Esta coleção contempla meus textos inéditos. São escritos independentes, inspirados num momento de inspiração. Serão assinados com o meu nome literário: Marta Kino.
Contém também textos enviados espontaneamente por leitores colaboradores.
A chamada para textos continua aberta. Aproveite para enviar o seu.
Os desenhos foram concebidos por mim e elaborados com o auxílio de IA (Inteligência Artificial).
CONTEÚDO
A Perereca e as Piriquitas
Marta Kino
PRÓLOGO
Esta crônica foi inspirada na viagem que fizemos à Sintra, Portugal, em 2018.
Na localidade, existe um estabelecimento com o nome de Piquirita. Trata-se de uma fábrica de queijos. Diziam que existia a Piriquita de Cima.
Então deduzimos que deveria existir a Piriquita de Baixo.
Daí, a inspiração.
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A minha vizinhança é um verdadeiro zoológico.
Na casa ao lado, criam uma cachorrinha da raça Yorkshire, chamada Perereca. No prédio de apartamentos do outro lado, no quinto andar, mora uma gata angorá, com o nome de Piriquita. No andar térreo, a família pegou a irmã da Piriquita para criar, cujo nome registrado é Taturana, por ser bem peluda e braba. Mas, são mais conhecidas como Piriquita de Cima, a do quinto andar e como Piriquita de Baixo a sua irmã do andar térreo.
A Perereca costuma ser bem sapeca, sacudindo-se toda no seu passeio matutino. Ao encontrar um poste, a Perereca fica toda assanhada querendo fuçar e batizar o local com o seu líquido, nada perfumado. Na volta do passeio, sua dona deixa a Perereca de fora, na porta da padaria. Quando passa outro cão, este tenta se engraçar com a Perereca, mas ela nem dá bola. A Perereca é bem cabeluda, com pelos pretos e brilhantes, chegando envolvê-la toda. Chegando o final de semana, a Perereca começa a cheirar demais. Então, a patroa leva a sua Perereca para tomar banho e tosa. Ao chegar no petshop, a Perereca fica toda assanhada, querendo cheirar e fuçar o traseiro das outras pets que estão por lá. Depois do trato, a Perereca está toda cheirosa, com pelos tosados e um lacinho na orelha. Até o sorriso da Perereca fica mais bonito, com os seus lábios bem úmidos e carnudos. A Perereca vive solta no quintal, onde pode fuçar à vontade. Quando está quente, a Perereca dorme ao ar livre. No inverno, a Perereca prefere o aconchego das cobertas de sua casinha ou pede para dormir com a patroa. Um transtorno é quando a Perereca está no cio. Nesses dias, a Perereca espalha seu sangue por todos os lados, lambuzando o quintal. É o período em que a cachorrada de rua se aglomera no portão, querendo cheirar a Perereca. Ela aproveita para espalhar todo o seu charme, pois a Perereca é exibida e gosta de se mostrar. A dona da Perereca cuida bem dela, pois o seu marido é fascinado pela sua Perereca. Afinal, foi ele que escolheu a Perereca quando a comprou. A Perereca acompanha seus donos para todo canto que eles vão. Nas viagens, a Perereca fica quietinha em sua caixa pet. De vez em quando, a patroa olha para o banco de trás para brincar com a Perereca, para ela não se sentir solitária.
Quase sempre acontece de a Piriquita de Cima estar no beiral da janela, tomando sol. A Piriquita de Cima é muito manhosa e bastante cabeluda. O miado da Piriquita de Cima é bastante sensual, com um tom abaritonado. A Piriquita de Cima é inquieta e fica pra lá e pra cá, desfilando o seu charme na janela. Quando percebe, a Piriquita de Cima começa a miar para chamar a Piriquita de Baixo, que está no peitoril da sacada do andar térreo. A troca de miados entre as duas Piriquitas deve perturbar a Perereca. Aí sim, que a Perereca fica braba e começa o desafio entre os latidos da Perereca e os miados da Piriquita de Cima, sintonizados com os da Piriquita de Baixo.
A sinfonia pererequiana com a piriquitiana é incômoda, às vezes.
Para apaziguar os ânimos, solto a minha Perseguida, uma rottweiler, que num único latido, silencia a vizinhança.
Cativeira
Kila Galvão*
Cativeira era uma vaca que via apenas alguns metros de pasto e um cercado de quatro fios de arame farpado. Do lado de dentro, a terra era seca e o capim ralo. Do lado de fora, no campo do vizinho latifundiário, o verde parecia não ter fim.
O desafio de Cativeira era produzir leite, muito leite, para que dele nascesse um queijo grande, bonito e valorizado. Mas como fazer isso com tão pouco?
Ela tinha um pescoço comprido e, curiosa como era, começou a esticar-se além do limite. Primeiro, tímida, beliscou o capim mais alto do outro lado. Depois, passou a misturar: um pouco do seu pasto simples com um pouco do exuberante vizinho. E percebeu algo surpreendente que a combinação era melhor do que qualquer um dos dois isoladamente. A transição é a chave, murmurava para si mesma. Nem só escassez, nem só abundância, mas o encontro entre os dois.
Cativeira não tinha raça definida. Era mistura, como seu tutor, como tantos ao redor, como o próprio pasto que agora reinventava. E foi justamente dessa mistura que começou a surgir algo novo: um leite mais rico, mais consistente, cheio de vida.
Suas vizinhas, vacas de aparência impecável, não gostaram da novidade. Viviam exibindo seus adornos: lábios preenchidos, cílios alongados, rostos esticados, botox na testa, úberes com silicone, vaidades importadas de um padrão distante da cerca. Cocho com sal rosa do Himalaia.
— Qual é a sua raça? — perguntavam, com certo desdém.
— Não sei — respondia Cativeira, tranquila. — Sou mistura.
— E esse úbere… é natural? — insistiam, desconfiadas.
— É sim. Tudo o que produzo vem do que eu sou… e do que aprendi a criar com o pouco que tenho.
As outras vacas riam. Para elas, valor vinha da aparência, do pedigree, do quanto pareciam pertencer ao campo vasto, mesmo sem jamais precisar inventar nada.
Mas o tempo passou, e algo curioso aconteceu.
O queijo de Cativeira começou a chamar atenção. Era diferente: tinha sabor complexo, textura única, impossível de copiar. Não vinha apenas do capim, mas da coragem de misturar, da criatividade diante da limitação.
Logo, pessoas de longe começaram a procurá-lo.
Enquanto isso, o leite das vizinhas, se assemelhava a elas, artificiais por fora e de sabor limitado. Previsível. Sem história.
Cativeira, ainda dentro do cercado, percebeu algo importante: o limite não havia desaparecido, mas deixara de definir tudo. Ela não controlava o tamanho do pasto, mas reinventava o que fazia com ele.
E assim, naquela pequena faixa de terra, nasceu uma lição silenciosa: os que têm menos espaço são os que impulsionam o mundo com novidades e criação.
E, embora o cercado ainda estivesse lá, já não era apenas prisão, era também um impulso para inovação. Porque há quem herde campos prontos… e há quem, como Cativeira, precise inventar o próprio horizonte.
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* Nome literário de Franklin Galvão, Professor Sênior da UFPR

