Alemanha dos anos 70

Uma viagem no tempo e no espaço, repleta de experiências e peripécias de um casal recém-casado num país diferente em tudo: idioma, costumes, etnias, comida, vestuário, economia, política, etc.

Relatos de fatos ocorridos, acrescidos de bom humor, fantasia, ironia, tudo de forma simples e  elucidativa.
Conheça lugares, termos alemães, comidas típicas, costumes exóticos, etc.
Certamente, a leitura dos textos servirá para enriquecer um pouco a cultura e conhecimento dos leitores.
A coleção poderá contar com a colaboração de autores convidados.

CONTEÚDO

Há 50 anos . . .

Este capítulo introdutório é comemorativo ao Jubileu de Ouro da minha primeira viagem internacional, com destino à Alemanha, denominada na época República Federal da Alemanha (Bundesrepublik Deutschland). Mais comumente era conhecida como Alemanha Ocidental.

Após nos casarmos em meados de 1971 em Londrina, Neusa e eu passamos a lua de mel em Campos do Jordão, numa semana das mais frias que experimentamos. Daí, a importância do aconchego debaixo das cobertas em nossa alcova nupcial. Dalí, fomos direto morar na casa administrativa da antiga Estação de Pesquisas Florestais de Santo Antônio da Platina, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), da qual fui responsável até o final daquele ano. No período, fiz viagens semanais até Curitiba, de camioneta, por estrada de terra até Jaguariaíva e daí, por asfalto até a Capital. Com a finalidade de lecionar aulas nas segundas-feiras e retornar durante a noite para a Estação. Foram algumas as vezes que tive que desenterrar as rodas da camioneta encalhada no barro de terra roxa do nordeste do PR. Desde então, viagens frequentes por terra, ar e mar foram as tônicas que impregnaram toda a minha vida, até hoje.

Figura 1: Mapa do Estado do Paraná, que mostra o trecho de mais de 400 km percorridos semanalmente, ida e volta, de Santo Antônio da Platina a Curitiba.

Em 1972 iniciou-se um projeto de cooperação entre a UFPR e a Universidade de Freiburg, da Alemanha. Fui convidado a fazer parte do grupo designado a realizar o doutoramento naquele país. Foram poucos meses para todo o preparo de uma aventura acadêmica, que para a época pode ser considerada bastante arrojada. Eu estava com 25 anos de idade e a Neusa, 22. O estudo do alemão foi rápido e rasteiro, de apenas três meses.

Graças à ajuda mútua, entre mim e os contrapartes alemães, que tinham vindo também como aventureiros de primeira viagem, fomos iniciados no idioma, costumes, alimentação, assuntos atinentes à Engenharia Florestal, entre outros aspectos importantes para minimizar o impacto na chegada ao novo Velho Mundo.

Foi no mês de abril de 1973, exatamente há 50 anos que, ansiosos e ao mesmo tempo, temerosos, fomos para Londrina, onde nos despedimos dos parentes de ambas as famílias. De lá, o primeiro destino foi o aeroporto de Viracopos, em Campinas. O atual aeroporto de Guarulhos só foi construído 12 anos mais tarde.

Quando chegamos ao aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro já era noite. O voo para a Alemanha estava previsto para sair bem tarde. Aqui aconteceu a primeira surpresa memorável. Acho que o controle de lotação de passageiros e peso total do avião não tinha sido eficaz. Assim, toda a bagagem, que já tinha sido embarcada, teve que ser retirada e enfileirada no pátio, ao lado da aeronave. Os passageiros tiveram que ser pesados, um a um e depois disso, cada um teve que se dirigir ao local onde estavam as malas e identificar as suas, para então, embarcar no avião. Parece coisa de cinema… A nossa mala era uma única, de pequenas dimensões, pois não tínhamos muita roupa. Para as condições climáticas vindouras, não adiantava mesmo levar roupa brasileira.

Refletindo, o mundo era mais eco simpático. Mesmo tomando banho diariamente, usava-se a mesma roupa dois dias seguidos. Comparado com os costumes modernos, consumia-se metade da água, detergente, energia, homens-hora de serviço, vida útil de equipamentos como lavadora, ferro de passar, etc. Metade de dinheiro para nova roupa, homens-hora para a aquisição, combustível, dinheiro para estacionamento, e assim por diante.

Figura 2: Avião Boeing 707, o mesmo tipo narrado nesta história. De quatro motores e cabine estreita, com capacidade de 166 passageiros.

O avião era um Boeing 707, um quadrimotor de cabine estreita, um dos mais seguros fabricados até hoje. A empresa era a VARIG. O trajeto com esta aeronave foi: Rio de Janeiro, Recife, Dakar, Frankfurt.

Sendo o meu primeiro voo, tudo era novidade: a escada para acesso, a longa caminhada pelo corredor central, estreito e ladeado por duas fileiras de três poltronas. Estou descrevendo a classe econômica.

A gentileza dos comissários de bordo, na época, ainda denominadas de aeromoças, marcou a minha preferência por certas mordomias. Jantar servido, com direito a sobremesa e oferta de produtos sem impostos, como cigarros e cosméticos. Hora de descansar. Não havia a telinha para assistir filmes, como nas aeronaves modernas. O que me marcou foi o teto que, quando as luzes se apagaram, ficou visível uma imagem do céu noturno, com inúmeras luzinhas simulando estrelas brilhando no fundo azul escuro.

Quando isso aconteceu, já havíamos deixado o continente sul-americano e estávamos em pleno Oceano Atlântico rumando em direção ao norte da África. A única parada foi em Dakar, capital do Senegal, o ponto mais ocidental do continente.

Era de madrugada. Saindo de um ambiente condicionado, talvez uns 22ºC, o impacto do calor seco que senti ao chegar à porta do avião para descer, de uma temperatura de talvez uns 40ºC, foi inédito e inesquecível. Anos depois, em Manaus, Imperatriz e Cuiabá relembrei com nostalgia aquele primeiro momento. A parada foi rápida, apenas o suficiente para “tirar água do joelho”, comer alguma coisa estranha e olhar algumas pequenas lojas.

Figura 3: Mapa onde é mostrada a rota da viagem desta história: Londrina-Campinas-Rio de Janeiro-Recife-Dakar-Frankfurt, cruzando a linha do equador e escala em Dakar.

Era de manhã quando chegamos ao nosso destino final, aeroporto de Frankfurt. Outro impacto, totalmente diferente do imediatamente anterior: acesso do avião até o saguão por finger ou ponte telescópica, sem grande diferença entre as temperaturas. Após os trâmites de imigração, o deslumbre do tamanho do aeroporto, iluminação, beleza e modernidade das lojas e outras facilidades. A primeira providência foi a troca de traveller checks por dinheiro, no caso, marco alemão, ainda no aeroporto. 

Frankfurt é talvez um dos poucos ou único, a ter um terminal ferroviário de metrô dentro do próprio aeroporto. Aproveitamos para adquirir passagens até a cidade de Freiburg im Breisgau, nosso próximo destino final.

Apfelsaft

O nosso segundo destino final era a cidade de Freiburg im Breisgau, sul da Alemanha, próximo das divisas com a Suíça e França.

Esta viagem foi feita em trem. Era a primeira vez que eu andava de trem, como no caso do avião.

As passagens já tinham sido compradas no aeroporto de Frankfurt. Quando lá desembarcamos, fomos recepcionados por Martin Weissinger, um dos jovens pesquisadores alemães que havíamos conhecido em Curitiba quando o convênio UFPR-Freiburg iniciou, um ano antes. Foi um dos pesquisadores com o qual havíamos consolidado uma boa amizade, a qual permaneceu viva e cultivada até mesmo após a nossa ida para o norte da Alemanha, em Hamburg, nosso terceiro e último destino final.

Figura 1: Trecho da primeira viagem de trem na Alemanha, de Frankfurt a Freiburg, capital da Floresta Negra (Schwarzwald).

Graças à ajuda de Martin não nos sentimos estranhos naquele novo Velho Mundo. Entre outras orientações, ele nos auxiliou na troca de dinheiro e aquisição dos bilhetes de trem. Além disso, acompanhou-nos neste segundo trecho da viagem. Morando em Freiburg, ele havia ido até Frankfurt com a intenção de nos recepcionar. 

Então, sentíamos como se estivéssemos em nossa segunda lua de mel, com direito a guia e tudo o mais. Aliás, eu sempre comento que nós desfrutamos da mais longa lua de mel que qualquer casal poderia curtir. Foram três anos e meio vivendo a dois na Europa, deleitando-se com as facilidades e ambientes de primeiro mundo. Apenas com a única preocupação de estudar e pesquisar para o doutoramento e com direito a bolsa de estudo do DAAD (Deutscher Akademischer Austauschdienst – Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico), recebendo em marco alemão.

A euforia e a despreocupação por estarmos bem acompanhados propiciaram uma tranquilidade tal que nem sentimos a viagem de quase 300 km, com apenas uma parada em Karlsruhe, já no estado de Baden-Wurttemberg. Boa conversa, paisagens deslumbrantes e comida e bebida a bordo! Sendo para mim uma viagem inaugural de trem, tudo era novidade. Até o carrinho de venda de alimentos levou-me à lembrança da recente viagem de avião. Aqui aconteceu o primeiro e inesquecível deslumbre gastronômico.

Ao pedirmos as bebidas, Martin sugeriu o suco de maçã, conhecido naquele país como Apselsaft. Certamente, por ter sido a primeira vez que sentia o gosto de um suco de maçã, o sabor agridoce daquela bebida ficou na minha memória para sempre, como o melhor. Todos me conhecem como abstêmio para bebida alcoólica.

Figura 2: Ilustração do primeiro suco Apfelsaft, degustado durante a viagem de trem.

Assim, nenhuma outra bebida ou suco de fruta compara-se à lembrança daquele primeiro gole do Apfelsaft ingerido naquela viagem de trem. Não me recordo da marca. Lembro-me que era contido numa pequena garrafa de vidro. Era do tipo centrifugado, transparente. Posteriormente, experimentei o do tipo não centrifugado e não gostei. Outras inúmeras marcas também. Nenhuma outra origem igualou-se àquela.

Por isso mesmo, destaco este capítulo da nossa história, intitulando-o com o nome daquela bebida do mundo dos sucos de frutas que eternizei na memória.

Figura 3: Nubentes na chegada ao Bahnhof (estação ferroviária) de Freiburg.
Abril de 1973.

Era início da tarde quando chegamos ao destino final daquela viagem. Foi uma inesquecível lembrança do início de nossa aventura acadêmica europeia.

A truta fresca do Kolpinghaus

O tratamento vip não ficou só na viagem acompanhada desde o aeroporto de Frankfurt até a estação ferroviária de Freiburg.

Na estação, estava a nossa espera o saudoso professor Dr. Gerhard Speidel, então chefe do Departamento de Economia e Ordenamento Florestal da Universidade “Albert Ludwig” de Freiburg.

Nós já conhecíamos o Dr. Speidel mesmo antes do convênio de Freiburg. Ele fazia parte da equipe de peritos da FAO (Food and Agricultural Organization – Organização para a Alimentação e Agricultura, órgão das Nações Unidas) que, nos idos de 1961, deu início a antiga Escola de Florestas da UFPR (onde me graduei, em 1969). Foi o meu professor de Economia e Ordenamento Florestal e cultivamos uma boa amizade familiar desde então.

Foi o meu primeiro deslumbre acadêmico ser recepcionado por uma personalidade que, já na época, era uma reconhecida e respeitada autoridade na área da Engenharia Florestal em nível internacional. Ao nível pessoal e familiar, o Dr. Speidel e sua esposa eram pessoas do mais fino trato, gentis e cordiais e os nossos encontros foram sempre simpáticos e em português. Volta e meia, entremeavam-se termos alemães, importantes para o nosso aprendizado.

Dirigindo o seu fusca azul marinho, conversível, mesmo com sua mão direita lesionada durante a guerra, ele nos conduziu para o nosso primeiro abrigo em terras alemãs. Fomos hospedados no hotel “Kolpinghaus”, no centro da pequena cidade de Freiburg. Construído em estilo alemão, com a cobertura em ângulo agudo para minimizar o acúmulo de neve, era muito confortável, com quartos bem dimensionados. O nosso quarto ficava no segundo piso, de cuja janela era possível ver uma pequena parte da cidade, principalmente do telhado das construções.

Figura 1: Vista do telhado dos prédios da Universidade de Freiburg. No horizonte, o Rio Reno que divisa com a França. 1973.

Da janela do nosso quarto vem à lembrança a primeira impressão indelevelmente armazenada na memória: a visão branca e o cheiro da neve acumulada do lado de fora da abertura, logo ao despertar. Em plena primavera, no mês de abril, a neve ainda persistia firme nos telhados e nas ruas e calçadas. 

Igualmente, nas montanhas e florestas o branco ainda predominava a paisagem. Nos anos seguintes, experimentei outras sensações do mesmo fenômeno atmosférico, em outras localidades. O som único, característico da pisada na neve acumulada, ficou gravado eternamente na memória auditiva. Dois anos depois, em 1975, assisti em Hamburg ao filme “Dersu Uzala”, de Akira Kurosawa. Numa das cenas mais dramáticas, o ator título percorre sobre a neve na floresta, produzindo aquele som característico que imediatamente me levou à própria experiência em andanças nas florestas nevadas do norte da Alemanha.

Figura 2: No morro Schlossberg com vista para as montanhas nevadas da Floresta Negra.1973
Figura 3: Montanha nevada da Floresta Negra.

Naqueles primeiros dias freiburguenses, experimentamos uma inesquecível aventura gastronômica. O hotel “Kolpinghaus” tinha um restaurante, chique e aconchegante, o qual nos despertou a curiosidade em provar a sua comida. Foi numa das primeiras noites que marcamos o nosso debute naquele ambiente. Logo na entrada do salão, despertou-nos a atenção, a decoração do local com um grande aquário num nicho relativamente discreto. Mesmo assim, tive a curiosidade de contar a pequena quantidade de peixes que ali estavam abrigados. Sendo a nossa iniciação na gastronomia local, escolhemos um prato de truta com amêndoas. Pedido feito, demora condizente com a escolha. Valeu a pena a espera, pois a truta estava especialmente saborosa, com amêndoas semi-tostadas e fartamente regada com manteiga derretida. Peixe degustado, paga a conta, hora de sair para descansar o estômago satisfeito numa cama aconchegante.

Eis que na entrada, agora saída daquela sala de comensais, resolvo olhar uma vez mais os peixes nadando no aquário. Notei que a população havia diminuído. Como eu não conhecia a espécie nadante, perguntei a um dos funcionários. Tratava-se de trutas das montanhas da Floresta Negra. Concluí que o frescor da truta degustada era devido ela ter sido “pescada” daquele aquário imediatamente após termos feito o nosso pedido no restaurante!

A sensação de remorso daquela aventura gastronômica pode ser comparada a de quando você senta no balcão de um kaiten (sashimi servido em esteira rolante) bem próximo do sushi-man!

 

Figura 4: Uma ideia do prato de truta fresca do hotel.

Tempos de Freiburg

Parte 1: Os preparativos da viagem à Alemanha

Carlos B. Reissmann*

No Brasil da década de 70 vivia-se o “milagre brasileiro”, talvez até sem se dar conta disso de forma concreta. No entanto, no exterior, o Brasil chamava a atenção por um crescimento nunca antes registrado a ponto de surpreender a geopolítica internacional.

Em um trecho do editorial de ROETT (1976), pode-se ler: ”a coalizão entre oficiais militares e tecnocratas civis mudaram a imagem prevalente de gigante adormecido ou de um Edem Tropical”. 

Independentemente da opinião dos vários analistas sociais e econômicos da época, no meio acadêmico o foco era o jovem curso de Engenharia Florestal em ritmo acelerado de crescimento. Bem ali, na Rua Bom Jesus 650, em Curitiba. Os docentes brasileiros trabalhavam em uníssono com os professores e pesquisadores do Convênio de Freiburg com total desprendimento e idealismo. O Convênio de Freiburg fora recém assinado em outubro de 1970 e realizado entre a Universidade Federal do Paraná e a Universidade Albert Ludwig de Freiburg i. Br. – Alemanha, (MACEDO, 1982). Eu nem ambicionava um curso na Alemanha de tão inatingível que me parecia. Era como se um grande muro, como aqueles da era medieval impedisse qualquer ideia para além de minhas fronteiras.

Abriam-se frentes de pesquisa em várias áreas da Silvicultura, Manejo, Inventário Florestal, Tecnologia e Anatomia da Madeira, interagindo com profissionais que vieram de uma longa tradição no setor florestal, investigando desde o plantio até o pleno beneficiamento da madeira.

Eu atuava diretamente como contraparte do Dr. Ernst E. Hildebrand, que era da área de Química do Solo e Nutrição Florestal. Uma área nova para mim, mas que me entusiasmava muito.

Nessa época eu ainda realizava minha dissertação de mestrado, orientado pelo Prof. Dr. Winfried E. H. Blum, que coordenava o Convênio na época. Por ocasião de uma coleta de material acompanhou-nos o Prof. Heinz Zöttl, professor e Diretor do Instituto de Solos e Nutrição Florestal da Universidade Albert Ludwig de Freiburg.

Mais tarde, o Prof. Blum me antecipou que o Prof. Zöttl me aceitaria como doutorando no seu Instituto, em Freiburg. Recomendou que eu me preparasse nesse sentido.  Estava de posse da escada para transpor o muro imaginário da impensada Alemanha.

Defendida a dissertação em dezembro de 1976, já me preparava, coletando solos e acículas (folhas em forma de agulhas), em povoamentos de Pinus taeda e P. elliottii, situados entre Telêmaco Borba-PR e Passo Fundo-RS.

Alemanha! Liliane (minha esposa) e eu faríamos o caminho inverso de nossos antepassados europeus na travessia do Atlântico.

Em 08 de outubro de 1977 decolava de Curitiba com ela, nossa filha Renata de ano e meio e nosso filho Carlos Rodolfo de três meses de idade. Outro casal, Jorge e Nazareth, também com dois filhos pequenos, viajavam conosco com o mesmo propósito.

Voamos num lindo 707 da Lufthansa, via Dakar. Quando pousamos avistei um solo vermelho como os nossos Latossolos do norte do Paraná e uma densa vegetação de capim elefante. Nem parecia que havia atravessado o Atlântico. Quase me sentindo em casa pensei:

Gondwana, Pangéia! Fui tomado pela sensação de constatar com meus próprios olhos a teoria de Alfred Wegener, formulada no início do século XX sobre a deriva continental.

Estávamos acomodados nas últimas poltronas da classe econômica. Bem perto dos banheiros e da cozinha onde preparávamos as mamadeiras das crianças sem muito transtorno. Foi divertido, emocionante e até assustador em determinado momento, quando fomos surpreendidos por uma forte sacudida pela turbulência. Durante a viagem, um grupo de argentinos cantava vez por outra intercalando o choro e a gritaria de nossas crianças impacientes.

Grande dia, deixávamos o ensolarado Brasil para trás e mergulhávamos no outubro já cinzento de Frankfurt e a “sopa de névoa” de Freiburg como descrito por meu orientador Prof. Zöttl, que foi nos buscar no aeroporto. Também nos recepcionando estavam alguns colegas brasileiros precursores para nos “escoltarem” até Freiburg. Em nosso apê, haviam providenciado um oportuno rancho, pois aos domingos estava tudo fechado, exceto bares e restaurantes.
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Macedo,J.H.P. Uma Década de Convênio com Freilburg – RELATOS – Curitiba. José Henrique Pedrosa Macedo (ed), 1982. 54 p.
Roett R. Brazil in the Seventies. (Foreign policy: 1) (AEI studies: 132). Riordan Roett (Ed.),Johns Hopkins School of Advanced International Studies – Washington D. C. 1976. 131 p.

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Carlos Bruno Reissmann, nascido em Porto União – SC, em 1945. É Engenheiro  Florestal pela UFPR. Realizou o doutorado na Albert Ludwig Universität de Freiburg i. Br.- Alemanha e Pós-doutorado na Michigan State University – EUA.  Publicou três livros, sendo um em destaque, A Fada do Mangue, adaptação para uma linguagem infanto-juvenil de resultante de projeto científico em questões ambientais. Da sua produção científica ainda constam 108 artigos em periódicos e 10 capítulos de livros.

Tempos de Freiburg

Parte 2: Finalmente residentes em Freiburg

Carlos B. Reissmann*

Para nossa instalação efetiva havia várias questões de caráter administrativo a serem resolvidas, tais como inscrição na universidade, abertura de contas bancárias, contrato de aluguel, compra de utensílios domésticos, etc. Tudo foi resolvido sob a tutela do atencioso José Geraldo Carneiro meu ex professor e saudoso bom amigo.    

Recém chegados, estranhamos o horário de bondes e trens, pois era difícil crer que 13h37min por exemplo, fosse um horário plenamente obedecido. O que depois se confirmava, salvo raríssimas exceções. Impressionava também, a estrita obediência aos sinais de trânsito, tanto de motoristas quanto de pedestres.

O sotaque da região era muito diferente daquele que eu trazia de casa, o alemão falado na Alta Saxônia, criando alguns embaraços na hora de pedir informações.

Logo eu iniciaria meus estudos no Instituto de Solos e Nutrição Florestal da Universidade Albert Ludwig (Figura 1). A Universidade foi fundada em 1457 e inaugurada em 1460. Quarenta anos antes de Cabral aportar na costa brasileira.

Figura 1: Ilustração da Universidade Albert Ludwig de Freiburg i. Br. em 1911.

A ilustração da Figura 1 consta do álbum fotográfico e histórico da universidade de acordo com Rudolph-Werner Dreier, publicado em 1991. O Instituto de Solos e Nutrição de Plantas está destacado em branco. Funciona até hoje no mesmo local, na Bertoldstrasse 17, onde modernos bondes circulam atualmente.

Os edifícios da Universidade estão associados aos Jesuítas, cuja ordem ali se instalou em 1620 e construiu o grande colégio de então.

Agora eu havia transposto meu imaginário muro. Não tão imaginário assim, pois dele ainda restavam os portais Martinstor, construído por volta de 1202 e o Schwabentor (Fig. 2), sendo este último mais recente, construído em torno de 1250.

Figura 2:  Ilustração da Schwabentor, por Ernst Hildebrand 1992

A pintura da Figura 2 é uma reprodução artística em aquarela, de um dos portais remanescentes. Obra do meu saudoso amigo e contraparte Ernst.

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Carlos Bruno Reissmann, nascido em Porto União – SC, em 1945. É Engenheiro  Florestal pela UFPR. Realizou o doutorado na Albert Ludwig Universität de Freiburg i. Br.- Alemanha e Pós-doutorado na Michigan State University – EUA.  Publicou três livros, sendo um em destaque, A Fada do Mangue, adaptação para uma linguagem infanto-juvenil de resultante de projeto científico em questões ambientais. Da sua produção científica ainda constam 108 artigos em periódicos e 10 capítulos de livros.

Tempos de Freiburg

Parte 3: O dia a dia em Freiburg

Carlos B. Reissmann*

Uma coisa bastante agradável no Instituto era a hora do intervalo dos trabalhos. Reuniam-se todos numa sala em torno de uma grande mesa, desde o diretor do Instituto, secretária, doutorandos, técnicos e laboratoristas (Fig. 3). Ali, discutia-se abertamente o andamento dos trabalhos, celebravam-se aniversários com bolo e café, bons resultados das pesquisas eram brindados com vinho branco diluído com água gaseificada. Às vezes, compartilhavam-se problemas de família também. Além disso, havia o dia do “Betriebsausflug” ou passeio institucional para algum parque ou local aprazível, realizado no horário do expediente com o objetivo de manter o bom convívio do grupo.

Figura 3:  Reunião de fim de ano, último dia antes do natal de 1979. Da esquerda para direita, Prof. Zöttl, Sra. Schlenker a laboratorista, uma doutoranda e eu.

Havia vários brasileiros da UFPR, entre bolsistas do DAAD, do CNPq ou da Fundação Humboldt, estudando em diferentes áreas de conhecimento. Como integrantes do Convênio de Freiburg éramos em sete doutorandos ao todo. Morávamos no mesmo núcleo residencial na Ferdinand WeissStrasse., 96 no bairro Sthülinger.

Encontravamo-nos mais amiúde e normalmente nos reuníamos às sextas-feiras à noite para confraternizar. Com revezamento alternado, um dos conjuges era designado para cuidar dos filhos pequenos que ficavam em casa.

Outras oportunidades nas quais nos reuníamos eram os aniversários, tanto das crianças quanto dos adultos (Fig. 4 e Fig 5).

Figura 4: Crianças reunidas à mesa de festa, no segundo aniversário de Carlos Rodolfo diante do bolo.

Figura 5: Comemoração do aniversário de Carlos Rodolfo (Agosto 1979), com os amigos reunidos em nossa sacada. À esquerda vemos Dietrich Burger, pesquisador e professor do Convênio de Freiburg e padrinho do Rodolfo.

Nesta sacada do apartamento a Liliane teve uma experiência inusitada. Num dia de inverno com bastante sol não atentou para o fato de a temperatura estar abaixo de zero. Estendeu ali algumas toalhas para secar e quando as foi recolher estavam duras como tábuas.

Essas reuniões com os amigos nos ajudavam a renovar as energias e desabafar a respeito das dificuldades ou algum inconveniente, buscando um ombro amigo. Como é de se esperar, o trabalho de doutorado exigia muito empenho em biblioteca, laboratório, seminários e/ou em casa de vegetação.

Nem tudo eram flores. Eu tive muita dificuldade ao usar uma casa de vegetação que estava ocupada por uma coleção de orquídeas do professor de fisiologia vegetal, aos cuidados de uma laboratorista. Foi preciso muita diplomacia (leia-se jeitinho), para compartilhar com meus experimentos. Suponho que ela temia que meu experimento pudesse contaminar e adoecer as orquídeas.

Na apresentação de um seminário, com meus primeiros resultados aconteceu um fato bastante curioso. O crescimento rápido de nossos plantios florestais não era do conhecimento de todos os pesquisadores alemães. Quando apresentei dados de crescimento de um sítio de Pinus taeda com altura dominante de 16 metros aos oito anos de idade, um assistente levantou e, pedindo licença, corrigiu meu número oito na lousa acrescentando um zero, 80 portanto. Não acreditara que o pinus pudesse crescer 2 metros em altura por ano. Na opinião dele eu certamente errara. Precisei corrigi-lo e apaguei o zero e o Prof. Zöttl teve que intervir para convencê-lo em definitivo.

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Carlos Bruno Reissmann, nascido em Porto União – SC, em 1945. É Engenheiro  Florestal pela UFPR. Realizou o doutorado na Albert Ludwig Universität de Freiburg i. Br.- Alemanha e Pós-doutorado na Michigan State University – EUA.  Publicou três livros, sendo um em destaque, A Fada do Mangue, adaptação para uma linguagem infanto-juvenil de resultante de projeto científico em questões ambientais. Da sua produção científica ainda constam 108 artigos em periódicos e 10 capítulos de livros.

Tempos de Freiburg

Parte final: Percalços e amenidades

Carlos B. Reissmann*

Dentre o grupo de brasileiros nos ajudávamos mutuamente e trocávamos informações importantes, sem nunca esquecer da nossa universidade e do nosso amado Brasil.

Durante os passeios pela encantadora Floresta Negra ou aos lagos belíssimos como o Titisee (Fig. 6), lembrávamos saudosos da Serra do Mar e do nosso litoral paranaense.

Figura 6: Liliane com nossos filhos Renata e Rodolfo junto ao Lago Titisee, primavera de 1978.

Liliane completaria os estudos de alemão no Instituto Goethe oferecido às esposas dos doutorandos. Nosso filho mais novo ficava sob os cuidados de uma brasileira, esposa de um doutorando vizinho, enquanto Renata frequentava o jardim de infância. 

Foi nesse período no Goethe Institut que Liliane conheceu esposas de imigrantes portugueses. Por vezes, os encontrávamos nos parques. Como estavam na Alemanha há mais tempo, nos ajudavam com compras de produtos que normalmente não se encontrava nos mercados alemães, tais como o saboroso café colombiano, feijão preto e, inclusive o bacalhau salgado. Eles mantinham uma pequena cozinha comunitária, “ligeiramente clandestina”, nos fundos de uma oficina mecânica onde nos confraternizamos e almoçamos juntos alguns domingos.

Certa vez, Liliane, eu e as crianças e mais dois casais, fomos até Hamburg visitar o Dr. Hanz Georg Richter que já havia retornado à Alemanha. Ele foi meu mentor numa bolsa de iniciação científica em 1970. Suspeito que esse estágio pode ter sido o primeiro degrau de minha escada imaginária.  Jorgo, como era conhecido entre nós, recebeu-nos em seu jardim e depois na casa, no seu canto alemão envidraçado, com refrescos, cerveja e uma torta de ruibarbo que ele mesmo fizera. Nem todos apreciaram a torta, mas foi um final de tarde maravilhoso com muitas celebrações e lembranças maravilhosas junto com sua família.

Em qualquer lugar do mundo nos shoppings, supermercados ou lojas há sempre um cestão de ofertas com alguns produtos, colocados em algum ponto estratégico do estabelecimento.

Numa dessas ocasiões, passando pela seção de roupas, chamou-me a atenção um grande cesto cheio de pijaminhas para crianças, tipo macacão, com estampas coloridas em formato de corações, onde várias mamães disputavam o produto em oferta. Entrei na disputa procurando os corações verde-amarelos e azul-brancos em referência à bandeira do Brasil. Meu empenho na busca dessas duas cores chamou a atenção da gerente, que veio me questionar pelo alvoroço que eu causava. Ao dizer que buscava as cores da nossa bandeira, não acreditou que eu fosse brasileiro, a ponto de eu ter que apresentar os documentos como bolsista do DAAD. Disse-me que achava que no Brasil só existissem pessoas morenas, ficando muito impressionada quando lhe falei sobre as várias origens étnicas que convivem no nosso país, muitas delas vindas da Europa.

Tendo que ampliar meus conhecimentos sobre química analítica, fui tomar algumas aulas na Faculdade de Farmácia, que oferecia tal curso no semestre de inverno. Estacionei na rua em frente ao prédio e deixei o carro sob uma garoa gélida. Quando retornei ao veículo, um Ford Escort amarelo, havia um bilhete preso sob o limpador de para-brisas. Lia-se o seguinte: desculpe, abalroei e danifiquei o seu carro na lateral devido a derrapagem no glatteis (gelo liso traduzindo literalmente). Deixo meu telefone e da minha seguradora, por favor, entre em contato.

É um acontecimento muito comum, quando uma fina camada de gelo cobre a superfície do solo gelado. Às vezes, é difícil andar e permanecer em pé, direcionar ou frear o carro. De início me assustei e não sabia muito bem como proceder, apesar de estar estacionado regularmente e ainda dentro do prazo.

Falei com um colega do instituto, que fez toda a intermediação e agendamos uma visita e inspeção pela seguradora. Dois de meus colegas brasileiros deram uma olhada e me disseram que os amassados poderiam ser facilmente consertados por eles mesmos em nossa garagem. Uma boa cera em cima, polimento e o carro ficaria como novo. Orientaram-me no sentido de optar pela indenização em espécie em vez de consertá-lo em uma oficina indicada pela seguradora. 

E assim foi feito. Meus amigos funileiros deixaram o meu “carango” quase novo novamente.

Como há tempos eu vinha namorando uma Nikon, que tenho até hoje, apliquei toda a indenização na compra da câmera e ainda deu para comprar uma objetiva zoom de 200 mm da Vivitar! Tudo graças à amizade e ao jeitinho brasileiro.

Antes de retornar ao Brasil, vendi o fordinho ainda bastante apresentável a uma laboratorista do instituto. Ela me escreveu um ano depois que, numa noite de bebedeira, o marido errou uma ponte e caiu na valeta. Dessa vez não tinha conserto para o carro, mas o marido estava bem.

Saudades de um bom tempo de aprendizado e companheirismo.

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Carlos Bruno Reissmann, nascido em Porto União – SC, em 1945. É Engenheiro Florestal pela UFPR. Realizou o doutorado na Albert Ludwig Universität de Freiburg i. Br.- Alemanha e Pós-doutorado na Michigan State University – EUA.  Publicou três livros, sendo um em destaque, A Fada do Mangue, adaptação para uma linguagem infanto-juvenil de resultante de projeto científico em questões ambientais. Da sua produção científica ainda constam 108 artigos em periódicos e 10 capítulos de livros.

Eintopf

Os primeiros seis meses na Alemanha passamos em Freiburg com a finalidade precípua de estudar o alemão. Frequentei o Instituto Goethe durante todo o tempo. Minha esposa tomou aulas naquela instituição nos últimos três meses, tudo pago pelo DAAD. Na primeira metade do tempo na localidade, a Neusa realizava autoestudo de alemão e tomava algumas aulas gratuitas na Universidade.

O nosso dia a dia era constituído por aulas na parte toda da manhã, almoçar e perambular pela cidade no restante do dia. As tarefas e estudo do idioma eram realizadas à noite. Como eu sempre gostei de gibi, comprava as historietas de Walt Disney em alemão, do Pato Donald, Mickey etc. De muitas estórias, eu já conhecia o texto em português e assim, era fácil entender os diálogos em alemão. Certamente, isso ajudou bastante o meu aprendizado do idioma.

 Foi nos passeios à tarde que tivemos a oportunidade de conhecer cada canto da cidade, principalmente os centros comerciais e instituições turísticas como museus e igrejas.

Catedral Münster de Freiburg, 1973
Na torre da Münster, 1973

Em finais de semana e feriados, aproveitávamos para conhecer algures por fora dos limites urbanos. Tais aventuras incluíam viagens para outras localidades do estado de Baden-Württemberg e de países vizinhos como Suíça e França.

Mapa do sul da Alemanha, na divisa dos três países.
Em Schaffhausen, com amigos alemães, 1974
Carnaval de rua na Basiléia, 1974

Na maior parte das vezes, almoçávamos no Mensa, denominação geral dada aos restaurantes universitários (R.U.) na Alemanha. Havia um central, bem ao lado da Universidade, talvez o mais frequentado. Um outro, localizava-se num Campus mais ao nordeste do centro. A nossa preferência era pelo Mensa central, pois ficava perto de tudo: do Goethe e do apartamento onde morávamos.

O maior atrativo, sem dúvida, era o preço da alimentação. Pelo equivalente a uns R$ 5,00 de hoje, tinha-se uma refeição de qualidade aceitável e preparada com a supervisão de profissionais, para garantir a constituição nutricional adequada para uma clientela majoritariamente de jovens. A base de carboidratos dos alemães é a batata (Kartoffel), presença obrigatória similar ao arroz do brasileiro. As proteínas animais eram constituídas por ovos e carne suína. Carne bovina era um artigo de luxo.

Uma vez por semana era servido o Eintopf.

Um prato típico alemão, com constituição nutricional completa: proteína, carboidrato e vitaminas, apresentado no formato de um ensopado. Prato único da refeição. No caso do Mensa, à exceção da salsicha, todos os demais ingredientes eram cozidos juntos e depois passados num processador para formar uma espécie de vitamina salgada.

Ideia de como era o “Eintopf-Submarino”. Aquarela sobre papel, 2023.

Enfileirávamo-nos para pagar e receber um prato de Eintopf: prato fundo com o ensopado e uma grande salsicha mergulhada. Chamávamos de “O submarino”!

De sobra, havia uma sobremesa de Apfelmus.

A luminária colorida de Freiburg

A nossa morada durante meio ano em Freiburg foi um quarto num prédio administrado para alunos do Instituto Goethe, também patrocinado pelo DAAD. Situava-se do outro lado da estação ferroviária central (Hauptbahnhof) que alcançávamos através de um viaduto para carros e pessoas. Praticamente, era um outro bairro da urbe, bem movimentado com uma importante igreja com duas torres em estilo gótico, comércio e residências. O centro ficava do lado oposto do viaduto, onde estavam o Goethe, a Universidade, o Mensa e o comércio mais movimentado.

Caminhando para o Instituto Goethe com o casal Hosokawa, 1973.
Montanhas Vogesen na França vistas da janela do apartamento. Detalhe de trem estacionado. 1973.

Ao largo da catedral Münster (Münsterplatz), no ponto central de Freiburg, havia diversos edifícios antigos, dentre os quais, a histórica Loja de Departamentos (Historisches Kaufhaus). Trata-se de um dos monumentos mais importantes da cidade, destacando-se pelo colorido vermelho vivo de sua fachada, exibindo uma arquitetura belíssima e única. Funcionou ali a primeira loja de departamentos, atualmente um centro de informação para turistas. É também na Münsterplatz que ocorre a feira livre aos sábados, onde se pode comprar alimentos, flores e artesanatos. Há dias que é quase impossível andar livremente por ali. Certamente, é a oportunidade para rever os amigos e colocar a conversa em dia.

Kaufhaus de Freiburg, 1973.
Feira livre na Münsterplatz, 1973.

O limite urbano leste de Freiburg determina o início da formação florestal conhecida como Floresta Negra (Schwarzwald). A formação mais próxima é denominada Morro do Castelo (Schlossberg), que pode ser alcançada a pé e por meio de um teleférico. É o ponto turístico mais elevado, de onde se pode ver toda a cidade e o seu prolongamento para o leste até o sopé da Floresta Negra. Do centro, o caminho é feito por um longo viaduto que atravessa belos jardins e rodovias.

Pela primeira vez eu percebi a importância da tecnologia de engenharia na construção de pontes e viadutos. Estávamos a caminho para o Schlossberg e parei no meio do viaduto, apoiando-me em seu beiral para apreciar o movimento de pessoas e carros por baixo. A sensação que senti, do balançar do viaduto causado por vácuo produzido pelos carros em alta velocidade, foi algo inesquecível. Deduzi, então, que a flexibilidade da obra arquitetônica era devido ao aço utilizado na construção. Além de um certo temor, senti também uma espécie de náusea. Esta mesma sensação eu experimentei, anos mais tarde, em tremores de terra que presenciei no Japão e no México.

Vista geral da passarela para Schlossberg, 1973.
Sobre a passarela do Schlossberg, 1973.

No prédio onde morávamos tinha só um banheiro geral por andar, para servir ao moradores. Era um espaço bem amplo, com setor para o lavatório e vaso sanitário e um setor para o banho, com cortina. Tudo num único aposento. Se alguém estava tomando banho, era preciso segurar a vontade de urinar por um bom tempo.

O nosso quarto era amplo, estimo de uns 20 m², com espaço para duas camas, que juntávamos para formar uma cama de casal, armários e um nicho com mesa e cadeira para múltiplos usos: estudar e comer. As janelas eram igualmente amplas, com vidro duplo e duas formas de abrir: lateralmente e inclinadamente. Perfeitamente isolada ao som e a temperatura. Destas janelas, tínhamos uma visão para todo o espaço da estação ferroviária, com inúmeros trilhos por onde transitavam e manobravam as composições. Na linha do horizonte avistámos as montanhas da formação Vogesen (Vosges em francês) na vizinha França.

Na frente do prédio, com bolsista brasileiro, médico. 1973.
Neusa na janela, 1973.

No canto ao lado da janela havia prateleiras e apoiador, também para múltiplo uso. A iluminação do quarto era uma única lâmpada central de teto. Foi para melhorar as condições de luminosidade que a engenhosidade e criatividade foram acionadas. Surgiu daí a luminária colorida, confeccionada com papel canson e recortes de papéis coloridos. Tesoura, cola, barbante, peças elétricas, muita imaginação e mais paciência foram os ingredientes para a concretização de uma necessidade. O efeito decorativo impactante compensou as horas de labuta.

Ninguém mais tinha uma luminária colorida como aquela.

A luminária colorida de Freiburg, 1973.