Crônicas Independentes

Esta coleção contempla meus textos inéditos. São escritos independentes, inspirados num momento de inspiração. Serão assinados com o meu nome literário: Marta Kino.

Contém também textos enviados espontaneamente por leitores colaboradores. 

A chamada para textos continua aberta. Aproveite para enviar o seu.

Os desenhos foram concebidos por mim e elaborados com o auxílio de IA (Inteligência Artificial).

CONTEÚDO

A Perereca e as Piriquitas

Marta Kino

PRÓLOGO

Esta crônica foi inspirada na viagem que fizemos à Sintra, Portugal, em 2018.

Na localidade, existe um estabelecimento com o nome de Piquirita. Trata-se de uma fábrica de queijos. Diziam que existia a Piriquita de Cima.

Então deduzimos que deveria existir a Piriquita de Baixo.

Daí, a inspiração.

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A minha vizinhança é um verdadeiro zoológico.

Na casa ao lado, criam uma cachorrinha da raça Yorkshire, chamada Perereca. No prédio de apartamentos do outro lado, no quinto andar, mora uma gata angorá, com o nome de Piriquita. No andar térreo, a família pegou a irmã da Piriquita para criar, cujo nome registrado é Taturana, por ser bem peluda e braba. Mas, são mais conhecidas como Piriquita de Cima, a do quinto andar e como Piriquita de Baixo a sua irmã do andar térreo.

A Perereca costuma ser bem sapeca, sacudindo-se toda no seu passeio matutino. Ao encontrar um poste, a Perereca fica toda assanhada querendo fuçar e batizar o local com o seu líquido, nada perfumado. Na volta do passeio, sua dona deixa a Perereca de fora, na porta da padaria. Quando passa outro cão, este tenta se engraçar com a Perereca, mas ela nem dá bola.  A Perereca é bem cabeluda, com pelos pretos e brilhantes, chegando envolvê-la toda.  Chegando o final de semana, a Perereca começa a cheirar demais. Então, a patroa leva a sua Perereca para tomar banho e tosa.  Ao chegar no petshop, a Perereca fica toda assanhada, querendo cheirar e fuçar o traseiro das outras pets que estão por lá. Depois do trato, a Perereca está toda cheirosa, com pelos tosados e um lacinho na orelha. Até o sorriso da Perereca fica mais bonito, com os seus lábios bem úmidos e carnudos. A Perereca vive solta no quintal, onde pode fuçar à vontade. Quando está quente, a Perereca dorme ao ar livre. No inverno, a Perereca prefere o aconchego das cobertas de sua casinha ou pede para dormir com a patroa. Um transtorno é quando a Perereca está no cio. Nesses dias, a Perereca espalha seu sangue por todos os lados, lambuzando o quintal. É o período em que a cachorrada de rua se aglomera no portão, querendo cheirar a Perereca. Ela aproveita para espalhar todo o seu charme, pois a Perereca é exibida e gosta de se mostrar. A dona da Perereca cuida bem dela, pois o seu marido é fascinado pela sua Perereca. Afinal, foi ele que escolheu a Perereca quando a comprou. A Perereca acompanha seus donos para todo canto que eles vão. Nas viagens, a Perereca fica quietinha em sua caixa pet. De vez em quando, a patroa olha para o banco de trás para brincar com a Perereca, para ela não se sentir solitária.

Quase sempre acontece de a Piriquita de Cima estar no beiral da janela, tomando sol. A Piriquita de Cima é muito manhosa e bastante cabeluda. O miado da Piriquita de Cima é bastante sensual, com um tom abaritonado. A Piriquita de Cima é inquieta e fica pra lá e pra cá, desfilando o seu charme na janela. Quando percebe, a Piriquita de Cima começa a miar para chamar a Piriquita de Baixo, que está no peitoril da sacada do andar térreo. A troca de miados entre as duas Piriquitas deve perturbar a Perereca. Aí sim, que a Perereca fica braba e começa o desafio entre os latidos da Perereca e os miados da Piriquita de Cima, sintonizados com os da Piriquita de Baixo.

A sinfonia pererequiana com a piriquitiana é incômoda, às vezes.

Para apaziguar os ânimos, solto a minha Perseguida, uma rottweiler, que num único latido, silencia a vizinhança.

Cativeira

Kila Galvão*

Cativeira era uma vaca que via apenas alguns metros de pasto e um cercado de quatro fios de arame farpado. Do lado de dentro, a terra era seca e o capim ralo. Do lado de fora, no campo do vizinho latifundiário, o verde parecia não ter fim.

O desafio de Cativeira era produzir leite, muito leite, para que dele nascesse um queijo grande, bonito e valorizado. Mas como fazer isso com tão pouco?

Ela tinha um pescoço comprido e, curiosa como era, começou a esticar-se além do limite. Primeiro, tímida, beliscou o capim mais alto do outro lado. Depois, passou a misturar: um pouco do seu pasto simples com um pouco do exuberante vizinho. E percebeu algo surpreendente que a combinação era melhor do que qualquer um dos dois isoladamente. A transição é a chave, murmurava para si mesma. Nem só escassez, nem só abundância, mas o encontro entre os dois.

Cativeira não tinha raça definida. Era mistura, como seu tutor, como tantos ao redor, como o próprio pasto que agora reinventava. E foi justamente dessa mistura que começou a surgir algo novo: um leite mais rico, mais consistente, cheio de vida.

Suas vizinhas, vacas de aparência impecável, não gostaram da novidade. Viviam exibindo seus adornos: lábios preenchidos, cílios alongados, rostos esticados, botox na testa, úberes com silicone, vaidades importadas de um padrão distante da cerca. Cocho com sal rosa do Himalaia.

Qual é a sua raça? — perguntavam, com certo desdém.
Não sei — respondia Cativeira, tranquila. — Sou mistura.
E esse úbere… é natural? — insistiam, desconfiadas.
— É sim. Tudo o que produzo vem do que eu sou… e do que aprendi a criar com o pouco que tenho.

As outras vacas riam. Para elas, valor vinha da aparência, do pedigree, do quanto pareciam pertencer ao campo vasto, mesmo sem jamais precisar inventar nada.

Mas o tempo passou, e algo curioso aconteceu.
O queijo de Cativeira começou a chamar atenção. Era diferente: tinha sabor complexo, textura única, impossível de copiar. Não vinha apenas do capim, mas da coragem de misturar, da criatividade diante da limitação.

Logo, pessoas de longe começaram a procurá-lo.

Enquanto isso, o leite das vizinhas, se assemelhava a elas, artificiais por fora e de sabor limitado. Previsível. Sem história.

Cativeira, ainda dentro do cercado, percebeu algo importante: o limite não havia desaparecido, mas deixara de definir tudo. Ela não controlava o tamanho do pasto, mas reinventava o que fazia com ele.

E assim, naquela pequena faixa de terra, nasceu uma lição silenciosa: os que têm menos espaço são os que impulsionam o mundo com novidades e criação.

E, embora o cercado ainda estivesse lá, já não era apenas prisão, era também um impulso para inovação. Porque há quem herde campos prontos… e há quem, como Cativeira, precise inventar o próprio horizonte.

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* Nome literário de Franklin Galvão, Professor Sênior da UFPR

A menina do chapéu bucket

Marta Kino
Andrey Giron*

Vídeo conto remasterizado, com narração do poeta Andrey Giron.

História de uma menina que ignorava ter sido atropelada pelo trem e perambulava pela sua cidade. 

Avista ao vídeo clicando AQUI

*  Andrey Luna Giron é poeta, músico, fotógrafo entre outras habilidades. É membro da Academia de Letras do Brasil e da Associação Brasil Soka Gakkai Internacional. 

O príncipe que veio de trem

Vanessa Alves *

Ouvimos muito falar em histórias de amor, muitas delas nos emocionam profundamente. Histórias de príncipes e princesas permearam a infância de muitos de nós, que crescemos imaginando o dia em que encontraríamos nossa metade encantada.

Tenho que confidenciar aqui que cresci suspirando pelos cantos, principalmente quando ouvia uma boa história de amor. Mas não acreditava que pudesse acontecer comigo, já que nunca fui o estereótipo do que se espera de uma princesa, nem em delicadeza, muito menos em atributos físicos do que se imagina para uma princesa.

Na adolescência tive alguns amores platônicos, mas não tive nenhum envolvimento com uma pessoa real antes dos 18 anos. Sentia-me um pouco melancólica e pessimista em relação ao amor. Um fato que deve ser levado em consideração aqui é que eu não tive grandes exemplos familiares de histórias de amor com começo, meio e fim felizes.

Creio que a falta de exemplos próximos também contribuiu para que eu desenvolvesse um profundo descrédito nas relações amorosas. Porém, com o tempo descobri que histórias de amor acontecem com quem está disposto a amar.

À medida que as emoções juvenis afloravam, também surgia a necessidade de viver conexões reais e profundas. O destino fez com que eu encontrasse príncipes e plebeus, encantados e desencantados. Essas conexões chegaram e vivi algumas delas.

Enquanto vivia essas relações, sentia como se estivesse cursando uma faculdade dos sentimentos, pois foram muitos os aprendizados. As tormentas e a dor foram mais marcantes do que as delicadezas do amor nessas lições. Ainda assim, na essência, elas transformaram a forma como eu enxergo o amor hoje.

O tempo passou e a maturidade chegou de mansinho, trazendo consigo discernimento e autoconhecimento. Depois de alguns amores e desamores vividos, enfim chegou o dia de entender o que significava viver uma verdadeira história de amor.

Em uma manhã de inverno, daquelas ensolaradas, porém frias, fui convidada por minha tia a fazer um passeio de trem que leva a uma pequena cidade pitoresca do litoral, na qual passaríamos o dia.

Na época ela fazia um curso de turismo e o passeio fazia parte de um momento didático do curso. Aceitei ir com ela nesse passeio, onde eu esperava ver as belas paisagens da Serra do Mar pelas janelas do trem. Porém, eu não sabia que o passeio seria cheio de belas paisagens, mas também de belos sentimentos.

Ao chegar à estação, fui informada de que os bilhetes — o meu e o de minha tia — não contemplavam assentos próximos. Sentaríamos longe uma da outra. Para mim isso não soou como um problema, pois não tenho dificuldade em fazer amigos. Imaginei que seria uma garota a minha companheira de viagem, já que estávamos em um grupo grande onde a maioria eram mulheres.

Embarcamos, nos acomodamos no trem e, enquanto aguardávamos o início do passeio, a pessoa que sentaria ao meu lado logo chegou. Aparentava ser muito tranquila. Quando o vi, pensei: “Que moço distinto!”. Nos apresentamos e logo descobri que ele era pai de uma das colegas de classe da minha tia. Ele me contou que não iria ao passeio, mas, pela desistência de uma das alunas, sua filha o convidou e ele aceitou.

A ideia de que seria uma mulher que sentaria ao meu lado estava certa, mas o destino é surpreendente e às vezes nos reserva mais do que conseguimos imaginar.

O trem começou a andar e a conversa entre nós também. Após dez minutos de viagem, o trem fez uma parada: os trilhos sofreram avarias e precisavam de reparo. Foi-nos informado que o trem ficaria parado em torno de uma hora.

Pensando sobre todas as coincidências desse dia, acredito que o destino percebeu que precisávamos de mais tempo para nos conhecer. Muitos pontos em comum se evidenciaram entre nós, muitos interesses foram reconhecidos. Nesse momento, surpreendentemente, nasceu um forte interesse mútuo. A conexão foi tão intensa que, enquanto conversávamos, senti como se não existisse ninguém à nossa volta. Era como se o tempo tivesse parado: só existíamos eu e ele naquele instante único e especial, criado pelo destino. À medida que o dia avançava, fomos nos aproximando ainda mais.

O passeio pela pequena cidade histórica do litoral ficou em segundo plano; nosso verdadeiro desejo era explorar, cada vez mais, o mundo um do outro. Voltamos do passeio e continuamos nos vendo e nos conhecendo. Enquanto o relacionamento se aprofundava, percebíamos nossas diferenças, mas mais do que isso, víamos nossas semelhanças.

Há momentos em que olho para ele e penso: como podemos ser tão parecidos em tantos pontos? Seria ele minha versão masculina? Do inesperado nasceu uma história repleta de beleza e cumplicidade. Estamos vivendo nossa história de amor felizes hoje, e que possamos construir juntos, todos os dias — o nosso “felizes para sempre”.

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Vanessa Priscila Alves
    Militar Estadual
    Membro da Associação Brasil Soka Gakkai Internacional

A caldeira do inverno

Sylvio Péllico Netto *

Existem invernos que não apenas passam pela gente; eles nos atravessam. Em julho, Laranjeiras do Sul não é apenas uma coordenada no mapa do Paraná, é um estado de espírito — ou melhor, um estado de gelo. Nós estávamos lá para um inventário florestal, prontos para medir árvores, mas sem imaginar que seríamos medidos pela resistência do nosso próprio corpo.

A vila era pequena, daquelas onde as notícias correm mais rápido que o vento sul. A única pensão do lugar, como se soubesse da nossa chegada, estava lotada. Restou-nos a hospitalidade das autoridades locais, que nos abriram as portas de uma escola de madeira, aproveitando o silêncio das férias escolares.

O prédio, porém, era um monumento à ventilação não planejada. As paredes de tábuas, marcadas pelo tempo, tinham frestas que pareciam convites para o inverno entrar e se sentar conosco. Naquela primeira noite, a geada não caiu; ela se impôs. Foi a mais severa do ano. O frio não batia à porta; ele passava entre as frestas, transformando a sala de aula em uma antecâmara do polo sul. Dormir foi uma utopia.

Ao amanhecer, o golpe de misericórdia: ao tentar escovar os dentes, o silêncio das torneiras. A água, em um gesto de autopreservação, havia se solidificado dentro dos canos. Sem banho, sem rosto lavado, mas com o dever nos chamando, partimos para o campo. O cansaço da lida florestal se somava à exaustão de uma noite em claro e o corpo já começava a reclamar do rigor daquela terra.

Sem que esperássemos, surgiu a figura providencial do caldeireiro da fazenda. Ao ouvir nosso relato de “picolés humanos”, ele soltou a sugestão que soou como um coro angelical:

 — Venham fazer companhia para mim no prédio da caldeira. Lá, frio vocês não passarão.

Não pensamos duas vezes. Carregamos nossas camas para o ventre quente da usina. Se a escola era o deserto de gelo, a caldeira era o nosso sol particular. Nós armamos o acampamento ao lado daquela gigante de ferro que rugia um calor constante e acolhedor. Naquela noite, o contraste foi absoluto: do outro lado da parede, o mundo congelava sob o manto branco da geada; do lado de dentro, dormíamos como anjos, embalados pelo calor industrial que parecia abraçar a alma.

Para completar a redenção, o destino nos reservou um último mimo. Nada de pão amanhecido. A padaria vizinha, despertada cedo pelo mesmo frio que nos afligia, entregava o pão ainda fumegante no início da manhã.

No fim das contas, a ciência florestal nos ensinou sobre as árvores, mas foi o caldeireiro e o padeiro que nos ensinaram sobre a sobrevivência: no inverno de Laranjeiras, o que salva o homem é o fogo, o ferro e a simplicidade de um pão quente.

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*  Sylvio Péllico Netto 
* Professor aposentado da UFPR

O saxofonista

AJ DeAraujo *

Aos 13 anos, Karl ganhou um disco de vinil com melodias célebres de Tchaikovsky.

Ficou encantado. Ouvia o compositor russo todos os dias, fascinado pela sua música.

O tempo passou. Karl tornou-se engenheiro; fez mestrado e doutorado na Alemanha. Amante da música clássica, aproveitava sua estada na Europa para frequentar concertos sempre que possível. Mas sua carreira internacional exigia quase tudo: tempo, energia, dedicação.

Aos 53 anos, durante uma missão no Caribe, tirou alguns dias para visitar o filho, Vladmir, doutorando em Montreal. Coincidentemente, acontecia ali o Festival Internacional de Jazz. Karl assistiu a lendas como Stan Getz e Wayne Shorter.

Naquelas noites quentes de verão canadense, algo antigo despertou: “Vou aprender a tocar saxofone.”

Comprou um instrumento, contratou um professor, começou do zero. Aprendeu a montar o sax, soprou suas primeiras notas — tortas, hesitantes, mas livres. Estudou com disciplina.

Em poucos anos, tocava Aquarela do Brasil para plateias internacionais.

Hoje, décadas depois, continua estudando toda semana. Seu saxofone não é apenas música; é memória, escolha, alma.

Faz bem para minha alma, – repete — como um mantra de plenitude.

Karl Marx (während in Deutschland)
Carlos Marx Carneiro – Engº Florestal, Doutor, perito das Nações Unidas (quando no Brasil)

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*  Antonio José de Araujo 
* Professor aposentado da UFPR, escritor, poeta

 

DeARAUJO, A.J. O saxofonista. In: Fillus, L. N.; Dalazona, F. J.; Gonçalves, W. R. (Org.). V Concurso Literário Foed Castro Chamma 2025. 1. ed. Ponta Grossa, PR: Texto e Contexto Editora, 2025. p. 113. [Classificado em 4º lugar, Modalidade: Conto Nacional/Internacional]

 

A tocaia do Juvenal

Sylvio Péllico Netto *

Lá pelas bandas de Piumhi, em Minas Gerais, morava um português, chamado Antônio Juvenal de Souza, detentor de uma expressiva gleba de terra, um ferrenho monarquista que gozava de grande prestígio na região e detinha o título de Coronel da Guarda Nacional do Império do Brasil. Seu filho mais velho, chamado Augusto Juvenal de Souza, contava naquela época com apenas 18 anos e presumia-se estar sendo preparado para assumir importantes funções até então exercidas pelo seu pai.

O Coronel Juvenal era bem conhecido pelos seus subordinados na Fazenda Lagoa Dourada e, também, por muitos outros Senhores de Terra da Região. Muitos deles, senão sua totalidade, eram antirrepublicanos e defendiam ardorosamente o Imperador Dom Pedro II. De tempo em tempo se reuniam para discutir as diversas reivindicações a serem enviadas para o Governador da Província das Minas Gerais, visando conseguir apoio para o desenvolvimento de projetos regionais. Augusto sempre acompanhava o pai nestes encontros dos Coronéis. Daí, sua euforia pelo poder.

Em uma destas reuniões, ocorrida em Lavras, Minas Gerais, mais de vinte Coronéis foram recebidos pelo Coronel José Pedro Barbosa, um dos chefes políticos muito influente no Sul das Minas Gerais. Lá, junto com seu pai, Augusto conheceu Ana Thereza Barbosa, uma prendada senhorita pelos seus dotes de beleza e esmerada educação. Não decorreram mais que algumas horas para ele estar convicto que havia encontrado o grande amor de sua vida.

Após o retorno para Piumhi, ele começou a falar repetitivamente sobre os grandes dotes de Ana Thereza e que gostaria de se casar com ela. Tanto o Coronel Juvenal como sua esposa, Dona Maria Esméria do Espírito Santo, ficaram preocupados com os prematuros arroubos do filho.

Olha Augusto. Ainda é muito cedo para uma decisão como esta.

– Sim, filho. Falta em você a maturidade suficiente para assumir a responsabilidade de um chefe de família.  

Augusto ficou triste e desapontado com o comportamento dos seus pais e continuou insistindo nos seus intentos. Ele engendrou um plano para ir sozinho a Lavras encontrar Ana Thereza e, lá chegando, se viu apurado para ir à casa do Coronel Barbosa desacompanhado de seus pais. Ele acabou conseguindo encontrar Ana Thereza e lhe revelou a intensão de se casar com ela. Ela ficou assustada com aquela prematura revelação de Augusto, porém extremamente feliz com sua coragem, determinação. Sua admiração pelo mancebo era por ele ser um rapaz elegante, de muito boa aparência e de boa origem.

No decorrer daquele ano, novos encontros escondidos dos pais ocorreram e quando Augusto já contava com 19 anos e Ana Thereza com 18, ela se engravidou de Augusto. Quando os pais dela tomaram ciência do ocorrido armou-se um verdadeiro tumulto na família do Coronel Barbosa.  Além de repreender austeramente a filha, marchou a cavalo para Piumhi a fim de se encontrar com o Coronel Juvenal para tratar prontamente do casamento de Augusto com sua filha Ana Thereza.

O Coronel Juvenal ficou extremamente surpreso com aquela inesperada visita do Coronel José Pedro Barbosa, sem qualquer comunicado prévio. Em todo caso, o recebeu em sua fazenda com extrema gentileza e se sentaram na sala para conversarem. O Coronel Barbosa falou educadamente, porém foi bem incisivo.

Eu estou aqui para tratar do casamento de seu filho Augusto com minha filha Ana Thereza.

É uma grande honra para mim recebê-lo em minha casa para tratar de um assunto tão nobre, Coronel Barbosa. Porém, como já havia dito ao Augusto, achava cedo efetivarem este casamento.

O Coronel Barbosa, com olhar circunspecto retrucou-lhe.

Será efetuado imediatamente, Coronel Juvenal, porque minha filha está grávida de Augusto.

Naquele momento o Coronel Juvenal e Dona Maria Esméria ficaram atônitos e solicitaram imediatamente a presença de Augusto.

 – Então é verdade Augusto o que o Coronel José Pedro está nos revelando?  Você filhou a Ana Thereza antes de se casar com ela?

– É verdade, eu há muito tempo já lhes falei que eu a amo e que desejava me casar com ela.

Naquele momento quem se ruborizou foi o Coronel Barbosa.

Então você por muito tempo encontrou-se com minha filha às escondidas de mim e de minha esposa? Esta é uma revelação muito grave e, depois do ocorrido, vocês deverão se casar imediatamente. Eu estou retornando hoje para Lavras e enviarei um emissário informando o dia do casamento.

Uma semana depois chegou um emissário a Piumhi para comunicar à família do Coronel Juvenal que o casamento seria realizado no dia 25 de janeiro de 1865, na Capela Nossa Senhora da Luz, na Fazenda Jacutinga, em Lavras, Minas Gerais.

O evento ocorreu como programado, não com tanto entusiasmo, porém ficou legitimado, conforme o ritual da fé cristã, a formação de um casal para aguardar com amor a chegado de um neto para ambas as famílias.

Augusto e Ana Thereza foram morar com o Coronel Juvenal em Piumhi e, conquanto se davam muito bem, iniciou-se um crescente descontentamento de Augusto com o pai, porque o jovem casal queria ter sua casa própria e, também, desejavam receber uma parte da Fazenda Lagoa Dourada para desenvolverem seus próprios projetos. O Coronel Juvenal se opôs frontalmente a todas estas reivindicações e a tensão entre ele o filho Augusto aumentou a cada dia que passava. As desavenças eram muitas e a convivência se tornou insuportável para ambos.

Augusto tornou-se gradualmente um ente agressivo, triste e melancólico. O sonho delineado por ele esvaiu-se água abaixo e foi num momento de desfaçatez que ele arquitetou se livrar de seu pai.

Ele conhecia perfeitamente o caminho percorrido com frequência pelo pai, saindo da fazenda até Piumhi, geralmente no período da manhã e retornando à tarde. Ele conseguiu dois capangas de sua confiança e os instruiu precisamente como deveriam liquidar o Coronel, prometendo a eles condições muito melhores de trabalho, quando ele assumisse a direção da fazenda. Eles deveriam se atocaiar logo após a entrada do mato, antes do arroio São Benedito, e de lá atirarem no seu pai e, também, nos dois acompanhantes dele.

Tudo ocorreu como combinado, os capangas atiram e acertaram o Coronel Juvenal, que imediatamente caiu do cavalo, porém os tiros espantaram os cavalos e os dois que o acompanhavam saíram assustados a galope do mato, ficando lá apenas o Coronel estirado no chão. Após alguns momentos, os acompanhantes retornaram e o encontraram caído, porém ainda vivo. Eles o colocaram em um dos cavalos e o levaram para Piumhi e lá conseguiram salvá-lo.

Augusto ao saber do fracasso de seu intento ficou apavorado e depreendeu que, mais cedo ou mais tarde, o pai saberia que ele foi o mandante deste atentado. Ele preparou as malas e com sua esposa rumaram para Lavras para se asilarem na casa do seu sogro, o Coronel José Pedro Barbosa.

Somente muitos anos mais tarde, após o falecimento do Coronel Juvenal de causas naturais, Augusto retornou a Piumhi para tomar posse de sua herança na Fazenda Lagoa Dourada.

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*  Sylvio Péllico Netto 
* Professor aposentado da UFPR

O gordo que comia pouco

Kila Galvão *

Ele fechava todos os botões da camisa até o colarinho, numa tentativa disciplinada de conter o pescoço em camadas, um tipo de “queixo duplo” socialmente aceitável. Os três botões de baixo, porém, viviam em estado de deserção por não alcançar as casas, barrados por uma barriga proeminente.

Jurava que comia pouco. Sempre jurava. Dizia isso com a serenidade de quem acredita estar sendo injustiçado pelo próprio metabolismo.

A mãe, mesmo com a memória em frangalhos, com demência em curso, confirmava a tese:

— Esse menino nunca foi de comer muito.

E emendava histórias de quando ele ainda era nenê: dizia que usava blusinha de gola rolê de malha com compressão no berço, “pra encaixar melhor” e evitar atrito nas laterais. Já bastava a assadura persistente na bunda. Garantia também que mamava pouco. Tão pouco que o leite frequentemente sobrava e precisava ser “resolvido”: às vezes no banho quente, ou, em raros momentos de harmonia conjugal, no café do pai, ainda na cama, antes de o dia começar.

Convencido de que havia algo raro em seu caso, procurou um médico recém-formado. O doutor, cuja relação com o currículo Lattes era de profundo constrangimento (preferia não preencher por não ter o que mostrar), havia aberto consultório logo após ser reprovado numa seleção do SUS e decidiu que aquele paciente era sua grande oportunidade científica.

Após ouvir o clássico “quase não como”, o médico fez silêncio, franziu a testa, consultou um livro com verbetes em latim e diagnosticou com segurança inédita:

O senhor sofre de Empathoadiposis.

Explicou que se tratava de uma condição rara, combinando baixa flexibilidade metabólica com uma espécie de empatia fisiológica: o corpo engordaria por influência do ambiente social predominantemente obeso. Em termos simples, ele absorvia a realidade calórica ao redor.

O paciente saiu aliviado. Finalmente, uma explicação sofisticada que não exigia revisão de hábitos.

O médico, animado, tentou registrar a nova doença, pleiteou um código próprio e escreveu uma nota científica para melhorar o seu currículo. Foi rejeitado em congressos, revistas e até em grupos de mensagem. Seus pares alegavam falta de evidência e excesso de imaginação.

A verdade, como às vezes acontece, não veio da medicina, mas da família.

Anos depois, em um reencontro improvável, o pai, que não o via havia muito tempo, ouviu a história da tal doença e riu com a tranquilidade de quem já conhecia o final.

Você sempre comeu bem. Só não sabia.

Contou então que, quando bebê, a mãe achava que ele mamava pouco. O pai, que acordava cedo, complementava com mamadeira, generosamente. Depois, a mãe reforçava com o peito, acreditando que o filho ainda não havia mamado. Era um sistema de dupla alimentação involuntária, sustentado pela falta de comunicação e pelo excesso de zelo.

E não parou por aí.

E você nunca deixou o hábito — completou. — Só mudou o horário.

A partir dos dois anos, já dormindo sozinho, ele levantava à noite com a precisão de um especialista: abria a geladeira, dava preferência ao que era doce, visitava a despensa para complementar e consumia o equivalente a várias “refeições inexistentes”. Voltava para a cama com a consciência limpa e a memória zerada. No almoço e na janta contentava-se com salada e bife grelhado.

Descobri isso antes de qualquer médico — disse o pai. — Você era sonâmbulo gastronômico.

Só não procurei ajuda porque, comendo daquele jeito e sem culpa, você era o único feliz da casa.
Fez uma pausa, olhou para o filho com certa diplomacia tardia e completou:
Agora… se isso estiver te incomodando mais do que te alimentando, talvez seja hora de procurar um médico de verdade e, quem sabe, um educador físico. Não pra culpar o país… mas pra finalmente combinar o que você come acordado com o que faz dormindo.

O médico seguiu sendo contestado em congressos, insistindo em sua teoria inovadora.

O paciente, por sua vez, finalmente entendeu que não era um mistério metabólico, nem um fenômeno social, nem um ato de empatia nacional.

Ele comia pouco… acordado. Dormindo, compensava com disciplina, sem culpa e sem memória.
Descobriu que o problema não era o metabolismo, mas a contabilidade calórica.

E, como resumiu o pai:
Filho, isso não é empatia… é falta de testemunha.

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*  Nome literário de Franklin Galvão
* Professor Sênior da UFPR