Os textos desta coleção fazem parte do livro publicado em versão brochura, disponível para aquisição no Clube de Autores.
(https://www.clubedeautores.com.br)
Inoue, M.T. Quem matou Baretta? Curitiba, Ed. do autor, 2024. 104p.
ISBN: 978-65-01-00175-3
Nesta coleção, que agora disponibilizo gratuitamente aos meus leitores, o conteúdo segue a concepção original com 21 capítulos. Nesta versão, os textos são ricamente ilustrados.
CONTEÚDO
O sumiço de Baretta
A cena ocorre numa fazenda nos arredores da cidade. As pessoas discutem à beira de um riacho. São sete ao todo, sendo uma mulher e seis homens. O homem de chapéu estilo “Al Capone” fala calmo, porém decidido, com outro que parece ter sido sequestrado, pois estava com as mãos atadas, amordaçado e a cabeça encapuzada. O de chapéu ordena que um dos capangas libere a mordaça e capuz. Continuam a discussão, agora mais acirrada. De repente, a mulher desembainha um katana de samurai e desfecha um golpe profundo na barriga do prisioneiro. Em seguida, o homem do chapéu aponta seu revólver e dispara quatro tiros.
Depois, levam o cadáver até a debulhadora de milho que estava à beira do riacho. O corpo foi retalhado e triturado e as partes foram jogadas na água, assim como a máquina. Apressadamente, limpam todo o terreno onde houvesse algum respingo de sangue ou carne, jogando tudo no ribeirão. Certificando-se que tudo estava limpo, adentram os veículos e rumam de volta à cidade.
Na outra margem, escondido na mata, estava um garoto de seus 12 anos que ali estivera pescando. Ao perceber a movimentação, procurou se esconder e ficou observando, temeroso, mas curioso, o desenrolar daquela cena criminosa. Parece que ninguém percebeu a sua presença, pois os homens e a mulher rapidamente sumiram com seus carros.
Cena do menino que pescava e tudo viu acontecer na outra margem do riacho.
Quando isso aconteceu era um domingo à tarde. Na cidade, o movimento da mocidade participando do footing na avenida principal ou na entrada do Cine Municipal, o único da localidade, era o que se podia notar. De resto, naquele restante de final de semana na cidade do interior tudo era um marasmo. Na zona rural então, não havia movimento de pessoas.
Como de costume, na segunda-feira logo de manhã, lá estava Enrico Bacatto para abrir o comércio de secos e molhados de propriedade de Baretta Carpaccio. Deu uma limpada básica no balcão de atendimento, colocou os principais produtos ensacados mais próximos das portas, assim como postou os estandes de cartaz com as ofertas da semana. Enrico teve que atender sozinho a venda de mercadoria e os respectivos acertos contábeis, incluindo a conferência da feira no final do dia, tudo em dinheiro. Na época, ainda não havia a compra com cartão de crédito e a emissão de cheque era coisa bastante rara. Havia um volumoso caderno de anotações onde estavam registradas as vendas a fiado, coisa rotineira daquele tempo. Na hora dos acertos, o patrão sempre atentava para acrescentar alguns juros por conta do financiamento aos clientes.
Enrico não se preocupou muito com a ausência do patrão, pois este costumava aparecer tarde ao serviço. Ou, às vezes não aparecia, principalmente numa segunda-feira. Geralmente, o domingo era reservado para o seu descanso. Ou cansaço, com a orgia que volta e meia realizava com suas amigas de prazeres carnais. Baretta nunca se casou, pois dizia ser mais divertido ter uma vida diversificada, com companhia permanente de mulheres jovens, renovadas de quando em quando. Vivia sozinho na zona rural, numa casa ampla e muito bem cuidada. As noitadas e finais de semana com alguns poucos amigos e muitas garotas de programa movimentavam aquele antro para encontros furtivos.
Terça-feira era feriado, dia da Proclamação da República. No dia seguinte, Enrico começou a se preocupar com a ausência do patrão. No final da tarde resolveu fechar o estabelecimento comercial mais cedo e pegou um taxi para se dirigir à casa de Baretta.
Na época, a zona rural era desprovida de linhas de telefone. E ele não se preocupava em instalar um equipamento de rádio chamada. Logo na entrada da propriedade, Enrico percebeu que a porteira estava apenas encostada e não travada, como deveria estar. Chegando à casa, a porta não estava trancada. Já antevendo uma situação, chamou várias vezes por Baretta, sem resposta. Procurou por todos os aposentos, não encontrando ninguém. Verificou se havia algum bilhete anotado em mesas e balcões. Nada.
Quando Enrico chegou à delegacia de polícia já era noite. Fez o boletim de ocorrência, pois o desaparecimento de Baretta podia ter acontecido na noite de sábado e assim, já havia decorrido mais de quatro dias.
No dia seguinte, quinta-feira, iniciou-se a investigação sobre o sumiço de Baretta.

