Contos Classificados

Esta coleção contempla textos que foram submetidos em concursos literários e chamadas públicas e classificados.

A redação pode diferir de textos anteriormente publicados em função de seguir as regras para cada chamada.

As ilustrações foram concebidas por mim e elaboradas com o auxílio de IA (Inteligência Artificial).

CONTEÚDO

A inundação da vila de Totsukawa

Os pensamentos foram interrompidos por um estrondo surdo vindo do noroeste da vila. Justamente naquela direção, a uns 500 metros, tinha sido construída uma barragem. Esta não suportou o volume acumulado de água e rompeu-se, inundando a usina e contribuindo para um volume do rio Totsukawa nunca antes visto. Todas as choupanas mais próximas da margem foram as primeiras a serem inundadas e arrastadas rio abaixo. Pedras e árvores não aguentaram a violência do turbilhão, sendo levadas como se fossem palha de junco na água.

Dramatização visual da catástrofe ocorrida na vila de Totsukawa.
Concepção por ©2026 martakino, com auxílio de Gemini do Google.

A cena dramática dos camponeses assistindo impotentes a destruição de suas choupanas era chocante. Os gritos desesperados de socorro daquelas pessoas, que não tiveram tempo de correr para um local mais seguro, ecoaram por apenas alguns segundos, antes que tudo fosse levado pela correnteza.

– Vamos subir para um local mais elevado!
– Sim, lá no alto mora a família Nambe.
– É certo que eles nos ajudarão, disse Mitsuhiro. O Shirogoro também descende de bushido.
– Vamos, venham que a água está subindo muito rápido!

Não havia tempo suficiente para salvar alguma coisa. As famílias Oka e Tetsuoka subiram o vilarejo levando apenas o que podiam carregar. Como Mitsuhiro predisse, a família Nambe recebeu as duas famílias com carinho.

Procedimento similar foi adotado por outras famílias da vila. Como todos se conheciam, o companheirismo era no que restava para se apegar.

Para Yasukichi, mirar aonde antes estavam suas choupanas era muito desolador. A água havia tomado conta de todo o baixo vilarejo. O pouco que possuíam havia desaparecido como num passe de mágica. Mesmo as espadas de seu pai já não mais existiam. Tentava imaginar como ele estaria se sentindo naquele momento. Não fazia ideia, em sua jovem cabeça, que assim tinha sido melhor. Nem imaginava que dali a alguns poucos anos, a figura de um samurai seria apenas uma recordação saudosista.

Os dias que se seguiram até o nível do rio retornar ao normal foram, no mínimo, emocionantes e inesquecíveis. Shirogoro e Mitsuhiro assumiram a liderança para organizar as estratégias de pós-tragédia, principalmente no que concerne à sobrevivência. A alimentação e o cuidado dos feridos e doentes eram os itens mais prementes. A choupana de Nambe tornara-se o quartel-general, onde foram acumuladas as provisões e medicamentos que se dispunham.

Felizmente, o estoque de arroz e sal era suficiente para algumas semanas. A fonte de vegetais comestíveis tinha que ser procurada, pois as roças da vila se situavam na parte baixa, agora totalmente inundada. Frutas silvestres, todo tipo de castanha ou semente comestível e raízes e tubérculos, eram alvos da procura, tanto para a alimentação imediata, como também para prover os próximos plantios nas roças. Algumas galinhas e cabras foram resgatadas, o que supriria um pouco a necessidade de proteína animal. A caça aos animais silvestres foi a alternativa emergencial para o suprimento de carne. Coelhos e cervos eram os principais alvos das caçadas.

A distribuição de alimentos tinha que ser muito bem administrada, pois eram as únicas fontes de sobrevivência. Dentre os desabrigados, os agricultores foram os que de imediato assumiram a tarefa de plantar alguma coisa que fosse possível servir para o preparo de comida. A necessidade apontou para a criatividade e curiosidade em se descobrir novas fontes alternativas de alimento. Mesmo algumas raízes de plantas, até então consideradas inócuas, foram experimentadas no preparo das refeições.

A primeira providência foi nomear um grupo de jovens para levar as notícias para Nara. Três rapazes voluntariaram-se para tal tarefa, a ser vencida a pé. Foram adequadamente provisionados para os três dias de viagem, considerando ida e volta. Levavam também espadas curtas e lanças de bambu, para se defenderem de possível abordagem por assaltantes. Felizmente, não houve incidentes preocupantes e retornaram carregados de alimentos, medicamentos e roupas, acondicionados em sacolas distribuídas em dois burros de carga. A chegada deles foi muito comemorada, como verdadeiros heróis.

Crônica classificada em concurso e publicada em “Vozes Nikkei” – Gaimusho Kenshusei – Ebook e físico – Associação Brasileira de Ex-Bolsistas, 2021, p:68-70. 2021

ISBN: 978-65-86928-22-8