avô e outros nem o conheceram.

Tenho ótimas filhas e genros que me acompanham dando assistência no que é necessário e urgente. O que me falta? Nada. Sim, só vou ressaltar aqui que ainda não sou bisavó, pois os jovens já não mais se casam cedo.

Os meus netos Charles, Francine, Jacques e Amanda formaram-se na Universidade Estadual de Londrina. Charles em História, Francine em Jornalismo e Comunicação, Jacques em Administração de Empresas e Amanda em Ciências da Computação.

Vitor formou-se em Engenharia Mecânica na Universidade Estadual de Maringá. Atualmente, mora no Japão, onde concluiu seu mestrado e é doutorando na Universidade de Nagoya. Trabalha na empresa Optimind. Ele e Amanda são filhos da Erika.

Daniel estuda Veterinária na Universidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul e o Felipe, o neto mais novo, está terminando seus estudos no Ensino Médio em Itajaí. Daniel e Felipe são filhos da Cláudia.

Todos os meus netos são muito amáveis e queridos.

A minha visão sobre Londrina é de ser uma cidade boa para se morar, pois há de tudo e muito me diverte. Boas faculdades a escolher, sendo a mais famosa a Universidade Estadual de Londrina, a UEL.

Para os idosos, existe o SESC, que frequento assiduamente para estudar e divertir. Da mesma forma, a UNIMED nos oferece alguns passeios e viagens durante o ano.

Londrina é conhecida pela sua vida cultural. Festivais de música, teatro e danças, são apenas alguns exemplos de atividade. A participação dos imigrantes japoneses e seus descendentes no desenvolvimento da cidade teve importância fundamental para o seu crescimento como a segunda cidade do estado do Paraná. Assim, todos os anos, festivais com comidas típicas, músicas e danças com grupos locais e outros vindos de várias cidades, fazem parte permanente do calendário de acontecimentos na cidade.

Atualmente, sou viúva há 24 anos e vivo feliz em Londrina e espero ter muitas histórias para contar.

O meu romance com o "Pé Vermeio"

Maria Aparecida Arantes Yoshimura
Técnica em Prótese Dentária

O ano era 1973. Final de semana.

Vestido preto, com bordado de rosas no peito, mangas bufantes. Estava sozinha e resolvi ir até a lanchonete comer uma coxinha. Era o point da cidade à noite. Olhei para o interior onde ficavam as mesas e nossos olhares se cruzaram. Senti uma felicidade momentânea. Não conseguia tirar os olhos de um rapaz de descendência japonesa, talvez o único da minha cidade, Pederneiras, no interior do estado de São Paulo. Sua camisa era cor de rosa de mangas compridas, calça preta. Foi mágico. Assim nos vimos pela primeira vez. Depois, por meio de um amigo comum, fomos apresentados um ao outro e começamos nossa história de amor.

Aquele japinha bonitão era um “pé vermeio”, denominação carinhosa dada aos que são de Londrina, no norte do estado do Paraná. Seu nome é Masao. Nasceu em fevereiro de 1954 em pleno carnaval. O sogro foi foliar num baile na cidade e não registrou o filho. Só o fez em abril.

Até a idade de uns dez anos morou na Vila Casoni, mais precisamente no início da Rua Guaranis. Casa de madeira, com água de poço e casinha nos fundos do quintal. A tal casinha era um buraco de uns cinco metros de profundidade, sobre o qual havia uma cobertura com quatro paredes, em madeira, e telhado. Para os leitores de geração mais recente, a casinha era o lugar reservado para as necessidades fisiológicas pessoais.

Sua brincadeira predileta era a de encenar bandido e mocinho (não mudou nada até agora, só gosta de filmes de faroeste, minha nossa). Fabricava sua própria arma, um trabuco feito de antena de televisão. Gostava de pescar no Lago Igapó e na Pedreira, onde diz que havia muito lambari.

Figura 1: Da esquerda, Masao, Tadashi, Dermival e Boya, no jardim da casa da Rua Guaranis, em 1965.
Foto: M.T. Inoue, 1965.

Amigo inseparável foi o Dermival Viera da Costa, apelidado de Bichinho, pois assim era chamado carinhosamente pelos seus pais oriundos da Bahia. Moravam na casa dos fundos da Rua Guaranis. Seu pai era vendedor ambulante. Tinha um carrinho de madeira que empurrava pelas ruas de Londrina e fazia ponto no estádio de futebol.

Figura 2: O sorriso da cadela Lili, que veio com três meses de idade e ficou na família até a sua morte, beirando os 15 anos. Ao lado do poço de água potável, na Rua Guaranis.
Foto: M.T. Inoue, 1965.

Foi nessa época, que a mãe do Masao lhe arrumou um emprego numa padaria, por indicação de um vizinho. Trabalho noturno, durante o dia estudava. Recebia salário, pão e biscoitos. O salário era integralmente entregue à mãe.

Aos 13 anos, novamente a mãe lhe arrumou um emprego, agora, de faxineiro e entregador em um laboratório de prótese de nome Ogama, família da vizinhança, com a qual mantinha uma forte amizade. Nas horas vagas ele treinava anatomia dental, fazendo enceramento da morfologia dos dentes.

Seu esforço foi recompensado ao ser convidado para trabalhar em outro estado, na cidade de Assis, SP. Tinha 16 anos de idade. O dentista de nome Túlio Cabianca o recebeu e foi seu patrão durante dois anos. Morou nos fundos da residência do profissional.

De Assis, foi convidado a trabalhar em Pederneiras. Aqui a história já começa a ficar mais interessante. Nesta cidade também morou nos fundos da residência do patrão. Vê-se que começou ainda criança a trabalhar e a morar longe dos pais.

O salário, sempre entregue à mãe, ficava apenas com uma pequena parte. Às vezes tinha fome, mas tinha que aguentar. O jeito era esperar o patrão voltar da viagem de final de semana para compartilhar uma refeição com o chefe. A remessa do salário para casa sempre foi um compromisso para ele. Lembro-me que quando nos noivamos ele me disse: – Todo mês envio boa parte do meu salário para casa. E isso vai continuar para sempre.

E assim foi. Depois de casados, essa incumbência de envio de dinheiro passou para mim e a cumpri até a morte da minha sogra.

Em 1976, o Masao e eu estávamos noivos, apaixonados, e querendo gritar ao mundo nossa felicidade. Nessa época eu estava no 4º ano da faculdade, Masao trabalhando em uma clínica odontológica em Pederneiras. Já namorávamos há dois anos e resolvemos que era hora de nos casarmos e eu de conhecer a família do noivo. Resolvemos ir a Londrina. Masao precisava da certidão de batismo, documento exigido pela igreja católica para o enlace. Deveria estar na casa dos pais.

Figura 3: Casa dos Yoshimura à Travessa Padre Almeida, Jardim Petrópolis, em 1970. A partir da esquerda, Tadashi, Joji, Alípio (aluno do Boya), Neusa e Carlos Iwamoto.
Foto: M.T. Inoue, 1970.

Chegamos à Londrina. Se não me falha a memória, a casa onde residiam era azul, de madeira (comum no Paraná). Fomos recebidos por Sumie (mãe), Juniti (pai), Fumie (irmã) e a Lili, a cadelinha de estimação. Fui apresentada a eles. Nessa noite foi servido no jantar uma macarronada com carne, inesquecível. Os sogros só falavam japonês, então, não tinha noção do assunto entre eles. Não me sentia insegura, Masao era meu porto seguro. De repente, durante o jantar, Juniti, meu futuro sogro, falou ao filho: – Brasileiro não presta.

Talvez não quisesse que o filho se unisse a alguém que não tivesse descendência japonesa. O chão me faltou por um momento, mas rapidamente me recompus. Acredito que foi só uma primeira impressão. Meu sogro sempre foi carinhoso comigo. Me lembro das demoradas massagens que fazia em meus pés ou cabeça quando estava com enxaqueca.

Nessa viagem a Londrina conheci o Lago Igapó. Também tomei meu primeiro banho de ofuro.

Figura 4: Casal enamorado, às margens do Lago Igapó, nos idos de 1976.
Foto: C.T. Yoshimura, 1976.

Em 1977 nos casamos. Novas oportunidades na profissão. Ele escolheu (tinha Minas Gerais, etc.) o Rio para trabalhar e concluir o curso de prótese, que tinha ficado sem diploma. Em 1977 nasceu nossa primeira filha, Natalie. Em 1979 nossa segunda a Melissa, em 1981 a Flávia e por fim em 1983, a Amanda. Itinerantes por carma familiar assim como nós, nossas filhas tomaram, cada qual o curso de suas vidas e, atualmente nenhuma mora no Rio de Janeiro.

Desde 1979, Masao tem o seu próprio laboratório de prótese. Já está aposentado, mas continua trabalhando. Foi bem sucedido em sua trajetória. Continua sendo. Excelente filho, excelente pai, marido e profissional.

Figura 5: Aparecida e Masao nos dias de hoje. Foto de álbum familiar.

Na próxima edição

Meus finais de semana no "Secos & Molhados"

por Cláudia Yoshime Fukushigue Sato