Esta coleção contempla textos que foram submetidos em concursos literários e chamadas públicas e classificados.
A redação pode diferir de textos anteriormente publicados em função de seguir as regras para cada chamada.
As ilustrações foram concebidas por mim e elaboradas com o auxílio de IA (Inteligência Artificial).
CONTEÚDO
A inundação da vila de Totsukawa
Os pensamentos foram interrompidos por um estrondo surdo vindo do noroeste da vila. Justamente naquela direção, a uns 500 metros, tinha sido construída uma barragem. Esta não suportou o volume acumulado de água e rompeu-se, inundando a usina e contribuindo para um volume do rio Totsukawa nunca antes visto. Todas as choupanas mais próximas da margem foram as primeiras a serem inundadas e arrastadas rio abaixo. Pedras e árvores não aguentaram a violência do turbilhão, sendo levadas como se fossem palha de junco na água.
Dramatização visual da catástrofe ocorrida na vila de Totsukawa.
Concepção por ©2026 martakino, com auxílio de Gemini do Google.
A cena dramática dos camponeses assistindo impotentes a destruição de suas choupanas era chocante. Os gritos desesperados de socorro daquelas pessoas, que não tiveram tempo de correr para um local mais seguro, ecoaram por apenas alguns segundos, antes que tudo fosse levado pela correnteza.
– Vamos subir para um local mais elevado!
– Sim, lá no alto mora a família Nambe.
– É certo que eles nos ajudarão, disse Mitsuhiro. O Shirogoro também descende de bushido.
– Vamos, venham que a água está subindo muito rápido!
Não havia tempo suficiente para salvar alguma coisa. As famílias Oka e Tetsuoka subiram o vilarejo levando apenas o que podiam carregar. Como Mitsuhiro predisse, a família Nambe recebeu as duas famílias com carinho.
Procedimento similar foi adotado por outras famílias da vila. Como todos se conheciam, o companheirismo era no que restava para se apegar.
Para Yasukichi, mirar aonde antes estavam suas choupanas era muito desolador. A água havia tomado conta de todo o baixo vilarejo. O pouco que possuíam havia desaparecido como num passe de mágica. Mesmo as espadas de seu pai já não mais existiam. Tentava imaginar como ele estaria se sentindo naquele momento. Não fazia ideia, em sua jovem cabeça, que assim tinha sido melhor. Nem imaginava que dali a alguns poucos anos, a figura de um samurai seria apenas uma recordação saudosista.
Os dias que se seguiram até o nível do rio retornar ao normal foram, no mínimo, emocionantes e inesquecíveis. Shirogoro e Mitsuhiro assumiram a liderança para organizar as estratégias de pós-tragédia, principalmente no que concerne à sobrevivência. A alimentação e o cuidado dos feridos e doentes eram os itens mais prementes. A choupana de Nambe tornara-se o quartel-general, onde foram acumuladas as provisões e medicamentos que se dispunham.
Felizmente, o estoque de arroz e sal era suficiente para algumas semanas. A fonte de vegetais comestíveis tinha que ser procurada, pois as roças da vila se situavam na parte baixa, agora totalmente inundada. Frutas silvestres, todo tipo de castanha ou semente comestível e raízes e tubérculos, eram alvos da procura, tanto para a alimentação imediata, como também para prover os próximos plantios nas roças. Algumas galinhas e cabras foram resgatadas, o que supriria um pouco a necessidade de proteína animal. A caça aos animais silvestres foi a alternativa emergencial para o suprimento de carne. Coelhos e cervos eram os principais alvos das caçadas.
A distribuição de alimentos tinha que ser muito bem administrada, pois eram as únicas fontes de sobrevivência. Dentre os desabrigados, os agricultores foram os que de imediato assumiram a tarefa de plantar alguma coisa que fosse possível servir para o preparo de comida. A necessidade apontou para a criatividade e curiosidade em se descobrir novas fontes alternativas de alimento. Mesmo algumas raízes de plantas, até então consideradas inócuas, foram experimentadas no preparo das refeições.
A primeira providência foi nomear um grupo de jovens para levar as notícias para Nara. Três rapazes voluntariaram-se para tal tarefa, a ser vencida a pé. Foram adequadamente provisionados para os três dias de viagem, considerando ida e volta. Levavam também espadas curtas e lanças de bambu, para se defenderem de possível abordagem por assaltantes. Felizmente, não houve incidentes preocupantes e retornaram carregados de alimentos, medicamentos e roupas, acondicionados em sacolas distribuídas em dois burros de carga. A chegada deles foi muito comemorada, como verdadeiros heróis.
Crônica classificada em concurso e publicada em “Vozes Nikkei” – Gaimusho Kenshusei – Ebook e físico – Associação Brasileira de Ex-Bolsistas, 2021, p:68-70. 2021
ISBN: 978-65-86928-22-8
A marca indelével da infância
Lá estava eu apreciando a chuva torrencial que caia naquela tarde de verão em Londrina. Sentado tranquilo na enorme varanda que adornava a entrada para a sala da casa, pensava como seria o restante do dia chuvoso.
Eu tinha seis anos idade. Ainda não sabia o que era uma escola e nem me preocupava em pensar que um dia eu teria que começar a estudar. Só pensava em brincar, brincar e brincar.
Num grande terreno em frente da casa havia uma serraria que processava a madeira das principais espécies que abundavam na região norte do Paraná. Dentre elas, a mais valiosa e usada na construção de casas era a peroba-rosa. Depois, vinha o cedro-rosa e os diferentes tipos de canela, pau-marfim, cabreúva, entre outras.
A serraria ocupava uma grande área como pátio de estocagem de toras, que se localizava na enorme área livre, próximo da estação ferroviária. Devia ter mais de um hectare só para aquele pátio. A madeira já processada ficava num entreposto mais próximo da serraria, para uma rápida secagem antes de ser colocada em caminhões transportadores de madeira. A demanda era tão grande que não havia tempo hábil para um processo de secagem desejável. Principalmente a madeira de peroba secava in loco, nas paredes e pisos das casas.
O playground preferido da gurizada era o pátio de estocagem de toras.
Subir nelas, percorrer ao longo do tronco desafiando o equilíbrio, era uma aventura fascinante. Quando a serraria não conseguia acompanhar a frequência da chegada dos caminhões de toras, estas eram empilhadas uma sobre as outras. Devido as grandes dimensões, com a maioria das toras atingindo mais de um metro de diâmetro, o seu peso ajudava no equilíbrio e estabilidade das pilhas.
A chuva da tarde havia amainado. Quando a chuva parou de vez, não me fiz de rogado e saí para desfrutar um pouco da tarde que restava para brincar com meus amigos no pátio de toras.
Dentre os folguedos praticados, de esconde-esconde até aposta de corrida, talvez a preferida fosse o desafio de equilíbrio percorrendo ao longo das toras. Esta brincadeira em si não era tão perigosa. O que dava mais emoção era pular da extremidade de uma tora para a outra, imitando mocinhos e bandidos que pulavam de um vagão para outro, com o trem em movimento. Aquilo sim, era pura adrenalina!
Nem nos demos conta de que havia chovido até há pouco. A umidade ainda persistia sobre as toras. Mas, na inocência da idade e no afã de desafiar o perigo, brincávamos despreocupadamente.
Ilustração de como seria a cena antes da tragédia.
Concepção por ©2026 martakino, com auxílio de Gemini do Google.
Foi num desses lances de pular da ponta de uma tora para outra, que escorreguei e meu corpo foi ao ar e na queda, bati o topo traseiro da cabeça na extremidade cortante da primeira tora.
Daí para o início de choro e grito, foram longos segundos. Gravei minha identidade na tora com meu próprio sangue. Os amigos foram solícitos em me socorrer, tentando conter os jatos de sangue com as mãos.
Ato contínuo, ajudaram-me chegar à casa, onde fui recebido com a maior surpresa e susto. Não me recordo de ter ido a hospital ou pronto-socorro. Eram instituições incipientes e também não havia esse costume. Foi feito um curativo em casa mesmo, com bandagem no entorno da cabeça, que devo ter ficado parecido com uma múmia.
Duas consequências daquele acidente: uma parte aprofundada no meu crâneo e tornar-me um Engenheiro Florestal.
Crônica classificada e publicada na Revista Brasil Nikkei Bungaku n.68, novembro 2021. p: 101-102. Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil
ISSN: 2525-3115
A menina do chapéu bucket
A antiga estrada de ferro Sorocabana era a principal ligação de transporte que cortava o estado de São Paulo desde a capital até a divisa com o estado de Mato Grosso do Sul. Tinha mais de 800 km de extensão e passava por inúmeras cidades e vilarejos. Muitas urbes tiveram o seu desenvolvimento caracterizado pela população de imigrantes de japoneses e seus descendentes.
Os vilarejos de Kore-mura e Are-mura eram vizinhos, separados pela linha férrea Sorocabana. Kore-mura ficava ao sul e Are-mura ao norte da ferrovia. A população não ultrapassava os dois mil habitantes, considerando as duas vilas. Kore-mura foi construída numa planície e caracterizava-se pelo comércio, serviços e zona residencial. Are-mura ficava num planalto e tinha aptidão para indústria, educação e lazer. Foi o conjunto da paisagem de planície, vale e planalto que motivou a preferência de imigrantes japoneses a se instalarem naquela região, pois os remetia à lembrança da terra natal. O desenvolvimento das urbes foi assim impregnado pelos costumes nipônicos. A arquitetura, os tipos de comércio e até a configuração de instituições como o cemitério lembravam os seus similares da terra do sol nascente.
Yure, conhecida pelo nome carinhoso de Yu-chan, era uma garota em idade escolar que vivia com sua tia, a senhora Oba. Yu-chan havia sido adotada pela Oba-san após a morte de sua mãe viúva. O pai falecera em idade jovem, de tuberculose.
Ambas residiam em Kore-mura, onde a tia trabalhava num restaurante, dia e noite. Durante o dia eram servidos pratos rápidos como ramen e yakimeshi para atender aos trabalhadores e funcionários da redondeza comercial. À noite, os pratos eram a la carte, variando de sushi e sashimi até pratos quentes como udon e diversos tipos de domburi. Tendo que ficar a maior parte do tempo sozinha, Yu-chan aprendeu desde cedo os afazeres domésticos e o caminho para a escola que ficava em Ake-mura. Esta vila sediava o cemitério no alto da montanha, nos moldes do Japão, com os túmulos enfileirados em terraços obedecendo às curvas de nível. Aos domingos, Yu-chan visitava o túmulo de sua mãe para o seu diálogo reflexivo enquanto regava carinhosa e abundantemente a cruz de concreto.
Naquele dia, Yu-chan saiu alegremente para a reverência semanal, sem antes se esmerar em sua indumentária: saia e blusa que usava como uniforme e seu chapéu amarelo tipo bucket ganho em seu aniversário. No Japão, praticamente é obrigatório às crianças usar algum tipo de chapéu ou boné para melhor serem visualizadas pelos motoristas. Chegando ao cruzamento da linha férrea, aguardou a passagem do trem, lembrando a rigorosa orientação de cuidados recebida de sua tia. Embora acostumada, assustou-se com o estridente apito e o ranger das rodas da locomotiva.
A menina aguardando a passagem do trem.
Concepção por ©2026 martakino, com auxílio de Gemini do Google.
Sentindo-se segura, atravessou a linha e ganhou o caminho para o cemitério. Antes, conferiu sua silhueta na vidraça da primeira loja. Percebeu que estava sem o chapéu. Lembrou que o havia tirado para escovar uma vez mais o seu cabelo antes de sair.
A menina olha seu reflexo na vitrine e vê que está sem o chapéu.
Concepção por ©2026 martakino, com auxílio de Gemini do Google.
– Devo ter deixado sobre a mesa – pensou.
Chegando ao cemitério, notou algo diferente no túmulo de sua mãe. Havia mais uma sepultura ao lado, recém-fechada e com um vaso de flores frescas. Nela havia uma cruz, em madeira, menor.
Sobre a pequena cruz, um chapéu bucket amarelo, manchado de sangue.
Concepção por ©2026 martakino, com auxílio de Gemini do Google.
Crônica classificada para a Antologia Literária 2022 – Meu Japão Brasileiro. Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil. p.: 39-40.
ISBN: 978-65-84753-10-5
A primeira noite na casa da vizinha
A nossa casa ficava nos fundos do terreno, com entrada independente e separada por uma cerca de balaústre. A casa era toda em madeira de peroba, pintada. Numa das paredes laterais da casa eu brincava de “pau-de-sebo”. A inspiração, é claro, veio do passeio à uma quermesse onde, entre outras brincadeiras e gincanas, havia o verdadeiro “pau-de-sebo”. Consistia num longo poste roliço de madeira fixo seguramente ao chão, em cujo alto havia um círculo ou quadrado em madeira, onde os brindes ficavam pendurados. Além de outros bens, dinheiro era fixado na ponta do poste. O nome da gincana advém de o poste ser todo besuntado com sebo de vaca, o que propicia uma superfície extremamente escorregadia. Muitas vezes, o candidato estava quase a pegar o brinde e escorregava poste abaixo.
O meu “pau-de-sebo” era o encanamento d’água que ficava preso a parte externa da parede. Havia uma certa distância entre esta e o cano, o que propiciava espaço suficiente para pequenas mãos abraçarem o “pau”. O cano era besuntado com sebo que sobrara da da carne do almoço. Foram algumas horas de folguedo que passei brincando com o artefato improvisado.
Na parte da frente do terreno havia uma casa em alvenaria onde morava um casal jovem, ainda sem filhos. A esposa era professora numa escola da redondeza. O marido trabalhava em escritório de contabilidade. O relacionamento com a nossa família era amistoso, com frequente troca de favores.
Certa ocasião, o marido da vizinha viajou a serviço. Assim, a vizinha abordou a minha irmã sobre a possibilidade de eu pernoitar na casa dela. Nunca entendi direito a intenção ou desculpa de ela ter alegado medo em dormir sozinha. Alegações a parte, ficou acertado de eu pernoitar aquela noite em sua casa.
Como criança, eu não tinha maiores preocupações, pois estava acostumado a dormir sozinho. Na minha família, éramos apenas minha irmã, meu cunhado e minha sobrinha, que na época também dormia em seu próprio quarto.
No entanto, os adultos tem outras preocupações. A maior preocupação de minha irmã era a de eu sujar o lençol da vizinha. Garoto travesso que não conhecia calçado durante os folguedos, correndo pra cima e pra baixo nas ruas e terrenos baldios, certamente tinha acumulado muito sujeira nos pés. Assim, ela até me ajudou num esmerado banho, caprichando para tirar todo o encardido de meus pés.
A limpeza esmerada dos pés.
Concepção por ©2026 martakino, com auxílio de Gemini do Google.
Após a requintada higiene, jantamos e fui levado à casa da vizinha. Ela recebeu-nos com a aguardada cortesia e simpatia. Após o bate-papo de praxe, indicou o quarto onde eu iria dormir. Minha irmã colocou-me a deitar e cuidadosamente embrulhou meus pés com um lençol que trazia consigo. E ainda me fez recomendações típicas de mãe.
Na manhã seguinte, a vizinha acordou-me e convidou para tomar café junto, antes dela sair para o trabalho.
Assim foi a minha primeira noite na casa da vizinha.
Crônica classificada e publicada na Antologia Literária 2023 – Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil. 2023. p: 41-42
ISBN: 978-65-84753-17-4
Dona Cidinha
Quem não se lembra do primeiro dia de aula?
O ano era 1954. Eu iria completar oito anos de idade em setembro.
A escola foi construída em madeira, com piso elevado do solo, apresentando um amplo e profundo porão, possível de se entrar e ficar de pé, facilmente. O prédio era comprido, com salas de aula em ambas as fachadas, frontal e traseira, com varandas. Um amplo pátio na frente do prédio servia como local para os alunos se perfilarem e entoar os hinos todos os dias, antes do início das aulas. Servia também para as aulas de educação física e jogos coletivos. Pelo beiral da varanda frontal é que era tocado o sino, sempre por algum aluno, avisando que chegara a hora de se perfilar para o hino. Entoava-se o Hino Nacional Brasileiro, Hino da Independência, Hino do Paraná e Hino da Bandeira, que eu me lembro. Cada dia um hino. Cada dia um aluno diferente, escolhido dentre os que se destacavam nas aulas. Minha sala do primeiro ano ficava na parte dos fundos. Não eram muitos alunos por sala, talvez uns 20. Chamávamos as professoras por Dona. A minha primeira professora foi a Dona Maria. Mulher enorme e robusta, cabelos negros e rosto arredondado. A sua voz era potente que nem precisava se esforçar para chamar a atenção de algum aluno.
Ao chegar à sala de aula, a primeira coisa que fez, após a chamada nominal a que atendíamos com um “Presente!”, ela escreveu na lousa com letras bem grandes:
“A pata nada.”
– Classe, leiam pra mim o que está na lousa.
A classe inteira, exceto eu, entoou em uníssono:
– A pata nada.
Eu consegui apenas dizer:
– A…
Era a única letra que eu conhecia, até então.
Que vergonha! A partir daquele momento, decidi que nunca mais iria me submeter a tamanho vexame por falta de conhecimento.
O tempo passou. Eu também passei, garbosamente, para o segundo ano primário.
Agora, a classe ocupava a sala mais à direita da fachada da frente do prédio, onde a altura do porão era mais alta.
A minha professora foi a Dona Cidinha. Diminutivo no nome, certamente devido ao seu porte esbelto e baixo, tipo “mignon”. Jovem ainda, talvez casada, de rosto estreito, olhos negros e pequenos e cabelos meio crespos, penteados para trás, combinando com o formato do rosto. Lábios finos, sempre bem vistosos com o uso de um batom de cor vermelho vivo. Elegante, por baixo de seu guarda-pó impecável, estava sempre de vestido tradicional, um palmo abaixo do joelho. Era bonita e seu semblante revelava uma mulher firme e segura de si, com total domínio, não só da matéria como também de suas responsabilidades como educadora.
A Dona Cidinha foi a minha primeira paixão. A alegria era ir à escola para assistir à sua aula. Quantas vezes ela me flagrou olhando-a deslumbrado. Eu disfarçava rapidamente, mas depois de um tempo, lá estava eu de novo, babando e abraçando-a com os olhos. Ela também disfarçava, fazia que não havia percebido nada ou que minha paquera não a afetava. Volta e meia, eu a chamava para me explicar alguma coisa qualquer, apenas com o fito de vê-la mais de perto. Foi nessa época que já começava a se evidenciar o meu caráter de exibido e bagunceiro. Foram alguns puxões de orelha e reguadas na cabeça que ganhei da Dona Cidinha. Mas o importante era ela estar do meu lado. Outras vezes, ficava de castigo no canto da sala, ao lado do quadro negro.
Era vergonhoso ficar de castigo no canto da sala.
Concepção por ©2026 martakino, com auxílio de Gemini do Google.
Quantas vezes o meu castigo era escrever 100 vezes uma determinada frase, do tipo “Eu devo me comportar na sala de aula”. Tal castigo era domiciliar. Para diminuir o trabalho de escrever repetidamente a mesma frase, eu amarrava dois lápis firmemente, formando um duplo, diminuindo pela metade o trabalho e o tempo para completar o castigo.
Final do ano letivo, liberado garbosamente para o terceiro ano primário, derradeiros momentos daquela paixonite infantil.
Crônica classificada e publicada no concurso “Viagem Literária” promovido pela Revista Projeto Autoestima. Antologia Viagem Literária, E-book, p. 21-24, 2022.
Duas cruzes no quintal
Eu estava indo ao local onde estava o tanque que servia de abrigo e aconchego da Freud, a minha tartaruga de estimação. O animal tornara-se amiga e confidente nos meus momentos de solidão e avidez pelos diálogos profícuos e incentivadores. O tanque estava instalado no chão, num canto do quintal junto à cruz surrupiada pela minha avó do túmulo do vovô enterrado na cidade de onde vínhamos. O local foi providencial, pois ela regava a cruz e reabastecia o tanque.
No caminho eu lembrei do dia em que nos encontramos.
Eu tinha quatro anos de idade e costumava brincar solto e sozinho, tanto no quintal da casa como também na rua. Era ainda de manhã e lá estava eu a balbuciar solitário quando avisto algo volumoso a se movimentar no meio da rua. Mais que depressa, arrumei uma vareta e comecei a cutucar aquilo que nunca havia visto até então. Era arredondado com uma carapaça dura cobrindo a parte superior do corpo e, pasmem, tinha cabeça e patas!
Tratava-se de uma tartaruga, certamente domesticada e que havia fugido da casa que tinha como lar. Devia ser da redondeza, pois na velocidade de seu andar, não poderia ter ultrapassado algumas centenas de metros.
Percebendo tratar-se de um animal, tentei brincar com o bicho, cutucando a cabeça, as patas e batendo no casco como se fosse um tambor. Estava tão entretido que nem percebi a chegada de um senhor, que puxava uma carriola-oficina de amolar instrumentos de corte, como facas e tesouras. Aquele senhor, de meia idade e estatura baixa, perguntou-me com uma voz forte, mas carinhosa:
– Ei menino, o que está fazendo?
– Tô brincando, né!
– Isso aí não é brinquedo pra ficar mexendo no meio da rua.
– Mas fui eu que achei e posso fazer o que quiser, né?
– Certo que foi você quem viu a tartaruga primeiro. Também é certo que ela pertença a alguém, pois estamos numa cidade e não no mato.
– Tá bem, mas eu gostei e quero pra mim.
– Vá dizer pra tua mãe trazer alguma vasilha.
Rapidinho, fui e voltei com uma bacia, suficientemente grande para abrigar o volume do animal.
Nesse ínterim, o amolador já havia virado a tartaruga de barriga para cima e aguardava. Fiquei surpreso e com dó, ver como o animal mexia suas patas e cabeça, desesperadamente. Por mais que se esforçasse para revirar, não conseguia o intento. Aquele senhor colocou o animal dentro da bacia, de barriga para cima e instruiu-me como cuidar do bichinho.
Durante um bom tempo, minha atenção esteve por conta de apreciar o dia a dia da Freud dentro de seu espaço restrito, adornado com algumas pedras e vegetais aquáticos. A sua alimentação era baseada numa dieta vegetariana, como alface e cenoura picada. Esta tarefa assumi como sendo exclusivamente minha pois, afinal, o animal de estimação era meu assim como a responsabilidade de tratá-lo.
Foi logo no início do nosso relacionamento que me veio a inspiração para tentar um diálogo com a Freud, que já se mostrava bastante amistosa para comigo.
– Bom dia amiga. Como você está se sentindo hoje?
-Boomm diiiaa. Eeeuu eessttouuu bbbeeemmm.
Para minha atônita e alegre surpresa, eu podia ouvir o que a tartaruga me dizia. Só que, numa velocidade de fala que era igual ao restante de seus movimentos. Muito lenta.
– Que bom, eu posso entender você, acabei falando, após o primeiro impacto.
– Sinto-me feliz em ter alguém para conversar e trocar experiências.
Naquele dia, nossa conversa ficou nisso. E demorou longos minutos.
Com o tempo, nossos encontros tornaram-se mais frequentes e longos, nos quais pude aprender muito sobre a vida dos animais, principalmente do ser humano.
– Por que você é devagar em tudo?
– Cada animal tem suas características. Eu não tenho pressa em me movimentar, porque não preciso. Assim, são também o bicho-preguiça, no Brasil, e o coala, na Austrália, dentre muitos outros.
– E o que você faz quando você é perseguida?
– Tenho minha carapaça, sob a qual posso me esconder todinha. Mas existem animais que mudam sua velocidade conforme a idade.
– Ah! Eu sei que a vovó anda bem devagar. Na verdade, tudo que ela faz, faz bem devagar.
– Isso mesmo. Com o tempo, ela aprendeu que a velocidade não significa uma vida mais feliz. Pra que tanta pressa, se o mundo não vai acabar hoje?
– Mas, a gente vê todo mundo andando cada vez mais apressado. Será que isso é necessário?
– A causa disso é a ganância típica do ser humano. No afã de ter para si cada vez mais, agride seus semelhantes e o ambiente. Esquece que assim destrói a própria casa e a si mesmo.
Continuando o diálogo, falamos sobre outras coisas relacionadas a curiosidade típica de uma criança.
– Vou guardar teus ensinos como guia da minha vida. Fico muito grato e feliz com o nosso encontro.
A minha rotina de aprendizado continuou por algum tempo, até que outras distrações apareceram em minha vida, comportamento típico de um garoto curioso, sempre receptivo a novas experiências. As nossas conversas foram tornando-se espaçadas. Mas a atenção aos tratos para com a Freud continuou como sempre.
Até que um dia aconteceu a tragédia. Como único menino da casa, peralta e inspirado, resolvi, por conta própria, guardar um pouco da linguiça servida no almoço, para dar à tartaruga em sua próxima ração. Coloquei um pedaço bem pequeno da carne, que ficou boiando na água. A tartaruga percebeu e abocanhou delicadamente o petisco. Percebendo que o animal gostara do almoço, fui colocando aos poucos mais pedaços da linguiça, abocanhados cada vez mais vorazmente pelo réptil.
O efeito da dieta diferenciada veio no decorrer dos próximos dias. Não se soube qual foi a causa, se a carne de porco, a gordura ou a tripa usada para confeccionar a linguiça. Em todo caso, a diarreia tomou conta do animal na semana daquela aventura gastronômica. O resultado foi fatal. Foi enterrado ali mesmo, no sítio de seu derradeiro habitat.
Por um longo tempo, persistiam duas cruzes no canto do quintal.
Lado a lado. Uma maior, outra menor.
Crônica classificada e publicada na Revista Brasil Nikkei Bungaku n.67, julho 2021, p: 43-45. Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil
ISSN: 2525-3115
O amanhecer de inverno na Pensão da Dona Piriquita
Naquela noite, eu não consegui dormir sossegado.
Talvez, o motivo mais acertado da dormida intranquila tenha sido o prenúncio de uma geada que ocorreria logo mais, ao amanhecer. O vento gélido que adentrava pelas frestas da parede de madeira naquele quarto do piso térreo era tão congelante que, mesmo com a cabeça e orelhas protegidas por um cachecol, ainda assim podia sentir aquele frescor incomodante por todo o corpo.
Além disso, em meio aos breves cochilos, sonhei que o espírito da Dona Piriquita tinha vindo puxar as minhas pernas. Esta crença é, entre outras, o folclore que envolve este emblemático monumento de Irati.
Enfim, chegou a alvorada daquele dia de julho. Quando acordei, já passava das 7 horas, vi a luz tímida do sol banhando o céu de um amarelo avermelhado lindo, que formava um pano de fundo perfeito para destacar a silhueta esbelta de um pinheiro adulto, que equilibrava heroicamente a sua diminuta copa arredondada.
Logo em seguida, uma espécie de neblina tomou conta da paisagem, comprovando de maneira inequívoca o fenômeno da geada. O branco do gelo que cobria a vegetação, superfície do solo, veículos, enfim, tudo o que estava ao ar livre, transmitia ao mesmo tempo, a sensação do frio e um nostálgico bem-estar em viver nesta região do Brasil. Há quem diz que aqui é terra de pinguim. Mas, a alternância nítida entre o verão e o inverno é importante fator, indispensável para a manutenção da ordem natural das coisas, entre outras, o florescimento de diversas plantas e controle populacional de muitos insetos.
No frio daquela manhã, o mais desejado era o café quentinho, servido em meio aos alimentos frugais do desjejum de uma pensão.
Não me lembro quem foi que fez uma observação sobre o pão servido, que fora comprado no mercado local no dia anterior ou antes.
– Será que não tem um pão mais fresco?
No que a dona da pensão, sem pestanejar, acrescentou.
– Aqui não é padaria, para ter pão fresco a toda hora.
Claro, que o dito ficou pelo não dito e não houve sequência do diálogo.
1º lugar – Crônica (Adulto Estadual) – III Concurso “Foed Castro Chamma” – 2020
Fillus, L.M.; Bittencourt, B.P.; Dalazona, F.J.(Org). Ponta Grossa: Texto e Contexto, 2021. 152p.
ISBN: 978-65-88461-24-2
Crônica classificada para a Antologia Literária 2021. Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil. P. 39-40
ISBN: 978-65-993103-8-6

